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O recente questionamento feito pelo ministro de Assuntos Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, deve ser entendido e observado pelos analistas do sistema internacional, apesar de ser um assunto que não compete em atenção e importância momentânea na mídia com o problema que está ocorrendo no Irã.

 

A crítica que foi feita pelo ministro segue em três direções: primeiro, que a OTAN deve parar de cooptar elementos dentre os ex-membros do antigo pacto de Varsóvia (Aliança Militar que unia os países socialistas do leste europeu para fazer frente à Europa Ocidental e aos aliados dos EUA no período da Guerra Fria – 1945(47/discurso de Churchil em Fulton, nos EUA) até 1989 (Queda do Muro de Berlim, embora alguns achem que o final seja em 1991, ou 1992). Segundo, apesar de afirmar que não deseja extinguir a OTAN, acena para o fato de que outra organização deve ser pensada, englobando as questões de segurança tanto do leste quanto do oeste e, terceiro,  demonstra que os russos entendem a estratégia das potências européias e dos norte-americanos em relação ao seu país.

Observa-se que tem sido transparente para os russos a preocupação com relação à incógnita que eles representam. Ponte entre dois continentes, confluência de civilizações e congeminação de culturas, os russos ainda trazem para a Europa Ocidental o receio do poder que carregaram ao longo dos três últimos séculos, seja pela sua grandeza territorial e demográfica, seja pelos seus traços culturais, os quais lhes dão uma capacidade de resistência e sobrevivência reconhecidas pelo mundo ao longo da história.

 

Ademais, após a queda do regime soviético e adoção do modo de produção capitalista, o país foi se reerguendo paulatinamente e hoje está exigindo maior participação na tomada de decisões na economia internacional. Sua importância já era aceita, mesmo quando economicamente ainda estava fraca e sob questionamentos internacionais, tanto que foi convidada a aderir ao G-7 (Grupo composto pelos sete países com maior economia no mundo), compondo o G-8.

 

Hoje, com a instauração do BRIC, está em passo de espera deixando que os demais membros desse grupo reivindiquem a alteração da configuração do sistema internacional, uma vez que já é membro das principais instâncias (G-8  e Conselho de Segurança da ONU) e com paciência abocanhará as conquistas do grupo sem precisar assumir as rédeas do processo.

 

Devido a esses componentes, tanto aos EUA, quanto à Europa tem sido problemático não fazer frente às possíveis expansões que se vislumbram para os Russos. Os países que compunham o Antigo Pacto de Varsóvia, bem como alguns da antiga União Soviética estão sendo incorporados pela União européia e, da perspectiva de europeus ocidentais (não podemos esquecer que os russos também são europeus) e norte-americanos, eles precisam sê-lo para dar-lhes segurança contra as possibilidades de gigantismo econômico dos russos, algo possível. Mas, em curto prazo, para dar-lhes segurança contra domínio político que a Rússia desempenharia, graças as suas condições geográficas, posicionamento geopolítico, além de poder político e militar que deteriam na política internacional. Uma suposta invasão armada é o que menos preocupa aos atores (União Européia e Estados Unidos), pois este é um cenário muito distante!

 

A estratégia deles então é complicar ao máximo a influência que a Rússia pode ter em suas cercanias européias, já que ela tem um contrapeso na Ásia apesar de parceira (a China) e os EUA estão no Oriente Médio, região que onde naturalmente cresceira o ventre russo, á medida que a riqueza de sua economia lhes engordasse.

 

Daí entender o comportamento de permitir que a OTAN tenha uma configuração e planejamento que incorpore a própria a Rússia. Primeiro seria contra-senso, já que confrontá-la foi à razão de sua criação, depois, qual seria o inimigo que uniria toda a Europa (ocidental e oriental) para fazer uma estratégia conjunta?

 

Embora não tenha explicitado diretamente, o ministro e o governo russo demonstram ter clareza das preocupações do “ocidente”.

 

Inicialmente, o medo que seu país causa a Europa. Por mais que os europeus tenham uma economia mais de quinze vezes superior a Russa, a tendência natural é que os russos, por razões culturais, envolvam em suas áreas de influência os povos ao seu lado. Acrescente-se a isso que a Europa ainda está se construindo e toda vez que incorpora um país que não tem o seu modelo, não apenas atrasa o seu processo união, como também empobrece, pois tem de fazer pesados investimentos para regular uma economia nova e fraca e adequar o sistema político e social desse novo parceiro ao modelo europeu.   Assim a OTAN serve como uma luva às necessidades européias, pois não exige que se considere como Europeu Unido, aquele que ala se incorpora. Ele é um aliado, nada mais que isso. Para os estadunidenses (forma como os latino-americanos, exceto os brasileiros, se referem aos EUA) também tem serventia.  Atrapalha os russos, sem trazer problemas ao contrapeso que eles devem ter na região. Afinal não interessa aos norte-americanos ter uma Europa com condições de superá-la em todos os pontos estratégicos do globo.

 

Não seria incorreto fazer uma analogia com uma charge que saiu em um jornal europeu na década de 90 do século XX. Ela era mais ou menos assim: um desenho em que colocava um grande político russo e um grande político alemão sentados, tomando café em uma cafeteria no século XXI. Cada um lendo o jornal de seu país de origem. Em determinado momento o russo dá uma gargalhada e diz: haaa! Os russos compraram as dez maiores empresas da Alemanha!!!!! Passados alguns minutos o Alemão gargalha e diz: olha só… a Alemanha está tendo problemas na fronteira com a China!

 

Continuemos a chamar a Rússia de Rússia, e passemos a chamar a Alemanha de Europa! Não será absurdo imaginar que esta figura não passa pela cabeça dos estrategistas norte-americanos. Às vezes a sensação que se tem é de que há um pôster com ela na sala presidencial, desde o fim Guerra Fria!

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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