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O ano de 2010 encerrou-se com uma intensa crise na “Península Coreana” que acabou envolvendo outras nações, em especial a China, os Estados Unidos e o Japão. Seul decidiu retomar o contato com PyongYang e sua posição está despertando a atenção dos analistas.

 

As duas Coréias, que, tecnicamente, há cinqüenta anos ainda estão em “Guerra”, realizaram tensos diálogos e provocações, entrando em uma “guerra psicológica” que quase as levou ao conflito armado. Os dois principais motivadores foram: (1) o caso da embarcação Cheonan (Fragata sul-coreana que naufragou próximo da fronteira marítima entre as duas Coréias, tendo sido a Coréia do Norte responsabilizada pelo ato) e (2) o recente ataque norte-coreano a uma ilha sul-coreana, próxima da fronteira entre os dois Estados.

Após o primeiro caso (o da Fragata), as nações aliadas a Seul iniciaram uma série de discussões sobre as atitudes de Pyongyang. As provocações e o seu programa nuclear levaram estes países a buscar formas de punir o governo de Kim Jong-Il.

Embora submetida às inúmeras sanções e aos cancelamentos de programas sócio-econômicos entre o Sul e o Norte, as autoridades de Pyongyang não abaixaram o tom de seus pronunciamentos, nem reduziram as provocações para com os vizinhos e os Estados Unidos. Em muitos momentos, a mídia norte-coreana apresentava declarações de “que está próxima a guerra santa nuclear com os traidores do sul e com Washington”, o que deixou o continente asiático sob alerta constante.

Tais atitudes levaram a Coréia do Sul e os Estados Unidos a iniciarem uma série de exercícios militares conjuntos, o que também foi considerado por alguns analistas em segurança e por autoridades chinesas e norte-coreanas como “um motivo de provocação e ameaça à estabilidade da paz na região”.

Estas manobras ganharam mais peso após o ataque no final do ano passado à uma ilha sul-coreana, Yeonpyeong, momento em que as forças militares de PyongYang dispararam 170 peças de artilharia, resultando em mortos e feridos.

Esta última ação foi uma armadilha que obteve sucesso em por fim às tentativas de paz negociada, pois, em seguida, norte-americanos e sul-coreanos informaram que não retornariam ao diálogo, quase resultando no reinício da “Guerra da Coréia”.

Com estes acontecimentos, ressaltando que foram os mais importantes ocorridos na península no ano de 2010, os analistas econômicos e os especialistas em segurança passaram a estudar as estratégias dos países envolvidos (Coréia do Sul, Estados Unidos, Coréia do Norte, China e Japão),  observando-as das seguintes perspectivas: Quais os prejuízos econômicos e políticos para a região? Quais os reais interesses dos envolvidos? Por fim, quem seriam os “vencedores” e “perdedores” em caso de um possível combate.

Do ponto de vista econômico, em curto e médio prazos, a possível guerra traria impactos negativos para todo o sistema internacional, causando estragos imediatamente para os países da região. As ações certamente deixariam as economias regionais frágeis e produziriam uma crise global.

Em caso de conflito, o Japão e os Estados Unidos, aliados da Coréia do Sul, teriam de arcar com os custos do combate. Para Washington e Tókio, este seria um momento desfavorável para guerrear, pois suas economias estão se reestabilizando e os dois Estados sofreram muito com a crise econômica internacional de 2009, não tendo ainda se recuperado dela.

Teriam também de enfrentar outras discussões sobre suas participações nos conflitos do Oriente Médio, onde há tropas, equipes de resgate, auxilio alimentar, além de outras atividades. Uma nova guerra seria “caótico” para suas economias e para a economia internacional.

Os prejuízos maiores cairiam sobre a Coréia do Sul, pois esta sofreria estruturalmente, mesmo com a possível “vitoria”. Os gastos para a reconstrução de suas infra-estruturas e reestruturação econômica dependeria de ajuda financeira global, algo difícil no atual momento da economia mundial.

Em questões de segurança, o Japão e a Coréia do Sul poderiam ser os maiores prejudicados, considerando a ameaça nuclear norte-coreana, já que, certamente, receberiam os  primeiros impactos de um possível ataque, devido a proximidade com o “Estado ameaçador”. Washington perderia unidades militares, mas seria pouco provável ser atacado em seu território, o que deixaria os EUA com a vantagem de sofrer menos danos que seus aliados.

Analistas afirmam que a Coréia do Norte poderia perder a Soberania e sofrer ocupação territorial, mas, dentre todos os países envolvidos, seria o menos afetada relativamente, pois tem infra-estrutura defasada, é incapaz de responder às exigências do comércio internacional, razão pela qual não está inserida na “cadeia produtiva global” e, comparativamente, sua reconstrução seria menos custosa.

A derrota das forças militares norte-coreanas constituir-se-ia de mais uma ferida na família de Kim Jong-Il que perderia seu principal patrimônio: o Poder. Alguns especialistas citam que o orgulho da dinastia de Kim Jong-Il impede o país elaborar políticas desenvolvimentistas, levando à utilização de seu programa nuclear como “moeda de barganha” para obter ajuda financeira das grandes potências.

As diferenças econômicas e militares entre os lados são claras e traz a mente a questão: Quais os interesses do governo Kim? Para observadores de diversos campos, o país se mantém graças às doações e ajudas de seus aliados China e Rússia, além dos auxílios da Coréia do Sul, que o faz por considerar ser o mesmo povo.

