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JAPÃO: DA MENTALIDADE DA GUERRA FRIA PARA O RECONHECIMENTO DA NECESSIDADE ECONÔMICA

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Em 2010, o Japão passou um ano de dificuldades na economia, na política interna, bem como na definição de seu papel atual no sistema internacional. O país ainda se vê preso nas antigas questões da “Guerra Fria” e, hoje, trabalha em prol da “independência” equilibrada e estável dessas amarras para garantir a sobrevivência econômica.

 

O Japão se deparou com grandes desafios neste ano pós-“crise internacional de 2009”. Vários deles circunscritos ao campo doméstico, devido à instabilidade política em que se encontrou o país, chegando a resultar na renúncia de seu ex-primeiro-ministro, Yukio Hatoyama.

Quando no governo, Hatoyama não conseguiu equacionar o problema da presença militar norte-americana em Okinawa. Além disso, seu relacionamento com a China não foi satisfatório, o país não evoluiu nos “Acordos de Livre Comércio”, nem avançou positivamente nas relações com as demais nações asiáticas. Estes dois últimos pontos, por sinal, são considerados como os essenciais por muitos analistas de várias áreas.

Tais problemas, no entanto, foram transferidos para o atual Primeiro-Ministro, Naoto Kan, que assumiu o governo japonês em meio à instabilidade política, com inúmeras disputas entre os partidos japoneses na “Câmara Alta”. Sua ascensão se deu num momento em que explodiram vários escândalos internos, surgiram as crises na península coreana e estavam tensos os diálogos com a China, que é uma importante parceira econômica. Além de assumir o país em meio a estes grandes problemas, o governo teve de controlar a economia para agradar aos nipônicos e acabou desagradando as demais nações do Globo.

Diante das oscilações da economia japonesa, foram intensas as críticas feitas pelos observadores sobre o posicionamento do Governo nos momentos de tensão no continente. Também foram grandes as dirigidas à forma como ele estava tratando as relações do país com as nações asiáticas no aspecto da integração regional e à forma como tratou as relações que existem entre os Estados Unidos, a China e o Japão.

Para muitos, ficou indefinido o posicionamento do Japão neste momento, além de terem ficado nebulosas as medidas que o governo adotará para manter o país sempre em destaque e com força no cenário internacional.

Para entender como foi o ano do antigo “Império do Sol”, especialistas apontam como temas definidores: (1) a questão da presença militar estadunidense na região; (2) as relações do Japão com a China e (3) o atraso das relações e integração entre japoneses e nações asiáticas.

Para com os Estados Unidos, país que foi importante para a reconstrução japonesa no pós “II Guerra Mundial”, os especialista destacam  a dependência que existe, apesar da revolta da população local acerca da presença dos norte-americanos em Okinawa. Há constantes manifestações, nas quais acusam casos de abusos e danos ambientais, sendo essas manifestações fatores causadores de divisões na base governista regional e federal. Contudo, para o historiador e especialista em relações entre Japão, China e Estados Unidos, Gavan McComarck, professor da “Universidade Nacional da Austrália”, o fato de a ilha de Okinawa ser pequena, com 1,3 milhão de habitantes, as manifestações dificilmente provocarão mudanças nas relações militares nipo-estadunidenses. Estrategistas dos dois Estados estudam a cooperação militar entre eles e mesmo a mudança da Constituição japonesa para que este país possa se modernizar e aumentar suas forças de “auto-defesa”. Os EUA estudam até a possibilidade de o país asiático exportar armas no futuro, tento em vista a China como um “inimigo potencial”, em longo prazo.

Com relação ao atual cenário no continente asiático, intensificou-se o temor japonês, pois, até dois meses atrás, estava se tornando real a preocupação de Tókio com a Coréia do Norte e a possibilidade desta utilizar armas nucleares contra os vizinhos, dentre eles, o próprio Japão.

A posição chinesa de se manter “neutra” em relação às Coréias e sua modernização militar também preocupa os nipônicos, que, com o seu atual poderio bélico, tem dependência de Washington para garantir a própria defesa.

No campo militar e em questões de “Segurança Nacional”, Tókio e Washington têm uma relação sólida e desenvolvem planos futuros.  A relação é forte o suficiente para que não seja atingida pela opinião pública de segmentos da população, apesar de ela ser um fator importante para o Governo, pois foi através do grau da popularidade, ou impopularidade identificada que muitos Premiers foram obrigados a renunciar aos seus cargos. No entanto, a força da opinião pública apresentou seu maior “pico” no sentimento anti-China, o que reforçou a aliança com os norte-americanos.

Já as relações sino-japonesas para o Japão constituem uma “espada de dois gumes”. Ela é necessária, mas existem precauções quando se trata de “Segurança Nacional” e de “questões territoriais”. Durante o Governo de Yukio Hatoyama, uma de suas prioridades foi a China, tanto que no seu mandato ele criou uma missão com 600 pessoas, que foi ao país vizinho para buscar vínculos entre os dois países. Para McComark, o governo de Hatoyama foi o auge das relações entre sino-japonesas, tendo sido criado um relacionamento que seguia um rumo considerado “saudável”.

