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POSTURA IRANIANA REDUZ EXPECTATIVAS PARA RODADA DE NEGOCIAÇÕES COM O “P5+1” SOBRE SEU “PROGRAMA NUCLEAR”

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A postura iraniana adotada ao longo das últimas quatro semanas tem reduzido as expectativas e criado o clima de tensão para a rodada de negociações entre o Irã e o grupo informal denominado “P5+1” (EUA, Rússia, China, França, Grã-Bretanha + Alemanha / conhecido também como “E3+3”, ou seja, França, Grã-Bretanha, Alemanha + EUA, Rússia e China), que ocorrerá entre os dias 20 e 22 de janeiro de 2011, em Istambul (Turquia). O encontro também contará com a presença dos turcos.

 

A razão para esta Reunião é a o “Programa Nuclear” do Irã, sobre o qual as grandes potências apresentam argumentos, indícios e dados que demonstram se destinar à produção de armamentos nucleares, apesar da constante recusa a esse respeito por parte de Teerã.

O governo iraniano continua adotando postura de confrontação direta aos principais países envolvidos; comportamento de constante a ameaça de iniciar uma guerra no Oriente Médio e, de acordo com interpretação de analistas internacionais, adotou agora a estratégia de tentar fragmentar o grupo opositor, realizando manobras para atrair a Rússia, a China e alguns países europeus.

Autoridades de Teerã assumem que o “Programa Nuclear” de seu país não será abandonado, declarando que o objetivo dos diálogos será buscar a cooperação com as “grandes potências”, pois, de acordo com o negociador nuclear iraniano, Saeed Jalili, a suspensão do “Projeto” está fora de questão, já que os “direitos nucleares do Irã são inegociáveis”. Esta declaração reduziu as expectativas para o encontro.

As atitudes iranianas têm trazido questionamentos sobre a forma como será tratado o problema, principalmente após a reunião, uma vez que não se acredita que ela terá sucesso. Ao longo desta última semana, o governo Ahmadinejad novamente afrontou direta e explicitamente os EUA, a França, a Grã-Bretanha e Israel.

Acusou os norte-americanos de espionagem em seu território, ameaçou Israel com a guerra e convidou vários Estados para fazer visita às suas usinas, como forma de mostrar que o país está aberto ao controle da “Agência Internacional de Energia Atômica” (AIEA), dentro das exigências do “Tratado de Não-Proliferação de Aramas Nucleares” (TNP). No entanto, excluiu da lista os EUA, a França, a Grã-Bretanha e a Alemanha.

A visita está prevista para ser realizada no dia 15 de janeiro, ou seja, cinco dias antes da “Reunião de Cúpula”, trazendo elementos complicadores para o momento negociação com as “grandes potências”. Dentre os países e Blocos convidados estão: Brasil, Egito, Cuba, Venezuela, Turquia, Argélia, Liga Árabe, Rússia, China, Hungria e “União Européia”.

O Brasil, por meio do “Ministério das Relações Exteriores” (MRE), afirmou que vai estudar o convite e apresentará parecer. Contudo, começa a ocorrer afastamento entre os dois governos, uma vez que a Presidente eleita do Brasil, Dilma Rousseff, afirmou, logo após sua posse no cargo, que adotará postura diversa do “Governo Lula” em relação ao Irã, não se calando sobre os abusos contra os “Direitos Humanos” neste país, declaração que provocou reação do “Governo Ahamdinejad”. Outro fato complicador entre os dois governos foi a recente divulgação da proibição das obras do escritor brasileiro Paulo Coelho em território iraniano, algo que resultou em reações fortes do “Ministério da Cultura” e do MRE do Brasil, declarando os dois ministros responsáveis, Ana de Hollanda e Antônio Patriota, respectivamente, o repúdio aos atos contra a liberdade de expressão que ocorrem no Irã.

Ainda de acordo com analistas internacionais o convite para a visita aos reatores nucleares se configura como artimanha para trazer a Europa ao diálogo, mas excluindo as três grandes potencias do continente, configurando tática clara de criar cisão no Bloco europeu em termos de posicionamento externo, razão pela qual a “Alta Represente da União Européia para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança”, Catherine Ashton, percebendo a manobra, recusou o convite e afirmou que a participação das autoridades políticas não contribuirá para a solução do problema, uma vez que eles não são técnicos na área, sendo estes os únicos aptos a avaliar se o Programa iraniano apresenta ou não conteúdo bélico.

O governo iraniano reagiu com desagrado, ao ponto de o chefe da “Comissão de Segurança Nacional e Política Externa do Majlis” (Parlamento iraniano), Alaeddin Boroujerdi, ter afirmado que “A República Islâmica tem demonstrado sua sinceridade por intermédio do convite feito aos representantes e diplomatas de vários países para visitar suas instalações nucleares”. Ou seja, considerou a recusa como demonstração de desconfiança e ofensa.

Observadores têm ressaltado a contradição iraniana. O Governo do Irã não aceita a posição da Baronesa de Ashton de que cabe o papel a AIEA, por considerar ser a visita das autoridades convidadas o suficiente para demonstrar a finalidade do Programa. No entanto, ao mesmo tempo, não aceita que o “Programa Nuclear” seja discutido com as “grandes potências” nos dias 20, 21 e 22 (a rigor 21 e 22 de janeiro, pois estão previstas as chegadas dos negociadores na noite do dia 20) afirmando que isso deve ser tratado com os técnicos da AIEA.