Empresas sul-coreanas se instalaram no norte gerando empregos e durante os períodos de desastres naturais o povo norte-coreano se manteve com alimentos vindos do sul e da China. Além disso, o pouco da indústria de base que há se sustenta com energia importada dos vizinhos.

Com estas tensões em 2010 e com as provocações de ambos os lados, o diálogo parecia impossível. Um exemplo de que se caminhava para a radicalização foi o fato de, em dezembro deste ano, a Coréia do Sul ter realizado este maior exercício militar na fronteira com a Coréia do Norte, utilizando munição real, como forma de enviar a mensagem de que estava pronta para a guerra.

Após este evento, Pyongyang surpreendeu o mundo, ao não responder a ação. Contudo, fez o seguinte comunicado oficial: “estes belicistas dizem que vão iniciar manobras com tiros reais, com a participação de F-15K (aviões de combate), de tanques e canhões em uma base militar de Pocheon (…). Estes exercícios navais são exercícios fanáticos com o objetivo de invadir a Coréia do Norte”. Para o jornalista Benjamim Formigo (“Jornal de Angola – Online”), isto faz sentido, pois o atual presidente sul-coreano, Lee Myung-bak, está sendo mais duro com o vizinho que seus antecessores. O fim de relações, o fechamento das fronteiras e os exercícios militares, foram respostas a Kim Jong-Il.

Durante todo o período de tensões, o caminho para o conflito cresceu enquanto o diálogo foi se esvaindo, mas ambos convergiram em expectativa para as manifestações de um ator: a China. Em todos os momentos, os chineses pediram “calma”, solicitaram a diminuição da presença estrangeira nos assuntos regionais e a retomada do diálogo sobre a Paz e o “Programa Nuclear” da Coréia do Norte.

Esta posição de Beijing gerou divergências com os Estados Unidos, com o Japão e com Seul, que passaram a pressioná-la para posicionar-se em prol de uma das Coréias, mas eles concordam que a China é a “chave” chave política e econômica da região, devido a sua influência regional e posição econômica global (2o PIB do mundo). O fato de deter capacidade econômica e militar faz com que suas atitudes sejam decisivas à “Paz” ou ao “Conflito” na região.

Para os aliados de Seul, a influência chinesa sobre o governo de Pyongyang pode ser positiva nas negociações do “Programa Nuclear” norte-coreano e na estabilidade da península. O fato de a Coréia do Norte depender do apoio de Beijing para se manter ativa torna-a receptiva a algumas exigências.

Sanções vindas da China podem levar o governo Kim a repensar sua política externa, obrigando-o a retomar o diálogo e as negociações para sua sobrevivência, pois, além da dependência econômica, o apoio político chinês foi um dos fatores para a Coréia do Norte não ter sofrido mais retaliações em Organizações como a ONU e também por países na Ásia.

O poder chinês também tem levado as demais nações a adotarem nova estratégia em relação aos problemas norte-coreanos, por isso os aliados de Seul trabalham com planos de trazê-la para o seu lado.

No entanto, recentemente o “Site WikiLeaks” disseminou um documento secreto da diplomacia norte-americana que trazia informações sobre as relações de Beijing com Pyongyang, apresentando o descontentamento dos chineses com o governo de Kim Jong-Il. Analistas vêem a Coréia do Norte usando de todos seus recursos para chamar a atenção de Washington e das grandes potências mundiais, por isso ela tem sido interpretado pelos chineses como “uma criança mimada”. Outros “documentos vazados” mostram a possibilidade de a China desistir dos norte-coreanos e aceitar Seul, desde que sejam atendidos alguns de seus interesses.

O território norte-coreano ainda é uma área pouco trabalhada em seus recursos naturais. Se houvesse conflito, em longo prazo os países que derrotassem Pyongyang seriam os exploradores deles, com a alegação de auxiliar na reconstrução do pós guerra.

Embora haja tais especulações, a China continua neutra e posiciona-se contra a interferência de estrangeiros na região, pois, historicamente, chineses, coreanos e japoneses têm suas divergências devido às disputas territoriais. Com a derrota japonesa e final da “II Guerra Mundial” as disputas foram retomadas e a aliança dos Estados Unidos com o sul-coreanos consolidou o ressentimento histórico corporificado na divisão que se seguiu à “Guerra da Coréia”.

Analistas e jornalistas que estudam a região trabalham com a hipótese de que a “China vê a Coréia do Norte como um tampão para uma ameaça vinda do Sul e do Japão, com a colaboração dos Estados Unidos”. Este pensamento é a base da política chinesa com Pyongyang.

Indiferente dos caminhos traçados, sabe-se que não haverá apenas benefícios para os vitoriosos, no caso de conflito. Haverá muitos custos. Por isso, o caminho do diálogo é a posição escolhida pela China, como forma de evitar problemas que atrapalhem-na de fazer frente às futuras pressões que sofrerá, à medida em que se consolidar como potência Global.

Observadores tendem para a opinião de que, para os países envolvidos nas tensões coreanas, o melhor caminho é exercer o diálogo tendo a China como uma Mediadora das negociações, já que esta detém facilidade em se comunicar com os norte-coreanos.

O que pode indicar que a posição chinesa segue nesta direção são os pronunciamentos daquele que será o sucessor de Kim Jong-Il no governo da Coréia do Norte: Kim Jong-un, de 27 anos. Analistas acreditam que durante a sua viagem à China, ele foi preparado para dar à Coréia do Norte um novo rumo e suas palavras estão fazendo com que o presidente sul-coreano abra novas possibilidades de diálogo com o vizinho do norte.

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Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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