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O ACORDO ASSINADO POR IRÃ-BRASIL-TURQUIA / (PARTE – 2)

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Observadores internacionais, analistas e líderes continuam indecisos sobre o resultado concreto do “Acordo Nuclear” assinado entre Irã-Brasil-Turquia. Parte significativa está tendendo a observar o problema da perspectiva estratégica iraniana, concordando que não há por parte deste a intenção de abandonar seu Programa, mantendo-o nos termos e comportamentos anteriores, ou seja, visando a produção de artefatos nucleares, não apenas a produção de energia para fins pacíficos e impedindo as vistorias em seus reatores.

 

Os itens do Acordo anunciados foram suficientes para gerar entre as grandes potências e outros protagonistas contemporâneos dúvidas sobre o cumprimento daquilo que o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad assinou. Deram, contudo, a certeza de que não há um compromisso explícito, por parte de Teerã de se submeter à salvaguarda internacional, uma vez que tem se recusado a assinar “Protocolo Adicional aos Acordos de Salvaguarda do Tratado de Não Proliferação Nuclear” (TNP), que visa aumentar as fiscalizações.

O mundo começa também a especular sobre as razões pelas quais o Brasil tem se esforçado nesta empreitada. De acordo com as declarações dos vários especialistas, é possível distinguir quatro tipos hipóteses explicativas de acordo com a sua natureza: (1) as hipóteses derivadas dos interesses pessoais do presidente do país, Luiz Inácio lula da Silva; (2) as derivadas de necessidades políticas eleitorais no Brasil; (3) as econômicas, prioritariamente comerciais e (4) as hipóteses de projeção global da potência emergente.

(1) As hipóteses derivadas dos interesses pessoais do Presidente brasileiro se explicam pelo desejo cada vez mais explicitado de manter e expandir o status de principal líder terceiro-mundista, hoje denominado emergente, para conseguir a capacidade de influenciar alterações na ordem mundial. De acordo com observações de vários analistas, Lula, pessoalmente, necessita dar a si um destino à altura da projeção que adquiriu (independente de ser merecida, ou uma construção de marketing), uma vez que deixará o cargo presidencial ao final deste ano (2010), caso seja mantida a democracia brasileira no rumo que foi construído. Analistas têm apontado que ele está apostando no papel de “Secretário Geral da Organização das Nações Unidas” e o passo dado no Irã, apesar de arriscado, tem o peso de mostrar sua capacidade de articulação e negociação internacional, algo que acabaria se mostrando mais importante para esta pretensão que a luta pelos direitos humanos, algo que muitos apontam ter sido abandonada por ele.

Ademais, como líder de destaque mundial, as ações diante do impasse iraniano anulariam as críticas recebidas até o momento em relação ao seu comportamento perante Honduras, Cuba, Venezuela (além de vários outros) e perante o próprio Irã que, independente de o mundo desejar uma solução negociada para o problema nuclear, não esquece que o regime político deste país é tido como um dos menos democráticos e mais violador dos Direitos Humanos da atualidade, fato que tem sido ignorado pelo brasileiro, apesar de ele ser um líder que ascendeu ao poder adotando estas bandeiras, algo que tem gerados críticas internacionais fortes e colocado dúvidas sobre suas verdadeiras intenções.

Ou seja, a resolução do problema iraniano colocaria para a opinião pública internacional a idéia de que o presidente do Brasil estava certo e confirmaria sua maneira informal de se referir à solução dos problemas mundiais como apenas conversar olhando “olho-no-olho”. Basicamente, seria a redução da política internacional a uma questão de forma de negociação, que deveria ser mais simplificada.

Independente de esta teoria estar certa ou errada, a suposta vitória netas negociações daria a Lula o indulto por quaisquer erros que possa ter cometido na política internacional devido à má conduta de sua política externa, conforme afirmam muitos observadores internos e externos. Daria, também, a certeza de que poderá garantir o cargo de “Secretário Geral das Nações Unidas”. Além disso, torna-se o único homem com peso suficiente para ganhar o “Prêmio Nobel da Paz” em 2010, feitos que lhes dariam capacidade de retomar o poder no Brasil quando desejar, ou conduzir sua política, esteja onde estiver, desde que garanta a continuidade de seu governo.

(2) Simplificadamente, a primeira hipótese está configurada no desejo de permanência no poder, pois incorporou o papel que lhe foi atribuído o grupo que o levou a presidência da república em 2002: ser a personagem que corporifica o ideal de esquerda trabalhista brasileira, com personalidade messiânica e tendente a adotar projetos assistencialistas de inclusão social, nos quais seja crescente a participação do Estado, sem estar definido os limites para esta evolução. Por isso, o segundo conjunto de hipóteses sobre as razões de o Brasil estar nesta empreitada investe nas necessidades político-partidárias-eleitorais.

