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CORÉIA DO NORTE: QUAL O FUTURO DO ESTADO SOB O GOVERNO DE KIM JONG-IL?

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A “República Democrática Popular da Coréia” (RDPC), ou seja, a Coréia do Norte iniciou 2010 de forma instável no que diz respeito a sua segurança e quanto ao futuro do Estado sob o governo de Kim Jong-il, considerado pelo mundo como um “ditador”. Além de sofrer com as sanções sobre seu programa nuclear, o recente caso “Cheonan” acende especulações sobre as futuras ações das nações aliadas da Coréia do Sul.

 

Para compreender o que atualmente ocorre na península coreana, além dos fatos envolvendo este recente incidente e dos elementos que cercam o programa nuclear norte-coreano é necessário analisar aspectos históricos que cercam o pensamento do “Chefe de Estado” da RPDC.

Para muitos, a forma de entender a política externa do Norte parece simples, bastando observá-la da perspectiva de que o governo de  Kim Jong-il é uma Ditadura. Ou seja, bastando entender como resultado da atuação das autoridades em prol da manutenção de sua hegemonia perante a sociedade, o seu controle do governo e a preservação dos princípios norteadores do regime para os sucessores.

De fato, desde que se tornou uma nação independente, o governo norte-coreano não sofreu alterações em sua linha política. A península coreana era constituída por um império até ser anexada pelo Japão em 1905, após a “Guerra Russo-Japonesa”. Em 1945, com o fim da “II Guerra Mundial”, a península foi dividida em duas zonas de ocupações: soviéticos ao norte e os estadunidenses ao sul. Ambas as Coréias reivindicaram a soberania da península, algo que as levou para a “Guerra” em 1950, em um conflito que durou três anos e foi “encerrado” no armistício assinado em 1953. No entanto, a guerra não foi concluída oficialmente, pois não foi assinado até o momento um “Acordo de Paz”. Em 1991, as duas Coréias foram aceitas na “Organização das Nações Unidas” (ONU). Desta forma, a península coreana foi aceita como dividida entre dois Estados distintos: a Coréia do Norte e a Coréia do Sul.  Ao contrário do Sul, que se manteve sob um regime político democrático e modo de produção capitalista, o Norte manteve a ideologia “Juche”* do ex-líder norte-coreano Kim Il-Sung, e trabalhou um sistema político e social estruturado de forma a que ele não fosse alterado ao longo do tempo.

Kim Jopng-Il, filho de Kim Il-sung, mantém os traços do governo de seu pai: mesmo regime; mesma forma de conduzir o país; a mesma posição de considerar Seul como uma “traidora” da península e mantém seu governo voltado para o desenvolvimento das forças militares com o fim de se “prevenir” de um possível retorno ao combates da “Guerra da Coréia”. Em termos bélicos, o resultado se observa de imediato, pois, atualmente, a RPDC possui uma das maiores forças militares do mundo, ocupando a quinta posição no quesito efetivo.

Com base na história da RPDC, o diálogo com este Estado sempre foi um assunto complicado para as demais nações, pois o país adota posição de isolamento, algo que leva sua população a uma condição de quase pobreza extrema, aliviada apenas por alguns acordos com a China e com Seul (capital da Coréia do Sul), que conduziam algumas fábricas e fomentava setores de sua economia, como a do turismo. No atual cenário, a posição do Norte é a mais desfavorável dos últimos anos. Seul cancelou suas operações em território norte-coreano, fechando as indústrias ali instaladas, afetando a economia do norte.

Devido ao crescimento das tensões, o mundo está atento às ações do governo de Kim Jong-il, pois se observa como possível um cenário de voltar ao conflito armado com o governo do Sul. Embora faça sérias ameaças, Pyongyang terá de realizar um cálculo econômico e de alianças políticas antes de tomar esta decisão, já que o líder do Norte percebe que o momento pede uma reforma estratégica do país em suas relações internacionais.

