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DILMA ROUSSEFF INICIA PROCESSO DE VISITAS INTERNACIONAIS: ARGENTINA ABRE O ROTEIRO DE SEU GOVERNO

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Nos dias 30 e 31 de janeiro de 2010, a Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, iniciará o roteiro de visitas internacionais que realizará ao longo de seu mandato. Está previsto o começo das viagens pela Argentina. Em fevereiro irá ao Peru, onde tomará parte da “Cúpula América do Sul e Países Árabes”; depois, viajará ao Paraguai e Uruguai, em março.

 

De acordo com as declarações do “Assessor Especial para Relações Internacionais da Presidência da República”, Marco Aurélio Garcia, que permaneceu neste cargo após a saída do ex-presidente, Dilma ainda pretende fazer outras viagens, estando na lista os EUA e a China, por questões estratégicas, e à Bulgária, devido a razões sentimentais, uma vez que seu pai, Pedro Rousseff, é originário deste país. Além dessas viagens da “Chefe de Estado”, está prevista, também para 2011, a participação na abertura da “Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas” (ONU), em Nova York, em setembro deste ano.

Analistas internacionais estão refletindo sobre as razões pelas quais a Presidente brasileira está dando prioridade às viagens pela America do Sul, começando com o encontro com a líder da Argentina, Cristina Fernandez Kirchner, ao invés de iniciá-la pelas grandes potências, uma vez que já recebeu 50 convites para visitas, ou participar das reuniões em Davos, das quais declinou.

A tendência entres eles é aceitar que a mandatária brasileira manterá certos parâmetros que foram adotados pelo governo de seu antecessor, do qual fez parte, que, ao longo do segundo mandato (2007-2010), teve nas aproximações com a America Latina (configurada principalmente no investimento no processo de integração latino-americana), um dos pilares da política externa brasileira, sendo o segundo pilar, a diversificação da carteira comercial, ampliando os mercados e as exportações.

Observadores destacam que dois pontos são fundamentais: (1) a presidente Dilma tem perfil diferente do Presidente anterior. Ela se comporta de forma técnica e discreta, o que os leva a crer que evitará adotar a “diplomacia presidencial” como instrumento principal da Diplomacia brasileira. Sendo assim, tenderá a ficar no país, confirmando o comportamento de administradora e fará viagens internacionais especialmente para dar corpo à manutenção da política de integração latino-americana e nas ocasiões em que a presença da “Chefa de Estado” brasileiro for obrigatória, seja por razões protocolares, seja por questões políticas. (2) Dos 4 países que serão visitados neste primeiro momento, três são, juntamente com o Brasil, membros do “Mercado Comum do Sul” (MERCOSUL), levando a crer que Dilma ficará atenta ao Bloco, já que ele pode estar sendo visto por ela como um dos caminhos essenciais para a continuidade no processo de unificação continental.

Os investimentos políticos realizados pelo Brasil ao longo dos últimos quatro anos na região serão mantidos, pois, além de haver proximidade ideológica com vários governos de centro-esquerda da América Latina, a presença brasileira no processo de unificação mostrou-se como necessária para que o país assumisse e ocupasse seu papel de “potência regional”, com imediata função de coordenadora do “subsistema internacional”, que configura a América do Sul.

Neste sentido, a Argentina torna-se um ponto essencial, pois, apesar da crise econômica em que está mergulhada e dos constantes esboços de crises políticas, é uma das principais economias da região, sendo essencial para que o constantemente frágil e problemático MERCOSUL adquira conteúdo real de “Bloco Econômico” e se constitua efetivamente numa etapa importante para a unificação sul-americana, sendo a ponta de lança do projeto desejado pela “União das Nações Sul-Americanas” (UNASUL), a qual é uma jovem investida que está sendo iniciada por processo diplomático e precisa caminhar muitos passos para conseguir construir as pontes econômicas necessárias às unificações regionais, tal qual ocorrem em outras regiões do mundo.

Esta avaliação é confirmada pela fato de que, na perspectiva da UNASUL, esta deve envolver, abarcar e absorver as conquistas conseguidas por outras Instituições, Acordos comerciais com caráter de formação de Bloco, ou tentativas  de unificação em áreas específicas, como é o caso da “Comunidade Andina das Nações” (CAN).