As “eleição presidencial de 3 de outubro de 2010” está começando o seu processo e a candidata do governo, a “Ex-Ministra da Casa Civil”, Dilma Roussef,  tem precisado do apoio direto do presidente, tentando a migração de votos, uma vez que ele tem altos índices de aprovação popular. Aqueles poucos analistas que têm tocado neste assunto, levantam que uma vitória no problema nuclear iraniano tornaria inócua qualquer crítica da oposição brasileira à política externa do atual governo. Seriam falados apenas do crescimento econômico do país, sua inserção na economia mundial e a inserção do governo Lula, logo do Brasil, na esfera das grandes potências, mesmo que o país não tenha condições de suportar o peso de ser uma potência global. Assim, o problema eleitoral do governo se resolveria, já que mesmo que não sejam migrados todos os votos naturalmente dados a Lula, ocorreria a transferência da quantidade significativa para eleger sua candidata. As vitórias estrondosas do Presidente no cenário mundial tornariam tímidas as críticas de lógica, de postura, de valores e sobre os erros nos projetos feitos pelo governo, ainda mais que, dentro da sua estratégia, tem sido adotado o procedimento de excluir a herança que foi recebida, a qual permitiu os saltos que foram dados no momento.

(3) O terceiro tipo de hipóteses explicativas tem sido o mais adotado pelo governo brasileiro para justificar tanto empenho, embora esteja sendo pouco batido: as razões econômicas, com grande investimento nas parcerias, cooperação técnica, ampliação das exportações, projeção futura de conquistar o mercado consumidor iraniano quando a situação estiver normalizada neste país. Para justificar esta pretensão, têm sido organizadas várias reuniões com empresários brasileiros e iranianos, nas quais são assinados acordos. As declarações caminham na direção da ampliação do mercado consumidor, diversificando os clientes, naquilo que está sendo falado como “mutilateralismo”, ou “pulverização de mercados”.

As manifestações constantes são de que é necessário libertar-se da tutela dos EUA, tornando os norte-americanos como antagonistas, embora estes não sejam. Da perspectiva dos estrategistas do governo, o Irã torna-se um mercado como outro qualquer e não se podem acatar as solicitações estadunidenses, pois eles seriam concorrentes.

A forma de conceber o problema, contudo, ignora as transformações da economia internacional contemporânea, que leva a pensar a política mundial com as categorias do século XX quando as empresas mais poderosas eram configuradas como nacionais, ou multinacionais, já que as grandes corporações não eram atores das relações internacionais e sempre necessitavam da intermediação dos governos de onde estavam sediadas para poder realizar empreendimentos em escala maior que os seus mercados domésticos. Hoje, as corporações tem características transnacionais, devido a globalização da cadeia produtiva. Mas isso está sendo ignorado nos discursos dos líderes brasileiros.

Ademais, outros pontos têm sido ignorados: (a) o mercado iraniano não está sendo dimensionado adequadamente e (b) o regime do país é instável, podendo tornar um desperdício qualquer investimento, além de resultar num antagonismo futuro do povo e novo governo iraniano ao Brasil, caso este governo caia.

 (4) Da perspectiva do governo brasileiro, alega-se que a razão está mais voltada para a consolidação da projeção global que o Brasil possa estar adquirindo e isto tem recebido a concordância de alguns observadores. A solução do problema iraniano resolveria não apenas as necessidades imediatas do Presidente como auxiliaria o Brasil a conseguir sua almejada vaga como membro permanente no “Conselho de Segurança da ONU”, mesmo com o antagonismo dos EUA, uma interpretação errada, de acordo com vários analistas.

Segundo os adeptos deste tipo de hipótese explicativa, se o resultado for positivo, o Brasil anularia a oposição americana e garantia o apoio de todos os emergentes, além das potências que desejam confrontar os interesses estadunidenses, ou daquelas que têm interesses comerciais no Brasil, como é o caso da França.  Analistas têm acentuado que a aposta visa forçar a aceitação de que uma nova ordem mundial precisa ser configurada, espelhando-se imediatamente numa reforma na ONU. Países como Brasil e Turquia (de acordo com o “The Guardian”, por exemplo) estariam construindo um “eixo dos emergentes”, visando confrontar as grandes potências e mostrar a necessidade de construir uma nova ordem. Algo que foi proposto pelo Irã na assinatura do Acordo, apoiado tanto pelo Brasil como pela Turquia e reforçado recentemente pela declaração do “Assessor Especial para Assuntos Internacionais da Presidência da República do Brasil”, Marco Aurélio Garcia, de que o Brasil e Turquia deveriam participar das reuniões do “G5+1” (EUA, Reino Unido, França, Rússia, China + Alemanha), já que foram os responsáveis pela assinatura deste Acordo.

As hipóteses explicativas para a ação brasileira tem se concentrado basicamente nestas questões, mas, independente daquela que melhor explica o procedimento do Brasil, há concordância acerca de que a aposta está sendo extremamente arriscada.

A vitória consolidaria o “lulismo” como título para uma nova era, mas a derrota não apenas colocaria o presidente brasileiro numa situação decadente, como reduziria as pretensões do Brasil em sua projeção global.

O país ficaria ligado a regimes autoritários e se tornaria um dos responsáveis pela criação das condições da instabilidade mundial, ou de uma guerra de proporções difíceis de serem dimensionadas, pois estaria dando tempo ao regime de Ahmadinejad para alcançar os seus objetivos (armar-se adequadamente) sendo vitorioso nesta estratégia de ganhar tempo, já que: (1) o mundo se veria obrigado a cumprir um Acordo, sem garantias de que o Irã cumprirá a sua parte e (2) mais importante que isso, o presidente brasileiro conseguiria destruir uma frágil concordância construída pelas grandes potências (principalmente os EUA) sobre a forma de lidar com o Irã e este trabalho precisaria ser retomado sem saber se teria tempo suficiente para evitar dano de grandes proporções.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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