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CONSEQÜÊNCIAS DA SAÍDA DOS EUA DO COMANDO DAS OPERAÇÕES DA COLIGAÇÃO NA LÍBIA

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Algum tempo após a entrega do comando das operações da Coligação na Líbia, os coligados, principalmente a “União Européia” (UE) e a “Organização do Tratado do Atlântico Norte” (OTAN), começam a dar mostras de estarem sentido a passagem da liderança por parte dos EUA, bem como a redução da participação bélica dos norte-americanos.

O presidente estadunidense, Barack Obama, admitiu que a situação de “impasse militar” está aumentando, mas acredita que o principal intento foi alcançado, já que se evitou uma carnificina – algo sobre o qual há concordância geral, apesar das críticas que a Coligação tem recebido – bem como que o mandatário Muammar Kadhaffi está cada vez mais sob pressão para deixar o cargo – afirmação respaldada pelas declarações das autoridades envolvidas, como Van Rompuy, presidente do “Conselho Europeu”, que mostrou concordância com Barack Obama (EUA), com Nicolas Sarkozy (presidente da França) e com David Cameron (primeiro-ministro britânico) acerca da necessidade da troca de regime na Líbia. Rompuy afirmou:  “Nós não podemos proteger adequadamente a população civil se o grupo de Kadafi não partir”.

Deve-se destacar que acerca da pressão sobre Kadhaffi há concordância dos analistas, mas eles divergem sobre a certeza de seu afastamento, uma vez que o líbio poderá resistir, levando a um acordo que acabe garantindo-o no poder, mesmo que as lideranças ocidentais estejam convergindo para a conclusão de que a saída do líder líbio seja uma condição necessária à finalização do processo. No entanto, quanto mais tempo ela demorar, maior a probabilidade de Kadhaffi negociar sua permanência.

O Presidente estadunidense negou a possibilidade de que seu país retome a participação efetiva nas operações, declarando que continuará auxiliando com Inteligência, abastecimento e transporte. Afirmou que apesar das resposta do governo líbio, a OTAN está no comando a menos de um mês, precisando de mais tempo para concretizar os objetivos da Missão.

Analistas começam a apontar as perdas decorrentes do afastamento norte-americano. Um indicativo delas  foi expressado indiretamente pelo secretário geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, ao solicitar mais caças bombardeiros para atuar contra as forças de Kadhaffi, que vivem momentos de oscilação, perdendo terreno e recuperando-o, ressaltando-se que quando os recupera adota medidas de extrema violência, em especial contra a população civil.

O almirante norte-americano comissionado na OTAN, James Stavridis, declarou confirmando Rasmussen: “O que nós precisamos é de um pequeno número de caças de combate com maior precisão. Sem dar mais detalhes, eu acredito que os países fornecerão esses caças”.

O “Secretário Geral da OTAN”, por sua vez, manifestou a necessidade de mais equipamentos não apenas pelo esgotamento que começa a ocorrer para a Coligação, mas também pelas alterações na configuração dos combates e devido a tática que agora está sendo utilizada pelo governo líbio. Declarou: “No começo, atacamos edifícios militares e alvos fixos no solo e então, gradualmente, passamos a atacar tanques, veículos blindados e outros objetivos militares móveis. Nós também percebemos que Kadafi mudou sua tática e passou a usar veículos civis, escondeu tanques e veículos blindados nas cidades, usou escudos humanos etc. Isso tudo torna necessário adaptarmos novamente nossas táticas”.

Vários especialistas destacam que devido aos problemas apontados os europeus estão sendo questionados se têm condições de substituir os norte-americanos. Acrescentam ainda outra perda para a relativa saída dos EUA: as dificuldades na reposição de munições.

A explicação apresentada para isto passa pela forma como são adquiridos os armamentos nos contratos entre os europeus. Segundo alguns experts, a aquisição de certos armamentos normalmente se dá acompanhada de pouca munição, usando-a em momentos específicos para treinamento e quando o prazo de validade está se esgotando. Em vários países, as munições chegam a ser destruídas sem uso, já que os treinamentos com munição real são limitados e muitos exercícios são feitos com simuladores.

Os especialistas apontam que, concretamente, um primeiro resultado da saída de comando dos EUA foi o avanço das tropas de Kadhaffi sobre os rebeldes, razão pela qual estes se viram na situação de solicitar aos coligados uma ação militar terrestre.

Também apontam que a mudança de tática das tropas governamentais, conforme apontado por Rasmussen – com o procedimento desenvolvido na época da “União Soviética” em que se dispõe as tropas em lugares com grande concentração populacional (ao lado de mesquitas, hospitais, escolas, ou qualquer outro), para fazer um “escudo humano” contra os ataques –  está inutilizando a capacidade de fogo dos coligados.

O resultado é que, além de envolver civis, os erros da Coligação poderão ser usados propagandisticamente, pois levantam o fervor religioso e a indignação contra a morte de inocentes, notícias que são prontamente disseminadas pela mídia internacional.

Como o governo líbio tem a vantagem de conhecer o terreno e construir o cenário de maneira favorável, ele pode manter a ação violenta contra os rebeldes e a população civil indiscriminadamente, já que também tem grande capacidade ação sobre os alvos escolhidos.

Em qualquer caso, o efeito propagandístico é negativo para os coligados, já que Kadhaffi está na situação de não ter outra saída, exceto a resistência às últimas conseqüências. Exatamente pela nova configuração das concepções táticas e estratégicas, as armas de precisão tem sido tão necessárias, pois elas evitariam mortes de civis que, como dito, seriam usadas propagandisticamente pelo governo líbio. Isto está sendo identificado como uma perda imensurável gerada pela saída dos EUA.

Autoridades européias começam a admitir que os combates poderão durar muito tempo. O ministro da Defesa francês, Gerard Longuet, declarou: “Eu diria que há um certo risco de que esta guerra possa durar porque Kadhafi e a Líbia não são totalmente previsíveis. Sim, [o processo] é longo e complicado. E porque é complicado, demorará tempo”.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, concordando indiretamente com o francês afirmou que não deve haver invasão ou ocupação territorial. Talvez pelo temor de que esta ação invalide a já desgastada justificativa moral para a reação internacional contra Kadhaffi, ou talvez pelo temor de que possam estar trocando um problema por outro de mesma dimensão, seja em termos de ocupação territorial, seja pelo apoio que darão a possível novo antagonista do ocidente que possa estar latente no seio da rebelião.

Acreditam que devem ser mantidos os ataques contra as tropas governamentais para esgotar a capacidade de resposta do regime líbio e, paralelamente, cortar acesso a recursos, bloqueando contas bancárias de autoridades e do governo no exterior.

Ou seja, a estratégia continua sendo a do estrangulamento, por isso todos confluem para a convicção de que o resultado tende a ser demorado para ter o desfecho favorável. Da mesma forma, confluem também para a certeza de que a saída dos norte-americanos está sendo determinante para que a demora aumente, bem como para explicar as seguidas recuperações de  Kadhaffi.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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