Ou seja, a conclusão é de que desejam continuar ganhando tempo, já que o problema que enfrentam neste momento são os boicotes que vem recebendo da “Comunidade Internacional”, algo que está afetando o país e gerando mais oposição, ao ponto de o Governo estar sendo obrigado a enrijecer o controle sobre a sociedade e a aumentar as condenações e “penas de morte” por crimes contra as “Leis do Islã”. De acordo com o divulgado na mídia internacional, nestes últimos trinta dias ocorreram 32 execuções.

Analistas afirmam ainda que outra manobra adotada por Teerã, dentro da estratégia de separar os europeus e as grandes potências, foi o convite à Hungria para ser uma das visitantes às usinas. Acreditam que é mais uma forma de criar cisão entre as grandes potências e a Europa e, principalmente, dentro da “União Européia” (UE), pois este país, que ocupa atualmente a “Presidência Rotativa da UE”, está recebendo críticas rígidas por parte dos europeus, tem enfrentado vários e graves problemas políticos e econômicos e sofre com o descrédito do Bloco em relação ao fato de ter assumido a função que passou a ocupar recentemente. Além de todos os problemas em que está mergulhada, recebe também a desconfiança por sempre ter se posicionado contra as regras da “União Européia”, apresentando-se como um dos principais Estados europeus  que se identificam como “eurocéticos”*, ou seja, não acreditam na unificação do Bloco.

Deve-se acrescentar como ponto que demonstra a tendência ao fracasso da Reunião que começa dia 20 de janeiro, os anúncios do Governo do Irã sobre estarem já enriquecendo o combustível nuclear no percentual necessário dentro do país, demonstrando que eram reais as suspeitas ocidentais de que estava ganhando tempo quando da negociação com o Brasil e a Turquia e não desejava fazer troca de combustível no exterior.

O chefe interino da diplomacia e do programa nuclear iranianos, Ali Akbar Salehi, declarou à agência de notícias do Irã, “Fars”, no dia 9 de janeiro, sábado: “Construímos na fábrica de Ispahan uma unidade para fabricar as placas de combustível. (…). Ao terminar esta unidade em Ispahan, o Irã se tornará um dos poucos países que pode fabricar placas e barras de combustível”.

Além de ter feito a declaração, o Governo tem alertado aos povos árabes sobre os riscos de apoiarem tanto Israel como os EUA em suas políticas contra o “Projeto Nuclear” do Irã. Inserida neles está a sua ameaça de que os mísseis iranianos são capazes de atingir toda a região do Golfo Pérsico, apontando diretamente para Israel, para os aliados árabes dos norte-americanos, além dos Porta-Aviões estadunidenses estacionados na região.

Nas palavras do comandante-em-chefe da Força Naval, almirante Ali Fadawi, em declaração feita também à “Fars”, “Os sistemas de mísseis de superfície e de profundidade da Guarda Revolucionária, assim como os mísseis terra-água, de grande alcance, chegam a todo o Golfo Pérsico e ao mar de Omã”.

De acordo como observadores internacionais, a situação continua polarizada, sem apresentar elementos que levem à negociação e não ao confronto. A secretária de Estado dos EUA, Hilary Clinton, transita pelo Oriente Médio solicitando apoio e mostrando o perigo de um Irã nuclear para a região e para o mundo. Os iranianos, por sua vez, estão incitando os muçulmanos contra o Ocidente.

Autoridades israelenses, de outro ponto, começam a confluir para a idéia de que apenas as sanções contra o Irã não surtirão efeitos. Será necessária a demonstração de força para fazer o Governo Ahmadinejad retroceder, embora várias dentre essas autoridades achem que o confronto bélico deva ser a última opção. Os dois lados estão na expectativa dos posicionamentos da Rússia e da China para as quais as grandes potências solicitam que não dê espaço ao Irã, pois afirmam que, se não lhe derem guarida, o problema poderá se encerrar de forma mais rápida.

Os russos viram com bons olhos o convite para a visita às usinas, sabendo que isto não afetará seu posicionamento em relação ao “Programa Nuclear” iraniano, nem em relação às aproximações que estão fazendo com os EUA e a Europa, uma vez que participaram do produção deste Projeto do Irã desde o início e ainda hoje tem fortes relações com ele, acentuando-se que os russos agem de acordo com as exigências da “Comunidade Internacional”.

Devido a essa série de problemas e posturas, os analistas tendem a afirmar que a reunião não trará a solução para a “questão nuclear iraniana”, podendo representar apenas mais um ganho de tempo para o governo do Irã.

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* Conferir “Análise de Conjuntura” escrita por Daniela Alves e publicada no “Site do CEIRI”, em 4 de janeiro de 2001. Ver o link: http://www.webceiri.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2090:politica-internacional-hungria-assume-presidencia-rotativa-da-uniao-europeia-em-meio-a-fortes-criticas&catid=85:analises-de-conjuntura&Itemid=86

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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