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Após a declaração dada no domingo, dia 10 de abril,  pelo secretário-geral da “Organização do Tratado do Atlântico Norte” (OTAN), Anders Fogh Rasmussen, de que a solução para Líbia é política e não militar, os questionamentos giraram em torno do cenário que está sendo construído neste país.

Ao ser questionado sobre se era possível ganhar a guerra sem enviar tropas ao terreno, a declaração foi: “A resposta sincera a essa questão é que não há solução militar para este conflito. Precisamos de uma solução política e o povo líbio tem de trabalhar nesse sentido”, concluindo que caberá às “Nações Unidas” “ajudar a Líbia a encontrar uma solução política para esta crise”.

Os europeus e norte-americanos, que no início das atividades se viram diante de uma pluralidade de comandos na operação, exigindo que eles se unificassem sob direção da OTAN em substituição dos EUA, ao fazê-lo também herdaram dos norte-americanos seu principal dilema: como controlar a situação criada por razões alegadamente morais (defesa dos “Direitos Humanos”, dos civis e da Democracia) sem realizar uma concreta operação militar, significando isso o envio de tropas terrestres, mesmo conscientes de que a atitude seria interpretada como invasão e interferência externa nos assuntos do país. De forma mais simples, sabendo que corporificaria uma contradição entre princípios que produziram as razões para a ação e a forma de sua execução.

Ao tratarem com Kadhaffi, lidaram com liderança diversa dos dois casos anteriores (Tunísia e Egito), pois o mandatário da Líbia se mostrou disposto a ir à extremidade lógica, inicialmente por questões de personalidade individual, depois por razões estratégicas e no momento próximo ao início das operações por que não havia alternativas.

Analistas apontam que a Coalizão cometeu alguns erros essenciais, independente de terem se visto envolvidos e sem condições de retrocederem:

(1) Desrespeitaram um princípio caro à política de que a violência, se for obrigada a ser usada, deve ser executada uma única vez e rapidamente;

(2) Não apresentaram de forma coerente o “objetivo da guerra”, ou das operações que lançaram, pois, apesar de anunciarem que a determinação das “Nações Unidas” era para proteção de civis, se viram envolvidos em questões conceituais (o que são os civis, quem são, onde estão, como atingir apenas os combatentes sem efeitos colaterais etc.). No momento os objetivos estão sendo apresentados como (a) o encerramento das hostilidades, (b) envio de ajuda humanitária e (c) abertura do diálogo entre governo e oposição. Os observadores concluem, contudo, que são respostas “ad hoc”, apresentadas para buscar saída ao que começaram e não acreditam que isto será possível graças ao impasse que foi construído. Afirmam que agora esta hipótese será viável apenas quando houver esgotamento de ambas as partes.

(3) A indecisão sobre a forma como deveriam agir, bem como sobre o comando a ser estabelecido, permitiu que Kadhaffi reorganizasse seu aparato político e militar para dar conta das deserções que ocorreram na alta cúpula do governo, substituindo indivíduos nos cargos vagos, contratando mercenários e agindo rapidamente para ganhar terreno, além de utilizar da propaganda para efeitos de “operações psicológicas”. Ou seja, os coligados perderam o momento de destituir o líder pela fragmentação do governo;

(4) Não estão sendo precisos na apresentação dos “objetivos de guerra”, ou seja, o que deve ser atacado, como, porque, o que tem de ser conquistado etc., dentro de um planejamento estratégico que também não está claro. Também não há precisão sobre qual é o grupo que precisa receber apoio, evitando discussões muito extensas sobre o significado ou não da interferência externa, que, pelo tempo decorrido, acabam desabilitando qualquer ação efetiva;

(5) Investiram no equívoco estratégico de não permitir alternativa ao antagonista, implicando que, uma vez na situação de “jogo de soma zero”*, Kadhaffi se vê na obrigação de lutar até as últimas conseqüências, pois não lhes resta outra opção. Neste caso, a pior resposta a ser dada pela Coligação será de que esta é característica do líder líbio, pois mostraria ter negligenciado o cenário mais provável tendo conhecimento dele, denotando ainda um dos principais erros no comportamento estratégico que é ignorar a pior hipótese, que neste caso também seria a mais provável de ocorrer;

(6) À medida que combatem com incursões aéreas contra as tropas do governo e evitam a incursão terrestre, deixam os rebeldes à mercê da superioridade de armamentos do governo e à sua violência. A alternativa é vender armas e permitir o uso de mercenários, o que está ocorrendo de ambos os lados, gerando a destituição de qualquer argumento moral por parte dos coligados;

(7) O prolongamento do combate está gerando acusações vindas dos rebelados de que a Coligação está sendo ineficiente e não está lhes dando o apoio requerido para solucionar rapidamente o problema e o seu prolongamento constitui-se perda para todos. Devido a esta situação, os rebeldes estão exigindo que a OTAN invada o país, que está se recusando a fazê-lo;

(8) Ignoraram a estrutura da sociedade líbia, que é fragmentada, diversa do modelo ocidental, é tribalizada e, por isso, não reconheceram que a situação colocada para Kadhaffi tinha de ser assumida prontamente para não permitir que a instabilidade se prolongasse ao ponto atual, de impasses consecutivos. O risco de situações como esta é de ocorrer a perenização da instabilidade política, da desestruração social, ou de uma “guerra civil”, tal qual ocorreu no Afeganistão e no Iraque;

(9) Não sabem o que pode resultar do apoio aos rebeldes, exatamente devido à fragmentação social, sua estrutura tribal e o comportamento antiocidental dos vários segmentos da sociedade líbia. Vivem o dilema de poderem estar apoiando um possível antagonista tão perigoso quanto Muammar Kadhaffi;

(10) Estão encarando a possibilidade de terem de manter o mandatário líbio como forma de garantir a estabilidade do país, mas, se assim o fizerem, verão diante de si uma situação equivalente a da manutenção de Saddan Hussein no Iraque após a “Guerra do Golfo” (1991) quando ele foi mantido no poder para impedir a fragmentação do país e depois foram obrigados a fazer outra incursão, ainda hoje questionada pela comunidade internacional e sem produzirem os resultados adequados.

Diante destes problemas, que os analistas consideram como erros estratégicos, não surpreende o aparecimento de várias alternativas e todas sendo apresentadas ao público ao mesmo tempo, podendo significar ainda a descoordenação  no processo. O mundo está vendo manifestações como (1) a solicitação apenas de “solução política”, de acordo com a declaração de Rasmussen, a autoridade da OTAN; (2) a admissão do presidente dos EUA, Barack Obma sobre a possibilidade de haver fornecimento de armas aos rebeldes, opinião divergente da apresentada pelo general estadunidense Carter Ham, líder da campanha aérea antes de ela ser assumida pela OTAN, que levantou (3) a possibilidade de haver intervenção terrestre imediata graças ao impasse criado e afastou a idéia do fornecimento de armamentos aos rebelados e (4) a mobilização da “União Africana” para estabelecer o diálogo entre as partes.

Os especialistas começam a confluir para a opinião de que os maiores problemas têm sido a descoordenação dos posicionamentos, a inexistência de uma autoridade unificadora que tenha respaldo de todos e a inexistência de coesão efetiva na Coligação.

Por essa razão, os observadores estão apontando que a tendência será a continuidade dos combates e o aumento da violência indiscriminada, tal qual está sendo informado pelas instituições defensoras dos “Direitos Humanos” e pela ONU.

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* De forma simplificada, e no caso específico, para haver ganho de um lado, este deverá ser total e, por isso, o outro terá perder totalmente.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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