Atualmente, a Coréia do Norte tem uma economia precária. Seu “Produto Interno Bruto” (PIB) tem uma base incerta e, desde o ano de 2007, gira em torno dos U$ 40 bilhões. O país sofre com as constantes racionalizações de energia, sendo dependente da importação de energia chinesa para manter as suas poucas usinas funcionando. O setor do turismo, que vinha sendo conduzido por empresas sul-coreanas, após o incidente do Cheonan foi suspenso em suas operações e as regras impostas por Pyongyang dificultam outros projetos, caso haja novos interessados em conduzi-los.A Indústria do país é focada em produtos militares, máquinas, químicos, alimentos, produtos metalúrgicos, têxtil e alguns minérios (ferro, zinco entre outros). Sua produção de alimentos é insuficiente para atender a população e, para suprir esta necessidade, recebe grandes doações vindas da China e da Coréia do Sul. Iniciar um combate sob as condições descritas seria economicamente inviável.

Além do ponto de vista econômico, o fator político internacional é também importante a ser considerado por Pyongyang antes de investir numa guerra, pois o cenário atual é diferente daquele da “Guerra fria”, quando a RPDC podia contar com forte apoio da então existente “União das Repúblicas Socialistas  Soviéticas” (URSS) e da China.

Desde o início do caso do naufrágio do Cheonan, a China vem se posicionado de forma “neutra”. O governo norte-coreano necessita compreender a atual importância deste aliado no Sistema Internacional, cuja projeção de possível superpotência global poderá ser afetada caso se posicione precipitadamente neste incidente. Beijing entende ambos os lados da península e sabe que, em se tratando de assuntos envolvendo as duas Coréias, à adesão a um dos lados, sem profunda análise das perdas que terá, poderá ser crucial para o desenvolvimento de suas relações com os demais vizinhos e afetará o projeto estratégico do país.

Outro país que historicamente é um aliado norte-coreano, a Rússia, também mantém esforços quanto a um posicionamento técnico, por isso neutro. Chegou a encaminhar uma equipe própria para investigar o caso do naufrágio e na cúpula do G-8, realizada no Canadá, acompanhou o grupo quando ele declarou a RPDC como culpada. Apenas os chineses não se manifestaram. Neste cenário, um conflito armado só levaria ao isolamento pleno e à possível queda do regime norte-coreano. A alternativa seria reformular sua estratégia de atuação nas relações internacionais, re-configurando a política externa e trabalhando com seu programa nuclear como instrumento de negociação com as potências globais, ao invés da forma como faz atualmente que é apenas uma barganha.

Voltaria à mesa de negociações, por isso as tensões do caso Cheonan diminuiriam e passaria para o mundo a “disposição” da RPDC em resolver os atuais problemas de forma pacífica e negociada. Esta atitude poderia dar início aos planejamentos para a resolução do caos econômico interno e dos problemas externos do país.

Outra opção, que ainda não foi aceita por Pyongyang, é em permitir uma equipe internacional para investigar a origem do disparo do torpedo que afundou a embarcação sul-coreana. Esta atitude também seria bem vista pelos envolvidos no caso e, como o país se afirma “inocente”, a ação daria a entender que a Coréia do Norte não tem nada a esconder. A questão é saber o nível de flexibilidade do atual governo norte-coreano para a execução de alguma destas medidas? Pelas atuais atitudes, entende-se que existe o receio de que a população conheça a “realidade” em sua condição comparativa com o mundo, gerando uma “revolução” no país.

Percebe-se que as autoridades norte-coreanas não temem o mundo, mas temem perder o controle e a hegemonia interna, finalizando o legado de Kim Il-Sung e Kim Jong-il. Como dito, o Estado norte-coreano utiliza de seu programa nuclear para barganhar com as potências, acreditando que ter armamentos nucleares, lhes dá poder real e o torna uma “peça” importante no mundo.

As transformações no cenário internacional estão exigindo uma saída rápida e eficaz da RPDC e isto tem deixado os analistas atentos às ações possíveis para esta questão ainda sem resposta: Pyongyang vai arriscar em realizar um conflito armado com baixa possibilidade de vitória e resultado provável de destruição do atual regime, ou irá se flexibilizar para abrir novos meios de permanecer seguro e se fortalecer economicamente?

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* O nome, em coreano, significa “conjunto principal” ou “matéria”. Também pode ser traduzido como “posição de independência” e “espírito de auto-suficiência”. A ideologia “Juche” é considerada uma adaptação do marxismo-leninismo à sociedade coreana.

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Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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