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CRISE EGÍPCIA É UMA ETAPA DE PROCESSO QUE SE ALASTRA PELO MUNDO ÁRABE

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A crise política iniciada no Egito em 25 de janeiro de 2011 representa uma etapa do processo de revolta que ao longo da última década tem crescido no mundo árabe e recebeu novo combustível neste início de ano.

A revolta egípcia é uma das 12 manifestações populares e revoltas que estão ocorrendo desde o dia 18 de dezembro de 2010, na Tunísia, quando um jovem desempregado de 26 anos, chamado Sidi Bouazeid, foi abordado na rua enquanto vendia verduras. Teve sua mercadoria presa e foi submetido a ameaças. Impossibilitado de prestar queixa, em protesto ateou fogo no próprio corpo, diante do prédio do Tribunal, vindo a falecer três semanas depois.

 

O Ato, mais um dentre tantos que ocorrem no “mundo árabe”, provocou a revolta da população que se mobilizou e pressionou o governo tunisiano, o qual, há 23 anos, estava sob o comando do presidente Zine El Abidine Ben Ali.

O governo respondeu com repressão e violência, levando o povo às medidas extremas que culminaram com fuga e exílio de Ben Ali para a Arábia Saudita, naquilo que está sendo conhecido como a “Revolução de Jasmim”.

A revolta estimulou populações em outros países e, desta data até hoje, 31 de janeiro, ocorreram as seguintes manifestações: na Argélia (28/12/2010 – com grandes manifestações públicas); Líbia (Iniciada em 13/01/2011 e terminada em 16/01/2011 – com pequenos protestos); Jordânia (14/01/2011 – com pequenos protestos); Mauritânia (17/01/2011 – com casos de auto-imolação); Omã (17/01/2011 – com pequenos protestos); Iêmen (18/01/2011 – com grandes atos públicos); Arábia Saudita (início e fim em 21/01/2011 – com auto-imolação); Egito (inicio em 25/01/2011 – com grande manifestações públicas, confrontos e produzindo, até o momento, a renúncia de todo o governo); Síria (26/01/2011 – com auto-imolação) e Palestina (28/01/2011 – com pequenos protestos).

Tais manifestações oscilam entre declarações pela volta do fundamentalismo islâmico e reivindicações em prol da Democracia, sendo este o principal motivo, tanto que são intensos os gritos exigindo o respeito aos direitos civis nos parâmetros do Ocidente, algo que desmente o uso feito pelos fundamentalistas de que as revoltas representam apenas e exclusivamente um apelo à expulsão dos ocidentais e de suas influências políticas e culturais.

A lista apresentada demonstra ainda a situação tensa em que se encontram os países do Oriente Médio e do “Mundo Árabe”, onde, de alguma maneira, se reproduzem os mesmos problemas e reivindicações.

Na Tunísia, tanto quanto no Egito e demais lugares citados, os vozes populares e da oposição aos governos se manifestam: (1) contra a corrupção governamental; (2) contra a pobreza em seus países; (3) contra o desemprego; (4) contra às más condições de vida; (5) clamando pela liberdade de expressão; (6) pedindo a ampliação dos direitos civis; (7) o aumento dos salários e (8) objetivam afastar do poder lideranças que se perpetuam e não apresentam respostas aos problemas e clamores sociais.

A “Revolução de Jasmim” se espalhou e o receio dos governantes regionais é de que ela esteja contaminando a região, podendo tornar um ambiente já tenso num cenário propício a uma guerra capaz de abalar a estrutura do “sistema internacional”. No momento em que as condições sociais extremas afloram em situação de revolta, como esta ocorrida na Tunísia, o processo pode desencadear um efeito dominó pela região, que apresenta condições semelhantes ou aproximadas em todos os lugares. O caso do Egito se enquadra nisto, mas ele se mostra como o mais sensível dentre os doze citados, pela importância geopolítica e geoestratégica que significa.

O Egito é um dos dois únicos países árabes que reconhecem o Estado de Israel (o outro é a Jordânia) e é o fornecedor de petróleo dos israelenses, graças aos acordos firmados em 1979. Além disso, o país é um fator essencial para a estabilidade da região ao ponto de ter recebido a tolerância ocidental para os desvios cometidos pelo governo que se perpetua no poder. Hosni Mubarak, Presidente há 30 anos (assumiu em 14 de outubro de 1981), detém apoio dos EUA, da Europa, da Autoridade Palestina e do rei saudita Abdulah Abdulaziz Al Saud.

Apoios como este, contudo, tem trazido para o cenário internacional questionamentos acerca da contradição das potências ocidentais em combater os abusos de poder pelo mundo, em prol da Democracia e dos “Direitos Humanos”, e tolerar situações como esta e de outros países árabes pelas alianças que eles têm com o Ocidente.

O povo egípcio, por exemplo, vive em condições de pobreza extrema, já que, segundo dados estatísticos de instituições internacionais, aproximadamente 40% da população vive com menos de 60 dólares por mês, podendo isto ser considerado como uma amostragem da região, e o governo tem respondido com repressão às suas solicitações de respeito aos direitos políticos e sociais.

É o mesmo povo que está exigindo a renúncia do Presidente, acompanhada de garantias de que seus seguidores não permanecerão no controle do Governo. Em especial, quer que seu filho, Gamal Mubarak, não seja indicado como candidato presidencial nas eleições que serão realizadas em setembro deste ano, 2011.

A situação que identifica é a de corrupção, acoplada à perpetuidade no poder, gerando pobreza extrema, por isso ele (o povo, em sua ampla maioria) deseja tanto a renúncia do mandatário, quanto a certeza de que os membros do seu grupo não o substituirão. Em síntese querem a substituição do regime político.

