LOADING

Type to search

HONDURAS PODERÁ LEVAR A UM ABALO NAS RELAÇÕES ENTRE BRASIL E EUA

Share

As posturas dos governos, brasileiro e norte-americano, tendem a levar os dois países a um impasse na questão hondurenha e trazer problemas no que tange as relações diplomáticas entre ambos.

Ontem, o senador Richard Lugar, líder dos republicanos na Comissão de Relações Exteriores, solicitou ao Brasil que reconheça as eleições em Honduras, independente dos resultados da votação acerca do retorno de Manuel Zelaya ao poder, afastado por acusações de crimes políticos e comuns.

 

Segundo uma fonte do governo dos Estados Unidos, que deu declaração à imprensa brasileira, “O Brasil não está sendo pragmático, não existe nenhuma possibilidade real de Zelaya ser restituído antes da eleição”, e completou, referindo-se aos brasileiros, afirmando que “Eles não estão ajudando, não ofereceram nenhuma solução construtiva”.

As declarações demonstram que o governo dos EUA poderá começar a agir de forma diferente com relação ao Brasil. Fatos corriqueiros que antes poderiam ser vistos de forma menos rigorosa, poderão ser barradas, trazendo perdas para ambos os países.

Na afirmação desse membro do governo, sendo ela verdadeira, fica transparente a avaliação a respeito da conduta dos brasileiros que se comportaram tomando posicionamento durante a crise, ao invés de agirem como mediadores.

Isso também poderá levar os norte-americanos a aceitarem as acusações de que o governo do Brasil foi um dos responsáveis pelo atual impasse na crise hondurenha, inclusive permitindo que sua embaixada fosse e continue sendo usada como base de manifestações políticas do ex-presidente, trazendo como cenário possível que Honduras viva uma onda de violência sem estimativas de grau.

No momento, o Brasil vive uma situação de vantagem tática, pois está entabulando uma parceria militar com a França, que se posiciona como um rival dos norte-americanos em questões de política internacional; está exercendo liderança na América do Sul e está sendo visto pelos países pobres e em desenvolvimento como um “líder mundial” de curto prazo, graças ao investimento contínuo na “diplomacia presidencial” do Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva.

No entanto, dentre aqueles países que estão no escopo dos emergentes com poder de ação global, os quais compõem o grupo informal denominado BRIC (Brasil, Rússia, China e Índia), o Brasil é o mais frágil tanto militar, quanto política e economicamente, acrescentando-se o fato de que os outros três são concorrentes diretos do Brasil em todas as esferas, apesar das aproximações que estão se sendo divulgadas. Ademais, um deles já tem status de grande potência e apenas está recuperando seu posicionamento, que é o caso da Rússia, e outro aponta como a provável superpotência do Século XXI, a China.

No que tange aos EUA, os chineses dependem do equilíbrio da economia americana para não perder sua reserva de dólares (aproximadamente US$ 1 trilhão), por isso, mesmo que os norte-americanos os confrontem em alguns pontos, a proximidade entre ambos tem sido intensa.

Haja vista a forma como Barak Obama, presidente dos EUA, tem se comportado nas últimas semanas. De certa maneira, tem realizado diplomacia semelhante a do Brasil: está investindo no reconhecimento de questões internacionais e aproximações com parceiros que, antes, por motivos variados, não recebiam apoio dos EUA, como é o caso da pretensão China na Ásia. Neste caso, Obama está dando apoio direto à estratégia de “uma só China”, tanto que se posicionou de forma neutra com relação ao Tibet e ao Dalai Lama, agradando o governo de Beijing. Está investindo em saídas diplomáticas com relação ao Japão, para não perder um aliado importante no extremo oriente.

Ademais, Obama poderá usar de seu poderio político e econômico para frear as pretensões brasileiras que lhes possam causar algum problema. Antes a tolerância poderia ser maior. Agora, diante da postura adotada pela política externa brasileira, a interpretação do governo dos EUA pode ser de que o Brasil se comporta como adversário na região da América do Sul, tanto quanto os bolivarianos Venezuela, Bolívia e Equador.

A situação para a imagem da política externa brasileira pode complicar, pois a vinda do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, não está sendo visto de forma positiva pela sociedade internacional e, internamente, começam a surgir manifestações que problematizarão o índice de popularidade do presidente Lula, devido à forma como ele tem conduzido a questão.

Mesmo que, juntamente com o iraniano venha uma comitiva com, aproximadamente, trezentos empresários, a questão que está no cenário diz respeito à estabilidade política do Irã, que vive momentos de tensão interna e sofre pressão internacional com relação ao seu programa nuclear. Assim, ainda que sejam assinados contratos econômicos e comerciais, em curto prazo podem ocorrer distúrbios e desestabilização dentro do país, anulando os ganhos possíveis dos acordos que sejam firmados.

Um cenário possível é que o Brasil pode ficar marcado como um país cujo pragmatismo ignora valores, visando apenas os ganhos econômicos e políticos e adota estratégias que vão contra a estabilidade do sistema internacional.

A questão de Honduras poderá ser o início de um processo em que o Brasil deixará de ser visto como aquele emergente que traria inovação para o processo de governança global e passar ser tomado como mais um Estado posicionado dentro de um grupo político e ideológico.

Como se está vivendo um processo de reestruturação geral na sociedade internacional, um cenário como esse poderá trazer para dentro do Brasil crises que antes não lhes pertenciam e, para as quais, a sociedade brasileira não está preparada para enfrentar.  

Tags:
Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.