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RENÚNCIA DE MUBARAK DEIXA EM ABERTO A FORMA COMO SE DARÁ A TRANSIÇÃO NO EGITO E O PAÍS ESTÁ SUJEITO A NOVAS REVOLTAS E AO AUMENTO DA VIOLÊNCIA

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A renúncia, hoje (11 de fevereiro), do presidente do Egito, Hosni Mubarak, foi acompanhada de euforia e satisfação por parte da sua sociedade, que recebeu o discurso de ontem, de que o Presidente continuaria no cargo, com frustração e deu mostras de que manteria as manifestações, com indícios de que a sociedade mergulharia numa onda de violência incontrolável.

 

O problema do mandatário era garantir as condições para sair ileso no processo transitório, contando com o controle que acreditava ter sobre o Forças Armadas (instituição mais importante no Estado egípcio), uma vez que no início das manifestações havia colocado em postos chaves dois generais comandantes de sua confiança.

A situação no país é mais complexa, pois a fragmentação está sendo percebida em todos os grupos e instituições, havendo divergências também dentro do Exército, da mesma forma que os opositores não demonstram uma plataforma programática coesa, mesmo dentro da “Irmandade Islâmica”, principal grupo antagonista e supostamente mais homogêneo. Sendo assim, as instituições oscilavam, graças as divergências dos grupos internos, entre apoiar a transição com Mubarak; a transição sem Mubarak e a queda do Regime político.

O Exército, principal organismo para garantir a estabilidade do país (e não se pode confundi-lo com as Forças Policiais), não se tornou indiferente nesta situação. A jovem oficialidade apresenta-se como disposta a acompanhar as manifestações do povo, razão pela qual na maioria dos confrontos ficou em posição de observador e recebeu manifestações de simpatia da sociedade.

A oficialidade que ascendeu vinculada ao Presidente e a mais antiga, tendia a apoiar Mubarak por não crer que sua saída levaria o país à solução das crises econômicas e dos problemas internos.

As propostas que foram apresentadas e executadas começaram com a nomeação de um vice-presidente, algo que por si não trouxe efeitos, uma vez que não definia os limites que seriam impostos ao mandatário; logo após a sua indicação, houve a substituição de todo o governo, com novos nomes, imaginando que aplacaria a revolta popular. Novamente, esta medida foi vista como apenas um paliativo, já que a sociedade exigia a substituição do “Regime Político” e não a troca do governo.

Em seguida, anunciou-se que a cúpula do Partido governista estava renunciado, dentre eles o principal líder, Gamal Mubarak, filho do Presidente e virtual candidato à Presidência em setembro, juntamente foi anunciado que o mandatário também não se candidataria. O povo se manteve em posição, pois não foi entendido pelos membros no poder que, novamente, a questão é a substituição do Regime político, o qual só seria possível com o afastamento definitivo de seu principal símbolo, Hosni Mubarak, acompanhado de todo o staff.

O discurso feito ontem pelo Presidente egípcio acrescentou neste processo a abdicação dos poderes, mas não o afastamento do cargo, já que transferiu as funções de governo para o vice-presidente, Omar Sulleiman, mantendo apenas o status de “Chefe de Estado”. Isto demonstrou que ele não acatou a principal reivindicação: sua saída, pois é um símbolo que representa os 30 anos de “estado de exceção”,  a situação de pobreza em que o povo se encontra e a condição de ser peça chave das acusações de corrupção no Egito, questão que começa a ser comprovada com o congelamento dos bens de Mubarak na Suíça, anunciado também hoje.

Diante da manifestação popular de que manteria o país nesta condições de instabilidade; diante das declarações de opositores de que o Egito tenderia à violência e depois das afirmações de comandantes das Forças Armadas de que responderia com força à rebelião para manter a ordem, mas não deram indicações de que dariam apoio ao Presidente, a situação ficou clara e Mubarak finalmente renunciou, caindo juntamente com ele a equipe de governo que foi nomeada.

O poder foi entregue a um “Conselho Supremo das Forças Armadas” ficando a incógnita de qual regime surgirá daí. As potências ocidentais já apresentavam total apoio às manifestações populares e exigiam que o Presidente renunciasse para não colocar o país em “guerra civil”, uma vez que é este chave para a estabilidade da região e, conseqüentemente, para o sistema internacional.

Quatro perguntas estão sendo feitas pelos analistas internacionais: (1) como o país se organizará neste momento transitório; (2) como será a participação e o apoio dado pelas grandes potências a este processo para não permitir a ascensão de grupos opositores que sejam anti-ocidentais, principalmente neste momento em que Mahmoud Ahmadinejad, Presidente do Irã, está usando o acontecimento como propaganda política para tentar tornar a revolta popular numa revolução islâmica e espalhá-la pelo Oriente Médio; (3) qual regime surgirá após as eleições e (4) qual a razão da insistência de Mubarak em permanecer no poder, já que ele supostamente o entregaria em setembro, pois, entendendo suas razões, tornam-se transparentes as articulações que há nos grupos que estavam e em menor medida ainda participam do poder e isto poderá apresentar à comunidade internacional as dificuldades que serão impostas às transformações mais essenciais, podendo também levar a nova situação de revolta popular.

São questões essenciais que precisam ser entendidas, pois permitirão surgir resposta que: (1) garantam o equilíbrio na região, (2) freiem a ascensão do radicalismo e do fundamentalismo islâmico e (3) preservem a paz no sistema internacional, já que, da perspectiva dos estudiosos internacionalista, se sabe que há pontos de equilíbrio na estrutura da ordem mundial e qualquer instabilidade nestes reflete em todos as dimensões das relações internacionais. O Egito é um desses pontos.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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