O Presidente resolveu confrontar os manifestantes levando às ruas as “Forças Armadas” e as “Forças de Segurança”, mas já está percebendo que a situação se apresenta como irreversível, pois as manifestações se espalham pelo país e a população não está respeitando as ameaças e “toques de recolher”.

Em localidades no Suez, o povo está confraternizando com os militares, dando-lhes água e usando os tanques de combate como plataformas para discursos incendiados contra os governantes, apesar de estar havendo confrontos que já resultaram em mais de 100 mortos.

Isto é um indício de que setores do Exército já estão se posicionando pró-manifestantes e não querem agir contra a sociedade, podendo, a qualquer momento, ocorrer a derrubada de Mubarak pelas “Forças Armadas”, que sempre tiveram papel relevante para a garantia do poder no país. Talvez por essa razão, o Presidente, em caráter de emergência, colocou  no comando das Forças militares dois generais de sua maior confiança.

O Presidente está construindo estratégia para sobreviver à eclosão rebelde. Adotou medidas paliativas contra o governo, com a substituição de toda a equipe, sendo indicado para Primeiro-Ministro, o ex-ministro da “Aviação Civil”, Ahmad Shafic, e nomeou o ex-chefe da “Agência de Inteligência”  do país, Omar Suleiman, para ser o “1o Vice-Presidente”, um cargo nunca antes ocupado por alguém, nos trinta anos de poder de Mubarak.

Analistas acreditam que a  medida visa buscar uma forma de garantir um aliado para negociar a mudança de regime após a sua renúncia, já que os indicados estão entre os seus principais aliados políticos. Contudo, as exigências populares vão além destas mudanças, ou da simples renúncia presidencial. Como ditam chegaram a situação sem retorno e desejam uma substituição de regime.

Devido as incertezas do que pode surgir, esta situação tem deixado o Ocidente apreensivo já que não se sabe o que e quem ocupará o vácuo de poder. EUA e Europa não compartilham das ações ditatoriais deste líderes, mas temem os riscos de que o espaço seja ocupado por grupos anti-ocidentais que tragam desequilíbrio à região e ao “sistema internacional”.

Neste caso do Egito, a força opositora mais bem organizada é a “Irmandade Muçulmana”, ou “Irmandade Islâmica”. Ela é uma organização fundamentalista, fundada no país por Hassan al Banna, em 1928, após o colapso dos “Império Otomano” e, hoje,  contem representantes em mais de 70 países.

Os membros são opositores radicais das tendências seculares e ocidentais nos países muçulmanos e pretendem o que chamam de “retorno” aos ensinamentos do Corão. O seu lema é: “Alá é o nosso objetivo. O Profeta o nosso líder. O Corão a nossa lei. Jihad é o nosso caminho. Morrer pelo caminho de Alá é a nossa maior esperança”.

A possibilidade de que grupos desta natureza possam assumir o poder dos países da região tem levado o apoio de ocidentais aos ditadores nos países árabes. No entanto este comportamento revela que o Ocidente ainda está vivendo sua transição nas relações internacionais, pois não acertou de maneia completa a forma de mudar as categorias interpretativas das relações internacionais no século XXI, pensando certas regiões com as categorias do século XX, como é o caso das ditaduras árabes, onde se aceitou ditadores devido ao receio da expansão soviética em regiões estratégicas ricas em petróleo.

Agora, as ditaduras islâmicas surgem como substitutos e principais antagonistas, mas a natureza do problema é outro e não cabe a aceitação de uma ditadura para impedir a ascensão de outra, razão pela qual a contradição começa a chegar aos ocidentais em tom de perda da liderança mundial,  autocrítica e busca de alternativas.

No Egito, a alternativa começa a se apresentar na figura do “Prêmio Nobel da Paz” em 2005, o jurista e diplomata, diretor da “Agência Internacional de Energia Atômica” (AIEA), Mohamed ElBaradei.

Ele tem sido apontado como o possível negociador da deposição do regime, interlocutor com o Ocidente e governante de regime transitório. Apesar de ser contra os fundamentalismo islâmico, traz em seu histórico o confronto com George W. Bush em relação à invasão do Iraque, na questão das existência de armas de destruição em massa neste país para justificar a invasão.

ElBaradei se recusou a admitir a existência delas, mesmo considerando o regime iraquiano pernicioso. Ou seja, trouxe para seu currículo um exemplo de comportamento isento e confrontador do Ocidente, pelas razões aceitáveis pelos próprios ocidentais, algo que, neste momento, lhe permite surgir como a personagem chave para garantir a substituição do regime sem o trauma de uma guerra civil.

A questão passa a ser a forma como se comportará Mubarak neste próximos dias, pois ele tenta preservar o regime e na pior das hipóteses tenta acertar a sua substituição, mas com garantias. Analistas acreditam que não há como salvá-lo, evitando arriscar até onde se manterá a resistência de Mubarak, pois já está certa a composição de um governo transitório composto pela oposição, bem como o desejo do Presidente de garantir um mínimo de poder.

Da mesma forma acreditam que o Ocidente forçará a sua renúncia, pois teme que uma possível “guerra civil” no país seja aproveitada pelos radicais islâmicos, bem como pelos países anti-ocidentais (por exemplo: Irã, Síria, Líbia) para incentivar rebeliões no mundo árabe e um ataque à Israel, algo que gerará uma guerra sem controle na região.

Todos os observadores concordam que esta é uma das crises mais graves para o “sistema internacional” a surgir no seio dos povos árabes, mas ainda apresentam boas oportunidades de saída, graças a presença de personalidades como ElBaradei, que podem garantir uma transição pacífica. O maior temor é de que algo aconteça a ele deixando um vazio que não será substituído e levará a situação ao extremo.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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