O MERCOSUL, apesar de ser considerado por significativo número de analistas internacionais como um “permanente moribundo”, constitui-se de uma das investidas de unificação mais avançadas que ocorreram no continente e, para o Brasil, é importante que haja é convergência de esforços regionais, pois ele ocupará naturalmente o lugar de líder continental, devido a sua grandeza geográfica e demográfica, bem como pela sua pujança econômica, a qual, pelas pesquisas apresentadas pelo “Fundo Monetário Internacional” (FMI), “Banco Mundial” e CIA, em 2010, ocupa o posição de oitava economia do mundo, com projeções de se tornar a sétima, em 2011.

Além desta questão, ir na Argentina no primeiro encontro internacional oficial representa a afirmação de princípios que nortearão o comportamento da mandatária para a condução da política externa brasileira: (1) posicionamento em prol dos Direitos Humanos, confirmado pelo afastamento de amizade imediata com o governo iraniano e no caso da visita à Argentina, pelo encontro que fará com as lideranças do grupo “Mães da Praça de Maio” (grupo responsável por importantes pressões pela defesa dos “Direitos Humanos” neste país, pela punição dos ex-governantes e para revelação dos abusos cometidos no período histórico dos anos 70 e 80 do século XX), além da visita ao “Museu da Memória”, construído em Buenos Aires, em homenagem às vítimas da “ditadura argentina” (1976-1983), onde são relembrados os momentos de combates ao regime político que se implantou no país naquela época. (2) Também está configurado a identificação da mulher como liderança capaz de definir rumos, desvencilhando-se de possíveis apadrinhamentos políticos. De forma metafórica, ambas as líderes apresentam a condição de “viuvez”, já que terão de se afastar paulatinamente de imagens e proteções recebidas de seus padrinhos políticos, ao custo de, se não se afastarem adequadamente, perderem a capacidade de governar, no caso de Dilma, e a posição de líder que ainda detém, no caso de Cristina.

A mídia e a assessoria presidencial brasileira estão afirmando que a idéia da viagem à Argentina é negociar a ampliação das parcerias em várias áreas, especialmente na energia elétrica e nuclear, e apresentar projetos de desenvolvimento social e tecnologia digital, bem como investimentos em mineração.

Apesar da importância de tais parcerias, há várias outras pelo mundo em processo de negociação que poderiam apresentar vulto e significado maior em termos econômicos, ou exclusivamente comerciais. Observadores acreditam que o principal ponto do contato com o governo argentino, mesmo que não venha a ser revelado, se apresenta no tratamento que será dado à questão do MERCOSUL, uma vez que a Argentina, além do peso que detém no Bloco, tem sido o principal empecilho para que ele se concretize definitivamente e se expanda, devido ao seu comportamento.

O Brasil tem apresentado muitas perdas econômicas em relação à Argentina, aceitando uma “Balança Comercial” no vermelho, porque crê que estas perdas são compensadas pelo aumento do volume comercial entre os dois países e porque também crê que a tolerância permitirá a concretização do Bloco no futuro. De forma simplificada, o Brasil tem suportado as perdas econômicas em função do investimento político que está fazendo, mas há limites para tanto e é possível que a Presidente os apresente nesta reunião que fará com Cristina Kirchner.

Este possibilidade cada vez mais se apresenta, graças ao perfil de administradora e técnica de Dilma Rousseff. Como tal, é importante para ela acompanhar constantemente os custos que MERCOSUL pode trazer para o Brasil. Não se trata de abandonar o processo, mas de buscar a afirmação de limites para as perdas. De acordo com avaliação de vários analistas, é provável que este ponto esteja na pauta.

Pelos dado divulgados na mídia, o comércio entre Brasil e Argentina registrou US$ 32,9 bilhões em 2010, o que é elevado e intenso, mas, graças às posturas adotadas pelos argentinos,  isto não tem sido suficiente para ajudar a resolver as crises no país e não tem representado um ganhos para que o Bloco caminhe e se consolide definitivamente.

Acompanhando a opinião dos analistas internacionais, mesmo que nas reuniões sejam tratados vários Acordos, dentre eles a proposta de acelerar a construção do “Complexo Hidrelétrico de Garabi”, entre Corrientes (Argentina) e o estado do Rio Grande do Sul (Brasil), o ponto chave da “primeira visita internacional do Governo Dilma Rousseff” será a questão do MERCOSUL, bem como os limites que precisam ser dados à postura argentina.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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