LOADING

Type to search

O FRACASSO DA REUNIÃO ENTRE IRÃ E O “P5+1”

Share

O resultado da “Reunião de Cúpula” entre o “P5+1” (EUA, Grã-Bretanha, França, China e Rússia + Alemanha) e o Irã foi considerado pelas autoridades envolvidas e pela “Comunidade Internacional” como um fracasso, uma vez que as solicitações das grandes potências não foram ouvidas pelo governo iraniano, que  anunciou manter o seu “Programa Nuclear” nas mesmas condições atuais e declarou que já dispõe de tecnologia para realizar o enriquecimento de urânio no percentual necessário para colocar em funcionamento suas Usinas.

 

Uma semana antes da Reunião, realizada nos dias 20 e 21 de janeiro, na presença das autoridades internacionais convidadas para fazer uma visita às Usinas de Arak e Natanz, o ministro interino das “Relações Exteriores” do Irã, Ali Akbar Salehi, havia dito em entrevista transmitida ao vivo pela rede de televisão estatal do país que “As últimas sanções não nos criaram nenhum tipo de problema em nossa atividade nuclear. Prosseguimos com firmeza. (…). Nossas atividades, em particular o enriquecimento de urânio, seguem adiante com determinação”. Tal declaração foi considerada uma prévia de que o comportamento do seu governo levaria ao fracasso das negociações, embora fosse garantido o cronograma.

Na quinta-feira, dia 19 de janeiro, o embaixador iraniano perante a “Agência Internacional de Energia Atômica” (AIEA), Ali Asghar Soltanieh, manteve a posição afirmando que “As sanções do Conselho de Segurança da ONU, os vírus e as ameaças não vão interromper o processo de enriquecimento no Irã”, significando que as atividades “não serão suspensas nem por um segundo. (…). O Irã é auto-suficiente em matéria nuclear, já que possui toda a tecnologia industrial necessária para o enriquecimento de urânio. Disseram que não seríamos capazes, mas já produzimos 40 quilos de urânio enriquecido abaixo de 20 %. (…). [O governo] não fará concessões em matéria de enriquecimento“.

Complementando essas declarações polêmicas, feitas enquanto se encontrava em Moscou para outra reunião, o Embaixador afirmou: “Enfrentamos uma ameaça muito séria e então tivemos que tomar medidas para proteger nossas instalações. Temos prevista outra instalação em Fardo, perto de Qom. (..). É, por dizer, uma instalação de reserva, de modo que se um local é atacado, podemos continuar o processo de enriquecimento”.

Com este pronunciamento, trouxe mais indícios de contradições sobre a “inexistência de um programa nuclear secreto”, conforme afirmação também feita no mesmo lugar de que continuará “desenvolvendo um programa nuclear pacífico sob supervisão da AIEA. Não temos centros subterrâneos. A AIEA realizou centenas de inspeções nos últimos oito anos e nunca apresentou alguma prova de que temos um programa nuclear militar secreto”.

A questão diz respeito ao fato de haver Usinas que não são anunciadas por razões de segurança, algo que reforça às suspeitas da possibilidade de ali estarem sendo feitos trabalhos com fins bélicos, tanto que o diretor-geral da “Agencia Internacional de Energia Atômica” (AIEA), Yukiya Amano, ter declarado, ontem, dia 25 de janeiro, que não há como afirmar se o país está trabalhando com um “Programa Nuclear” com o fim de desenvolver armas atômicas e ter pedido “acesso sem restrições” às instalações iranianas.

A responsável pela “Política Externa” da “União Eurpéia”, Catherine Ashton,  declarou que as negociações continuam abertas, mas expressou decepção pelo resultado da Reunião dos dias 20 e 21 de janeiro, explicando as razões: o Irã evitou entrar em detalhes e em conversas “construtivas” e seu negociador no encontro apresentou como condições para a negociação que “sejam encerradas as sanções contra o país” e “seja feito o reconhecimento de que o Irã pode enriquecer urânio”.

