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A passagem do presidente Luis Inácio Lula da Silva pela Bolívia foi marcada pela assinatura de acordos e acertos diretos entre os dois presidentes. O presidente brasileiro apoiou o boliviano em sua política e deixou claro o posicionamento pró Morales nas eleições que ocorrerão na Bolívia, em outubro de 2009.

Foi acertada a parceria para a construção de uma estrada, que ligará a Villa Tunari ao povoado de San Ignácio de Moxos, na Amazônia. Serão investidos US$ 332 milhões, cabendo aos bolivianos destinar US$ 83 milhões do montante. O objetivo estratégico é construir uma passagem que permita a ligação do porto de Santos, no Brasil, a Iquique, no Chile. Nesse sentido, a estrada se mostra fundamental, no entanto fica aberta a questão sobre a forma como serão tratados os trânsitos de pessoas, produtos e mercadorias dos três países em território boliviano, tendo-se como exemplo a experiência anterior da Petrobrás e o atual problema, com relação aos brasileiros que estão sendo expulsos da Bolívia, na região fronteiriça boliviana com o Acre.

Sobre este problema, o presidente Lula solicitou a Morales que trate com “carinho” a questão dos brasileiros, dando reciprocidade em relação ao tratamento recebido pelos bolivianos clandestinos no Brasil que, ao invés de serem expulsos, tiveram sua situação regularizada. No entanto, não recebeu resposta para a solicitação.

A discussão sobre o fornecimento de gás para o Brasil foi adiada para futuro breve. A questão diz respeito ao volume de gás que será exportado e ao aumento das tarifas. O problema é complexo, pois a Bolívia pretende reduzir o fornecimento de 31 milhões de metros cúbicos para 21 milhões. Ao mesmo tempo, pretende aumentar o fornecimento para a Argentina, beneficiada pela construção de gasoduto argentino, e para o Chile.

Assinou-se também acordo de cooperação científica para tratar da produção de lítio no Salar de Uyiuni. De acordo com o governo da Bolívia esta reserva corresponde a 50% da reserva mundial. Novamente, o exemplo da Petrobrás deixa dúvidas sobre as garantias para tal investimento.

Outro ponto acertado foi à permissão para entrada em território brasileiro de produtos têxteis bolivianos com tarifa zero. O objetivo é substituir os EUA, que cancelaram os benefícios dados aos bolivianos na Lei de Promoção Comercial Andina e Erradicação de Drogas (ATPDEA, sigla em inglês). Pelo tratado, os bolivianos tinham tarifa zero para a entrada de diversos produtos, chegando a exportar para os norte-americanos, aproximadamente, meio bilhão de dólares e a beneficiar centenas de empresas bolivianas. Estima-se que, diretamente, 500 foram beneficiadas.

Alguns líderes no Brasil criticaram as manifestações do presidente brasileiro e o fato de ter acertado com o boliviano tais acordos. Vários blogs trouxeram a questão de o presidente do Brasil emprestar US$ 332 milhões à Bolívia, enquanto o governo de São Paulo foi aos EUA pedir US$ 320 milhões para investimento em estradas vicinais. Outro ponto criticado foi o fato de o presidente ter feito discursos em apoio a Morales na região cocaleira mais importante dos bolivianos e ter usado, por breve momento, um colar com folha de coca.

Dois pontos ressaltam no fato. Primeiramente, o presidente brasileiro está investindo diretamente na costura de uma política externa pró-ativa em relação à América do Sul e, segundo, traz a sensação de estar ocorrendo uma corrida entre o Brasil e Venezuela para atrair para suas respectivas esferas de influência os demais países sul-americanos. Caso seja essa a questão, a vitória do Brasil é visível pela grandeza de sua economia, mas pairam dúvidas sobre as garantias de que todos os benefícios fornecidos serão saudados pelos beneficiados, uma vez que eles agem ideologicamente, e serão cumpridos os acordos firmados. Tais dúvidas aventam a possibilidade de que a vitória sobre o concorrente seja uma Vitória de Pirro, expressão utilizada para expressar aquela vitória a um custo muito alto, tanto que não será benéfica.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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