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QUESTÕES SOBRE A VISITA DO MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES ISRAELENSE, AVIGDOR LIEBERMAN AO BRASIL

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Está no Brasil para uma visita oficial de dois dias (21 e 22 de julho) o ministro das Relações Exteriores de Israel Avigdor Lieberman. Algumas questões surgem à mente dos analistas de política internacional sobre o retorno de uma visita oficial de um representante do governo israelense após 22 anos.

Segundo declarações da embaixadora Dorit Shavit, diretora-geral do Departamento para a América do Sul do Ministério das Relações Exteriores de Israel, o principal interesse na visita é frear a entrada do Irã na América Latina e, para tanto, será seguido um roteiro em que estão previstas visitas à Argentina, Peru e Colômbia.

 

Observando os países escolhidos vemos que estão no foco estratégico dos israelenses aqueles países que, ou são contrários ao bolivarianismo chavista (Colômbia e Peru), ou podem ser vistos como oscilantes (Brasil e Argentina), pois suas políticas externas não têm linhas rígidas de posicionamento e estão constantemente negociando no cenário internacional.

No Brasil, o chanceler israelense irá reabrir o consulado em São Paulo que havia sido fechado em 2002 por motivos de cortes de gastos, de acordo com o anunciado na época pelo governo de Israel. Mas, está explícito que objetiva se antecipar a visita de Ahmadinejad (presidente reeleito do Irã), pois este já anunciou que o primeiro país a visitar, após as eleições presidenciais, será o Brasil, como agradecimento à “coragem” do presidente brasileiro, Luís Inácio Lula da Silva, quando apoiou a sua eleição, ou se posicionou de forma neutra em relação às denúncias de fraude,  repressão e abusos contra a imprensa internacional.

Para os israelense é importante retomar e intensificar os contatos com Brasil, aproveitando que as relações comerciais entre os dois países cresceram 200%, mesmo com o afastamento diplomático que ocorreu, caracterizado pelas divergências brasileiras em relação ao Irã, ao conflito com a palestina, a questão dos palestinos nos territórios ocupados, bem como ao desejo do Brasil participar como mediador no processo de paz no Oriente Médio, algo que tem sido rechaçado pelas autoridades do país, pois identificam a falta de capacidade diplomática do Brasil para assumir um compromisso que exigirá, não apenas recursos humanos para, mas, principalmente, posicionamento político-diplomático no mundo e capacidade de investimento e negociação em regiões de crises.

Os israelenses estão temerosos do crescente relacionamento do presidente Lula com o presidente do Irã (Ahmadinejad) e têm identificado que os iranianos perceberam a brecha geoestratégica que se formou na América Latina com os avanços dos bolivarianos e a queda da influência dos EUA na região.

O Irã está seguindo uma política coerente com suas intenções: tornar-se uma potência nuclear, apesar das negativas a respeito; fazer parcerias com países opositores ao EUA criando um bloco político-estratégico que lhe dará suporte e garantirá independência para seguir em seus planejamentos de Estado; afastar as grandes potências ocidentais do Oriente Médio e poder usar o islamismo como fator de integração, mesmo que sejam arianos e não árabes.

Tornar-se potência nuclear dará possibilidade de suportar às ameaças de intervenção de Israel, tendo a vantagem de ser mais capaz de responder nuclearmente ao início de uma guerra do que os israelenses. Não pelo poderio bélico, mas pelo fator humano, uma vez que o sacrifício individual está mais integrado aos seus traços culturais que ao dos ocidentais, estando Israel incluído neste grupo.

Porém, apenas capacidade militar não permitirá garantir o equacionamento dos problemas econômicos que o país passa e o controle da sociedade, o que tem obrigado o governo a adotar medidas mais repressivas para conter manifestações da oposição e do povo.

A Venezuela foi o primeiro parceiro a se firmar. Hugo Chávez tornou-se ponto central e tem servido de janela para a entrada na região, onde foram firmados acordos, estão sendo feitas parcerias estratégicas e comerciais. Certamente, desejam que a porta seja o Brasil.

Contudo, os venezuelanos sofrem do mesmo problema que os iranianos: têm um país cuja economia é centrada em um único setor (o petróleo), com pouca capacidade produtiva e diversificação. Ademais, devido às tendências centralizadoras e estatizantes do atual governo, tem afastado os investimentos externo e perdido recursos investindo em políticas assistencialistas (especialmente os venezuelanos), tanto que as economias estão em crise. A Venezuela, por exemplo, é o país com maior índice inflacionário da América do Sul.

A parceria dos dois resolve parte pequena do problema, mesmo que a reboque, os iranianos ganhem como aliados os bolivarianos que estão na zona de influência de Hugo Chávez (Bolívia, Equador e Nicarágua). Assim, para o Irã, ter acesso livre e parceria com ao Brasil será prioritário. Terá condições de receber produtos agropecuários, poderá fazer troca de tecnologias e, garantirá um defensor no cenário mundial.

