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ESTADOS UNIDOS E CHINA, ACUSAÇÕES E TENSÕES NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS

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A China iniciou o “ano do tigre” com os contatos sino-americanos em vias de ruptura e com acusações, despertando a atenção de acadêmicos e economistas sobre o futuro das relações entre a “Casa Branca” e o “Dragão Chinês”.

O ano de 2010 começou com a insatisfação de Beijing para com os EUA após este anunciar a venda de armamentos para a ilha de Formosa. Ficou mais tenso depois do anúncio da “Google” de que deixaria de operar na China, devido ao ataque de “Hackers” e também pelo controle e censura chinesa sobre o acesso às informações via internet. Não bastando estes acontecimentos, ainda ocorreu o encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o líder espiritual do Tibet, Dalai Lama, no final do mês de fevereiro.

 

O anúncio da venda de armas para Taiwan e o encontro entre Obama e o Dalai Lama geraram descontentamentos no governo chinês, que, em resposta, cancelou o intercâmbio militar com os EUA e impôs sanções a algumas empresas norte-americanas*.

O ocorrido gerou um “Déjà vu” nas relações sino-americanas, lembrando o ano de 2008, quando o então presidente George W. Bush anunciou a venda de armas para Formosa, gerando as mesmas atitudes do governo chinês, que cancelou exercícios militares e retaliou empresas dos EUA.

Agora, em 2010, o que chamou a atenção internacional foi o caso da Google na China, que se desdobrou para o plano diplomático**. As discussões entre a empresa estadunidense e o governo chinês tiveram como desencadeador um ataque de piratas da internet, mas a empresa aproveitou do ocorrido para por novamente à mesa a questão do controle e da censura ao acesso de conteúdos na internet.

Com a “Guerra verbal”, os EUA apresentam uma série de acusações sobre a liberdade de expressão, a liberdade de informação e os direitos humanos na China. A China por sua vez, publicou insatisfações acerca das atitudes e palavras de Washington apontando que elas ameaçavam as relações entre eles.

Esta “guerra” ficou visível assim que o “Departamento de Estado” norte-americano publicou, em 11 de março de 2009, o relatório sobre a prática dos Direitos Humanos no mundo. No documento ficou transparente o baixo índice em território chinês e afirmou que houve uma “severa repressão cultural e religiosa de minorias étnicas” na região do Xinjiang (noroeste da China), com “detenções e perseguição de ativistas dos direitos humanos”. 

Também acusou Bejing de desrespeito à liberdade de imprensa e à “Liberdade de Internet”. O que mais chamou a atenção de especialistas asiáticos foi que este documento, tocando no assunto da “liberdade de internet”, foi apresentado um dia após o chefe-executivo da Google, Eric Schimid, informar que o resultado das discussões entre a empresa e o governo da China seria apresentando em breve, deixando fortes indícios de que eles tenderiam a deixar o país, como foi apresentado pela reportagem do jornal inglês, “Financial Times”.

Não aceitando as acusações, os mandatários chineses rejeitaram às acusações vindas de Washington e publicaram seu próprio documento, informando os “Direitos Humanos” praticados no mundo. A divulgação de Beijing se deu um dia após a publicação do documento norte-americano, ocorrendo no dia 12 de março.

Neste relatório, a China questiona e acusa os Estados Unidos de contribuir e agravar a instabilidade no mundo, afirmando que eles são os maiores produtores de armas do planeta. É dito que as despesas militares estadunidenses são maiores que as de quaisquer países, bem como que, durante as guerras do Iraque e do Afeganistão, as mortes de civis nos dois países ocorreram por culpa das ações das Forças Armadas dos EUA. Acusam ainda que as ações praticadas pelos norte-americanos contribuíram para aumentar o “ódio” desses povos para com eles, causando escândalos e significando um péssimo exemplo de respeito pelos “Direitos Humanos”.

A China também responsabilizou os EUA pelo estado em que Cuba se encontra hoje, apresentando uma perda econômica direta do país caribenho de, aproximadamente, US$ 93 bilhões, durante os 50 anos de bloqueio econômico.

A intenção do documento é jogar o problema para os norte-americanos, formulando a questão de que eles também contribuíram de forma direta para o desrespeito aos Direitos Humanos no mundo, por isso não poderiam falar sobre o problema no restante do globo.

De forma mais ríspida, o governo da China afirma que o relatório norte-americano “está cheio de falsidades”; “fecha os olhos e até encobre as gritantes violações dos direitos humanos nos Estados Unidos” e a administração norte-americana “usa a questão dos direitos humanos como um instrumento político para interferir nos assuntos internos de outros países, denegrir a imagem de outras nações e procurar os seus próprios interesses estratégicos”. Estas são as afirmações vindas do “Departamento de Comunicação do Conselho de Estado da China”.

Usando da mesma estratégia, o relatório entrou na questão da “Liberdade da Internet” e acusou os EUA de utilizarem deste argumento para promover sua hegemonia mundo afora. Para falar sobre o assunto, foram apresentadas informações que resultaram na acusação por parte de Beijing de que o governo dos EUA espiona famílias chinesas que vivem em território norte-americano.

