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O posicionamento da Rússia na “Questão Líbia”

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Diante da “Comunidade Internacional”, a Rússia tem se posicionado contra as operações realizadas pela “Coligação” na Líbia, iniciadas no sábado, dia 19 de março. O presidente Dmitri Medvedev  e o primeiro-ministro Vladmir Putin solicitaram a paralisação das ações e deram declarações de formas distintas contra a maneira como tem sido conduzido o processo neste país.

O Governo russo apresentou postura crítica, mas técnica, expressando que “Medvedev (o Presidente) expressou sua preocupação sobre como a resolução do Conselho de Segurança da ONU para impor uma zona de exclusão aérea está sendo implementada, (e) possíveis mortes entre a população civil em conexão com o uso indiscriminado da força pela aviação”.

Anatoli Serdukov, “Ministro da Defesa”, declarou: “A Rússia juntou-se à exigência de acabar com a violência contra a população civil neste país. Baseamo-nos no fato de que o mandato previsto pela resolução do Conselho de Segurança da ONU de 1973 prevê apenas as medidas de defesa dos cidadãos que visam evitar a escalada do conflito. Infelizmente, os últimos eventos mostram que as ações militares reais começaram neste país. Na seqüência delas, foram danificados os objetos civis e morreram cidadãos. Isso era impossível. Apresentamos a nossa posição aos colegas norte-americanos”.

O “Primeiro-Ministro”, por sua vez, foi mais enfático e, no dia 22, segunda-feira, afirmou que “a resolução (do CS da ONU) tem falhas e defeitos (…) fazia lembrar as cruzadas medievais”, chegando a declarar que a “Resolução 1973” “autorizou o ataque” e isto tornava “claro que todos podem adotar qualquer ação contra um Estado soberano”.

Analistas têm destacado que há sutilezas nas manifestações das autoridades russas. A declaração de Putin, apesar de intensa, reflete a face mais preocupada do Governo com as perdas que seu país terá, uma vez que a Rússia era o principal parceiro comercial militar da Líbia, com vendas de armamentos chegando a casa dos 4 bilhões de dólares, de acordo com informações disseminadas pela mídia internacional.

Suas afirmações, mesmo que duras, não afetam as relações do Estado russo com as demais potências envolvidas na Coligação, já que a política externa é competência do Presidente, não do “Primeiro-Ministro”, e apenas mostram que segmentos do Governo (ou todo ele) desejam que o processo se encerre imediatamente, pois se sabe que os russos estão sendo afetados e não querem que os prejuízos aumentem.

Medvedev, no mesmo dia, manifestou-se contra Putin, afirmando que “em nenhuma circunstância é aceitável que se usem expressões que essencialmente levam a um choque de civilizações, expressões como cruzadas e por aí em diante”. E ressaltou que a abstenção não é igual ao veto, o que demonstra que seu país reconhece “os crimes [de Khadafi] contra o seu próprio povo”, bem como que a resolução reflete no geral a nossa interpretação do que se está a passar na Líbia, mas não completamente”. Em síntese, declarou que a Rússia concorda com o posicionamento das demais grandes potências, mas discorda dos métodos. Ou seja, este é a “postura oficial da do país”.

Analistas começam a apontar um possível concerto interno no Governo para manifestar em instâncias distintas as etapas do argumento russo, uma vez que ele está interessado em negociar de forma rápida o problema líbio com os EUA, para não permitir que esta crise afete o planejamento de modernização da Rússia.

Observadores também apontam que esta tese que começa a ser levantada é possível, mas, há divergências reais entre os líderes sobre as transformações que a própria Rússia precisa passar, principalmente em torno do sistema político, refletindo-se na configuração de forças entre as lideranças, em especial neste momento, próximo das eleições presidenciais de 2012. Segundo afirmam, é neste ponto que há divergências o que pode explicar as formas como têm sido feitas as declarações dos mandatários.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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