Para a atual política externa brasileira, eles poderão abrir um campo a ser explorado na região, que, hoje, está não está mais tão aberto desde que o Iraque se tornou o adversário do ocidente e foi derrotado. Não se pode esquecer que este país e não o Irã era o parceiro principal dos brasileiros no Oriente Médio. Para o Brasil, será importante ter acesso aquele território, não apenas pelo petróleo, mas para estar geograficamente próximo dos seus três companheiros do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) que circundam o território do Irã, que está cercado, acrescente-se esse fato, de bases militares norte-americanas. Os russos já estão projetando poder em outros continentes, tanto que na América do Sul já têm parceria com a Venezuela e estão firmando acordo militar e econômica com os bolivianos. Neste país estão previstos, além do fornecimento de armamentos e assessores militares, investimentos da ordem de U$ 4,5 bi no para a infra-estrutura. Os chineses já têm definida a sua linha política: economia e comércio e os indianos o que querem: ter estabilidade, manter a sociedade sob controle e equilibrada e se desenvolver, enquanto não estão no foco da atenção mundial.

Se para os iranianos o Brasil pode ser a porta que abrirá o sul do continente americano, para o Brasil, o Irã pode se tornar uma poltrona na fronteira dos demais países do BRIC e assim forçar os demais países que controlam o cenário mundial que ele tem o status suficiente para entrar no clube das grandes potências.

O projeto do Irã, contudo, é maior, pois deseja não ser excluído da cadeia produtiva global, o que pode ocorrer caso mantenha sua política e só lhe restem como parceiros outros países que estão quase na sua situação, dai os investimentos políticos, econômicos e diplomáticos que certamente fará com o Brasil.

Ao que tudo indica, a vinda do chanceler israelense ocorre para responder a esse movimento dos iranianos. Israel tem visto se reproduzir uma política externa americana, próxima a que ocorreu na década de 70, com Jimmy Carter, quando, apesar dos investimentos em diplomacia e a possibilidade de se criar canais de negociação em nível global, o mundo assistiu a revoluções e manifestações em todas as regiões do planeta e os EUA tiveram perda na sua capacidade de reger o cenário internacional.

A ascensão dos xiitas no Irã se deu exatamente naquele contexto, da mesma forma que as guerras civis na América Central ou foram geradas, ou se intensificaram. Curiosamente, Honduras traz a sensação de “de javú”. Como os americanos estão investindo na negociação com todos os atores do cenário para tentar mostrar que os EUA adotaram outra postura, eles estão deixando os antigos apoios automáticos que davam aos israelenses. Um exemplo disso é que os EUA estão insistindo para que Israel interrompa as construções em Jerusalém Oriental. O problema aí não é tanto militar e estratégico, mas simbólico, tanto para israelenses quanto, para norte-americanos.

Mas o governo de Israel está firme em sua posição e não aceitou os pedidos dos EUA. Como estão vendo o comportamento do governo estadunidense, os israelenses estão sendo obrigados a retomar negociações em nível mais amplo que o regional, e terão de ir aos centros onde os seus inimigos estão projetando poder.

No caso latino-americano, no Brasil, na Venezuela e, em projeção, na Bolívia e no Equador. Como não são bem acolhidos pelos governos equatoriano, boliviano e venezuelano, uma vez são aliados estratégicos, políticos e ideológicos dos EUA e não tem investimentos significativos nessas áreas, precisam visitar a Argentina, o Peru e a Colômbia para cercar os países onde os iranianos têm mais acesso. É quase uma estratégia de contenção, sendo o que lhes resta.  Ao que tudo indica estão iniciando um trabalho que não tinham necessidade de fazer quando sabiam do apoio incondicional dos EUA.

O Brasil é o ponto central. Maior economia da região, identificado como líder, está fazendo investimentos diplomáticos no mundo inteiro e tem a pretensão de ser um dos reguladores do sistema internacional. Acrescentando-se a isso, é o único dos quatro membros do BRIC que tem necessidade de fazer parcerias e projetar poder na Ásia e Oriente Médio para poder justificar suas reivindicações de grandeza no cenário internacional, daí estar sentando à mesa com qualquer parceiro. Os demais emergentes do BRIC já têm relevância no cenário global, já projetam poder, ou já tem estruturada uma política externa de longo prazo.

O trabalho que o chanceler de Israel está iniciando será difícil, mas, diante do cenário que se anuncia brevemente com avinda de Ahmadinejad ao Brasil ele terá de ser paciente e fazer investimentos para conseguir barrar as estratégias do iraniano. Um caminho, parece que já se esboçou: o chanceler está fazendo reuniões com empresário judeus, israelense e brasileiros. Ou seja, sabe que deve incrementar mais ainda as relações econômicas. Mas não apenas aqui, também na argentina, no Peru e na Colômbia, onde deverá fazer parcerias com trabalhos de inteligência, de acordo com as afirmações do governo de Israel, estão surgindo células do Hezbolah na fronteira colombiana-venezuelana, que terá boa acolhida de Hugo Chávez.

Como o Brasil é o foco principal, não seria estranho se, dentro em breve o chanceler israelense anunciasse que fará uma visita à França, que tem sido identificada como a futura principal parceira comercial-militar dos brasileiros.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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