Hoje, a situação se encontra invertida. O motivo da inversão foram as divergências de Bejing e de Tókio em questões territoriais que envolvem a manutenção da Segurança e da Paz no “leste asiático”. Além disso, a posição chinesa em não apoiar a Coréia do Sul durante os momentos de crises e o atual incidente nas ilhas Senkaku só contribuíram para o crescimento do sentimento anti-china dentro do Japão.

Para os analistas, estas questões favorecem a presença dos EUA na região em apoio aos japoneses, mas isso não facilita a definição de como os norte-americanos irão intervir ou apoiar uma das partes envolvidas. As ilhas Senkaku, por exemplo, envolvem uma história de disputas territoriais entre Japão, China e Taiwan, além de fazerem emergir os “sentimentos nacionais e patrióticos” que havia durante o período da dominação do “Império do Japão”, tanto antes e quanto durante a “Segunda Guerra Mundial”, o que mostra a delicadeza do problema e a complexidade da tomada de decisão para o Governo dos Estados Unidos.

Estas pequenas disputas, algumas divergências específicas e o contexto histórico destes países contribuem para a turbulenta relação sino-japonesa, levando a que apenas as necessidades econômicas levem à Cooperação entre os dois.

Para McComark, em entrevista dada ao jornal “Folha de SP” (Brasil), este é o ponto fundamental para o governo japonês trabalhar de forma detalhada as relações com os “Estados Unidos” e com a China, pois os fatos e os sentimentos históricos existentes entre China e Japão e a última discordância entre japoneses e chineses favorecem os interesses da Casa Branca, “mas o problema para o Japão é que os EUA são agora uma superpotência em declínio, e estão ansiosos a respeito da China”. Para muitos especialistas econômicos, Tókio ainda depende de Washington em questões de Segurança, mas depende ainda mais da China, caso o foco seja  a recuperação econômica do país.

A China hoje é a segunda maior economia do mundo, tendo superado o Japão neste ano de 2010. A atual situação econômica japonesa se transformou em uma fonte de críticas para os economistas da região acerca dos atrasos que estão ocorrendo em relação aos “Acordos de Livre Comércio”, mostrando que os nipônicos não estão acompanhando as transformações na região da Ásia-Pacífico, onde os países caminham para uma integração de suas economias.

As empresas japonesas concentram grande parte de seus “processos fabris” fora do país de origem, indo principalmente para aqueles com mão de obra barata, como a China, onde desejam intensificar os investimentos, apostando também em ganhar fatias dos mercados locais, em especial do mercado chinês. Acrescente-se a isso o fato de os empresários japoneses já terem percebido aspectos da atual estratégia de desenvolvimento chinesa.

Observando o processo histórico de consolidação do Estado chinês, a China não foi essencialmente um país que priorizou o poderio militar e a expansão imperial, graças às suas guerras internas. No entanto, apesar disso, há alguns séculos o país era o detentor de, pelo menos, 50% da economia mundial. Hoje, percebe-se que as estratégias adotadas por Beijing visam fazer com o que o país recupere  esta posição na  economia internacional, contextualizada com as necessidades de expansão mundial.

As relações comerciais e econômicas do “Gigante Asiático” com os demais países da região  e com os extra-continentais são parte da estratégia de aprofundar laços econômicos para ganhar novos mercados, por isso estão acelerando o processo de integração comercial que os vinculará de forma permanente, gerando grandes benefícios à China e garantindo, assim, que ela alcance os fins pretendidos.

Empresários do Japão e de outros países que enxergam a estratégia têm se aproximado dos chineses para se beneficiarem dos laços econômicos e das relações comerciais criados por ela, seja devido aos investimentos que faz, seja pelas parcerias estabelecidas, ou seja pelos “Acordos de Livre Comércio” que a China tem feito pelo mundo. Por isso, analistas econômicos estão criticando a velocidade japonesa em interagir com as economias emergentes e em construir Acordos que possam auxiliar em seu processo de recuperação econômica, atraindo investimentos, ou preservando internamente seus próprios investidores.

Observadores apontam que, enquanto a China, a Índia e outros países da região trilham para o “Livre Comércio” e para a integração econômica com base na “Cooperação Internacional”, o Japão está atrasado e corre sérios riscos de ficar fora do processo, ou, no mínimo, de não se beneficiar dele tanto quanto seus concorrentes econômicos.

Para McComark, Tókio ainda está adotando uma postura com mentalidade presa nos condicionantes da “Guerra Fria”, quando o Japão foi o ponto estratégico essencial para o planejamento de Washington na região e se beneficiou muito disto, mas acabou gerando dificuldades para o país criar e aprofundar laços no continente.

A partir de 2011, as tensões serão geradas em torno das medidas a serem tomadas por Tókio com o objetivo de manter relações favoráveis com o seu principal aliado, os Estados Unidos, pois o Governo terá de equilibrar a manutenção dessa relação (que ainda hoje é importante para os dois países) com uma reaproximação e relacionamento mais intenso com a China, já que isto será essencial para a sua estabilidade econômica.

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Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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