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CRISE ENTRE COLÔMBIA E VENEZUELA MOSTRA-SE COMO RESULTADO DE MANOBRAS DOS GOVERNOS DOS DOIS PAÍSES

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A crise política entre Colômbia e Venezuela surgida nesta última semana começa a mostrar a face de manobras políticas que estão sendo realizadas, por razões distintas, pelos governos dos dois países.

A pergunta que alguns analistas têm feito diz respeito a razão pela qual o governo colombiano decidiu fazer a denúncia do fato apenas neste momento, uma vez que as provas que estão sendo apresentadas pela Colômbia já estão em sua posse há algum tempo e, segundo declaração de funcionários do governo Uribe, elas já haviam sido apresentadas para Hugo Chávez, presidente da Venezuela, sem receberem respostas.

 

Os fatos indicam que a questão foi anunciada neste momento como forma de dar espaço de manobra ao presidente colombiano que sera empossado no dia 7 de agosto, Juan Manuel Santos. Segundo declarações do próprio Álvaro Uribe, atual “Presidente da República da Colômbia”, foi um ato para evitar desgastes ao governo que entra, trazendo os problemas, culpas e tensões para o governo que sai, uma vez que a verdade está sendo revelada e toda a belicosidade será destinada ao presidente Uribe, não produzindo efeito.

Diante das atitudes dos venezuelanos, a resposta de Santos tem sido o silêncio, evitando tocar no assunto, como se ele não lhe dissesse respeito. Segundo observações de analistas internacionais, a estratégia está trazendo resultados, pois as lideranças da Venezuela afirmam que esperam um comportamento diferenciado do novo presidente da Colômbia.

Todas as manisfestações tem vindo do seu vice-presidente, que apenas elogiou a postura de Chávez de pedir às “Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia” (FARC) que abandonem a luta armada, e de Uribe que, sabendo do risco que a Colômbia corre com o apoio venezuelano ao grupo guerrilheiro, tem realizado vários discursos de denúncia.

A ação está coordenada e tem cumprido o papel de lançar ao público o problema, com provas, sem que isto exija do novo governo uma atitude inicial belicosa. Ele terá apenas de administrar os resultados.

Observadores apontam que, neste caso, há uma ganho significativo para a Colômbia, uma vez que desde o congelamento das relações entre os dois países, a sua economia teve um recuo de quase 2% do “Produto Interno Bruto” (PIB), já que o comércio entre os dois países chegava a casa dos 6 bilhões de dólares, com grande superávit colombiano. Com o novo Presidente, o processo de pacificação terá de passar pela renegociação das relações diplomáticas e comerciais e a denúncia já terá sido feita.

Para o venezuelano Chávez, os analistas têm concluído que a resposta belicosa dada foi um ato seguro para garantir o apoio popular num momento político crítico em seu país. As eleições legislativas estão próximas (setembro) e tem crescido a força da oposição, uma vez que tem aumentado a violência urbana, a Venezuela tem a maior inflação do continente, com 25% anual, vive crise energética, vive desabastecimento, tem crescido a perseguição política e tem aumentado o processo de estatização de empresas, reduzindo os investimentos.

O chamado feito pelo presidente ao povo reveleou traços típicos de configurar-se como herói, catalizador dos esforços populares contra um inimigo comum, em um movimento mobilizador das massas para garantir sua gravitação em torno do atual mandatário e não permitir que a oposição tenha vitória no pleito que se aproxima.

O caráter heróico ficou transparente em seu discurso, quando disse que não cederá as chantagens: “Eu sei, estou condenado à morte, mas não me importa, se tiver que morrer e derramar o meu sangue nesta terra. Estou pronto e digo-o aqui, frente aos restos do pai (Simón Bolívar) Libertador, mas não vou ceder à chantagem, às ameaças e apelo ao povo venezuelano para que não ceda, que não se deixe confundir, nem atemorizar“. Estas palavras foram transmitidas durante solenidade no túmulo de Simón Bolívar de maneira obrigatória pelas rádios e televisões do país.

Após a denúncia colombiana, Chávez rompeu relações diplomáticas e os venezuelanos aceleraram as ações para não permitir que a mediação do incidente fosse conduzida pela “Organização dos Estados Americanos” (OEA), uma vez que esta Organização tem presença dos Estados Unidos e, caso ocorresse, seriam obrigados a abrir as portas para seus declarados inimigos, ou a fechar as portas para qualquer processo de mediação, recaindo sob si a crítica internacional e uma possível denúncia na “Organização das Nações Unidas” (ONU), o que poderia lhe valer sanções.

Imediatamente, seus aliados bolivarianos trouxeram o processo para a “União das Nações Sul-Americanas” (UNASUL), onde eles têm poder de decisão e poderão fazer com que o acontecimento possa ser esfriado sem causar danos e apenas sejam cumprindos os objetivos políticos imediatos dos envolvidos. No caso colombiano, um objetivo de política externa. Já no venezuelano, de política interna, com foco nas eleições lesgislativas.

Por essa razão, os observadores internacionais afirmam que a reunião de hoje na UNASUL, convocada pelo seu presidente interino, o presidente do Equador, Rafael Correa, tende a trazer formas de amenizar o acontecimento, mas todos têm alertado para o fato de que, independente das estratégias terem sido relativamente vitoriosas, elas foram para o consumo imediato e podem significar a queima de etapa numa escalada crescente, já que não se espera que  o novo presidente da Colômbia se afaste da linha adotada até o momento pelo governo Uribe, apesar dos anúnicos de que as relações mudarão.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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