No início da acusação, afirma que há o monopólio de recursos estratégicos da internet por parte de Washington, dizendo que, dos 13 “servidores raízes” no mundo, nove deles se encontram nos Estados Unidos, incluindo o servidor principal. Todos são controlados pela ICANN (“Corporação da Internet para Atribuição de Nomes e Números”), empresa responsável pela coordenação global do sistema de identificadores exclusivos da internet (são os nomes de domínios: “.org”, “.com.br”, “.com”, “.net” etc.), que é autorizada pelo governo norte-americano. De acordo com o relatório, os países não têm direito para quebrar o monopólio dos “servidores raízes” e administrarem a internet, já que as tentativas e intenções são rejeitadas pelos EUA.

Após as acusações de monopólio da internet, o “Departamento de Comunicação do Conselho de Estado da China”, acusou os Estados Unidos de espionarem os seus próprios cidadãos e os chineses que hoje vivem na América.

O relatório se encerra declarando que “Estatísticas mostram que, entre 2000 e 2006, o FBI compilou milhares de registros telefônicos de cidadãos dos Estados Unidos”, “A liberdade de acesso e distribuição de informação dos cidadãos dos Estados Unidos é rigorosamente controlada” e “(…) A chamada ‘liberdade de imprensa’ é completamente subordinada aos seus interesses nacionais”.

O relatório chinês, apesar de ter muitos fatos, desconsidera toda a estrutura jurídica dos Estados Unidos da América, que, mesmo presenciando descompassos e falhas nas ações governamentais, permite que a defesa dos Direitos Humanos se processe; exige que as investigações se dêem de acordo com rígida norma jurídica, tanto que é proibido às suas Agências de Inteligência realizar investigação de cidadãos norte-americanos e, para fazerem o trabalho de contra-espionagem, precisam realizar um grande malabarismo técnico-profissional, dificilmente desrespeitando as leis do país.

Ademais, observa-se que a sociedade tem mecanismos e instituições de controle das ações do Governo, dos políticos e de setores poderosos da sociedade, configurando uma Democracia, dentro dos parâmetros aceitos e definidos por estudiosos, militantes dos Direitos Humanos e pensadores políticos.

No limite, o relatório chinês se constitui como uma forma de afetar os EUA estrategicamente, tentando levá-lo a recuar em suas ações na Ásia, já que elas têm confrontado diretamente os interesses chineses em sua própria região. Em muitos momentos lembram os discursos de países que hoje são antagônicos aos norte-americanos, como a Venezuela, a Bolívia e o Irã. A diferença, contudo, é que este Documento, apresentado pelo “Departamento de Comunicações do Conselho de Estado da China”, foi elaborado desde o ano de 1999, compilando dados como os de direitos humanos praticados, inteligência entre outros, apresentando grau significativo de seriedade.

Para o professor e pesquisador Tadashi Sonoda, da Universidade de Tookai (Japão) os EUA e a China continuarão a agir de forma comportada, mas entende que a troca de críticas entre os dois tendem a continuar no decorrer do ano.

Para ele e alguns analistas econômicos e políticos asiáticos, ambos os Estados continuarão a manter uma “gerra verbal”, recheada de acusações e críticas, mas que não será interessante para os dois um confronto propriamente dito, pois terão de atuar em conjunto em temas relevantes para a estabilidade global. Um exemplo é o caso do programa nuclear norte-coreano.

Para os economistas, não é interessante um confronto, já que um depende do outro economicamente. Dentre os fatores que demonstram a relação firme entre ambos pode-se destacar que a China, hoje, é o maior comprador de títulos do tesouro norte-americano; a economia norte-americana ainda passa por dificuldades e vai precisar da força de crescimento do mercado chinês para promover uma recuperação e estabilidade. Por sua vez, a China, embora tenha passado pelo ano de crise quase intacta, sem sofrer muitos danos em sua economia, vai precisar dos EUA como mercado, já que estes são, ainda, os maiores consumidores do planeta e ela se consolida como a maior nação exportadora.

Esta avaliação tem se confirmado, tanto, que o representante do governo da China declarou que os problemas com a empresa não devem afetar as relações como os EUA, logo após o anúncio do governo chinês de que não gostou da ação da Google de transferir os acessos da “google.cn” para Hong Kong e levou usuários e analistas asiáticos a debaterem se haverá ou não impedimento no acesso do motor de busca, “google.hk”, dentro do território chinês.

O ano de 2010 vai ser um ano de holofotes para as relações sino-americanas, pois as ações e atitudes tomadas pelos líderes dos Estados Unidos da América (ainda hoje a maior potência global) para com a China (a aspirante a superpotência) e as respostas dadas por esta afetarão diretamente as Relações Internacionais de todos os países do mundo globalizado e podem desequilibrar o sistema internacional.

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* Como apresentado em Análise de Conjuntura publicada no Site do CEIRI, com o título: “MAIS TENSÃO NOS DIÁLOGOS ENTRE CHINA E EUA PARA O ANO DE 2010”.

** Assunto desdobrado e novamente apresentado no Site do CEIRI, com a Análise de Conjuntura sob o título: “ EPISÓDIO GOOGLE-CHINA É MAIS UM INDICADOR DE QUE EM 2010 HAVERÁ MUITAS DIVERGÊNCIAS ENTRE CHINA E EUA, NA POLÍTICA, ECONOMIA E COMÉRCIO”.

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Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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