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EUA ADMITEM POSSIBILIDADE DA PERMANÊNCIA DE MUAMMAR KADHAFFI

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Os EUA e, provavelmente, a Coligação de países ocidentais e árabes que está executando a resolução do “Conselho de Segurança das Nações Unidas” começaram a admitir a possibilidade de manter o líder Muammar Kadhaffi no poder.

A manifestação foi feita ontem, domingo, dia 27 de março, pelo secretário de Defesa norte-americano, Roberto Gates, afirmando ser “muito complicada” qualquer mudança imediata de regime no país.

 

Em declaração ao programa “This Week”, da rede BBC, afirmou: “Como vimos no passado, uma mudança de regime é algo muito complicado; às vezes exige muito tempo, às vezes pode ser muito rápido. Mas isto jamais fez parte do objetivo militar”.

A questão se insere diretamente nos problemas internos da Líbia, nos riscos envolvendo a mudança imediata do regime, na identificação de líderes que pensem a integração do país, nos custos de uma reconstrução da sociedade e, principalmente, na criação das instituições prementes para estabelecer um regime político democrático (visto da perspectiva ocidental), ou um regime transitório que trabalhe na criação das instituições democráticas e evite os conteúdos autoritários.

Alguns observadores apontam que o posicionamento agora adotado é contrário ao anterior, quando várias lideranças ocidentais, dentre elas o presidente dos EUA, Barack Obama, solicitaram que Kadhaffi deixasse o poder.

Analistas destacam que o momento da solicitação antecedeu as ações militares com envolvimento do Ocidente, o que permitia conceber um processo transitório que respondesse às reivindicações do povo, mesmo sabendo que haveria violência no desenrolar do processo.

As potências envolvidas estão apontando que não há interesse em compor uma missão militar, mas apenas evitar uma catástrofe humanitária. Hilary Clinton, a secretária de Estado dos EUA, por exemplo, afirmou: “Essa é a diferença entre uma missão militar e um objetivo político. (…). Durante uma campanha militar, uma das coisas essenciais, a meu ver, é não definir um objetivo que não tenhamos certeza de poder alcançar”. Ressaltou que a intervenção impediu que ocorresse “uma catástrofe humanitária… (um) massacre em grande escala que começava a acontecer”. A reboque dessas declarações, os europeus assumiram o controle das atividades ficando nas mãos da “Organização do Tratado do Atlântico Norte” (OTAN) o comando das operações.

Robert Gates tem acentuado que há interesses dos EUA que devem ser preservados e apontou que a situação no Iêmen e no Bahrein atingem mais os norte-americanos que a situação na Líbia, razão pela qual os Estados Unidos estimularam que a Europa assumisse a campanha neste país, no norte da África.

A questão do processo transitório líbio, contudo, tem trazido preocupações a todos. A sociedade líbia tem características distintas, pois se estrutura em dez grandes tribos, que se subdividem em dezenas de outras e o processo de tomada de decisões reivindica uma “democracia direta” a partir das tribos, confrontando teórica e diretamente (Livro Verde, de Kadhaffi) o modelo ocidental de “representação parlamentar”.

Por essa razão, vários analistas afirmam que a política no país é uma relação entre tribos em que uma se sobrepõe a outra e Kadhaffi usou do poder para beneficiar a sua e aquelas que lhes são aproximadas, ignorando as demais, quando não prejudicando-as intencionalmente. Isso explicaria as revoltas na região leste e nordeste, onde estão localizadas as tribos menos privilegiadas do país.

De forma simplificada, o analistas afirmam que o modelo de sociedade na Líbia, quando não o seu conceito, é diferente das demais e a sua fragmentação coloca para a Coligação o problema de a queda de Kadhaffi poder levar a outro banho de sangue, algo que deixaria os países envolvidos na posição de ser responsabilizados por ele, ou ver-se constrangido em realizar uma intervenção terrestre, contra os grupos que havia apoiado anteriormente, seguido de uma ocupação com investimentos em reformas, algo que representa gastos que os países coligados não podem dispor.

Além disso, verse-iam entregando aos inimigos do Ocidente, argumentos justificadores dos radicalismos regionais, bem como para as organizações terroristas. Robert Gates, por exemplo, ao referir-se à situação de Abdallah Saleh, presidente iemenita, afirmou: “Se o governo cair ou for substituído por um governo muito mais fraco, então enfrentaremos ainda mais desafios no Iêmen, não resta dúvida. É um verdadeiro problema. (…). O braço mais ativo e talvez mais agressivo da Al-Qaeda, a Al-Qaeda na Península Arábica, atua no Iêmen e nós temos uma cooperação antiterrorista com o presidente Saleh e os serviços de segurança iemenitas”.

Ou seja, no caso dos EUA, além de ter de lidar com os problemas do terrorismo em focos da região, ter de enfrentar os problemas dos governos antagônicos e ter de encarar os perigos envolvendo as manifestações contras os governos aliados, será obrigado a lidar com as manifestações que disseminarão pelo Oriente Médio e norte da África acusando-o e aos europeus pela situação na Líbia. Como fica transparente, esta situação também enfrentarão os europeus, mesmo que o contraposição imediata tradicionalmente seja sempre contra os norte-americanos.

Analistas também apontam que, certamente, após os resultados, norte-americanos e europeus teriam de lidar com os discursos e atitudes dos Estados desestabilizadores do “Sistema Internacional”, como é o caso do Irã, da Síria (que agora está enfrentando os eu próprio momento de rebelião), da Coréia do Norte e dos países extra-regionais que se opõem explicitamente aos ocidentais e diretamente ao norte-americanos, como é o caso da Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua e Cuba. Pela configuração adquirida, a situação está ficando cada vez mais complexa e mais próxima de uma confrontação regional de grande escala.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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