Da perspectiva dos analistas, tal comportamento demonstra que se colocou à mesa a condição de impasse, pois o reconhecimento das exigências dos iranianos representaria o retrocesso em todas as medidas e a aceitação do “Programa” nas condições de sigilo e sem controle, uma vez que a própria AIEA já alegou que não tem o acesso necessário para garantir que o projeto siga a linha pacífica, evitando que ele tenda para a produção de armamentos.

Apesar de as sanções adotadas até o momento serem consideradas dentre as mais duras já aplicadas pela “Organização das Nações Unidas” (ONU), a tendência será de que sejam impostas outras, mesmo que todos, incluindo os iranianos, estejam afirmando que as negociações devam continuar.

A secretária de Estado dos EUA, Hilary Clinton, levantou a possibilidade de que isso vai ocorrer a partir de novas sanções unilaterais contra o Irã. Observadores são reticentes com relação a tal atitude, por duas razões: (1) acreditam que receberá forte contraposição da Rússia, que não foi favorável às atitudes unilaterais aplicadas e começa a ser receptiva às iniciativas do governo iraniano, não para apoiá-lo, mas por acreditar que pode manter este país sob seu controle; (2) não acreditam que qualquer ato liderado pelos EUA fará o governo iraniano recuar.

Por essas razões e dificuldades que podem resultar na vitória tática que o governo Ahmadinejad precisa, a possibilidade de um ataque às Usinas não está sendo descartada. Confirmações desta hipótese estão sendo dadas por fontes do próprio governo iraniano que anunciaram terem sido realizados testes pela “Guarda Revolucionária” de “mísseis terra-ar” da classe “hawk” para defesas dos centros nucleares e pontos estratégicos. O Exercício foi realizado na área do centro nuclear Khandab, próximo do reator de Arak, região noroeste do Irã, e foi considerado positivo, de acordo com os anúncios dos representantes do governo.

A tendência entre os analistas é de considerar que o processo de negociação em rodadas de “reuniões de cúpula” está dentro da estratégia de Teerã, para ganhar tempo, até conseguir seu intento.

Tendem os observadores a aceitar que o governo iraniano acredita que, se conseguir o controle do ciclo de produção de armamentos nucleares, ficará o país num status de negociação superior nas mesas de negociação, em condições melhores que às da Coréia, por exemplo, pois tem possibilidades industriais que os coreanos não dispõem (apesar de estes  terem adquirido status de potência nuclear – ainda não confirmado, mas já aceito), e capacidade de assumir liderança no seio da comunidade islâmica, o que obrigaria o Ocidente a negociar e acatar as exigências do país.

Dentro da mesma estratégia está o posicionamento de Teerã diante das atuais crise políticas na Tunísia e no Líbano, onde, no primeiro caso, o governo Ahmadinejad está declarando que é uma manifestação do povo em prol do islamismo contra a interferência ocidental, desviando a atenção do fato de ser uma revolta contra um governo que estava no poder há 23 anos e o país passa crise econômica; já no segundo, constituir-se de uma crise política gerada pelas diferenças entre sunitas e xiitas no Líbano, envolvendo a Hizbollah, que é apoiado pelo Irã.

Os dois casos estão sendo usados de duas perspectivas: (1) reforçar as declarações de que os iranianos podem ser a “Voz” do mundo islâmico contra os ocidentais e contra Israel no Oriente Médio e (2) desviar a atenção da “Comunidade Internacional” do fracasso das negociações sobre o “Programa Nuclear”, continuando no processo de ganhar tempo.

Independente desses ganhos momentâneos, a tendência entre os analistas é de que, ao longo deste ano (2011), será proposta outra rodada de negociações, mas ela será acompanhada do aumento de sanções e, caso o limite de tolerância seja atingido, podem ocorrer ataques às “Usinas Nucleares” do país, mas, nesta hipótese, as conseqüências são imprevisíveis, razão pela qual a possibilidade de serem aumentadas as sanções para que o governo ceda, ou o regime entre em crise e seja substituído, está sendo vista como a principal da perspectiva das grandes potências. No entanto, para que isso se concretize, terá de ser realizado um intenso trabalho para manter a Rússia e a China em linha com as demais potências mundiais.

Tags:
Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

×
Olá!