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SITUAÇÃO INTERNA NA VENEZUELA ESTÁ LEVANDO CHÁVEZ A REVER COMPORTAMENTO EM POLÍTICA EXTERNA

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A crise econômica e a situação política interna da Venezuela está levando o presidente do país, Hugo Chávez, a rever seu comportamento em política externa. O país continua com sua crise na economia, com sucessivos problemas e denúncias de escândalos, como o último anunciado, que se refere aos estoques de alimentos que estão apodrecendo nos depósitos da PDVAL, empresa estatal subsidiária da “Petróleos de Venezuela S/A” (PDVSA), responsável pela compra e distribuição de alimentos no país, por meio da rede de supermercados estatais.

 

O problema tinha sido levantado há meses, mas veio à tona novamente, já que 130.000 toneladas de comida foram descobertas em estado de putrefação, estando estocadas há muito tempo e não foram distribuídas, sem explicações do governo para o caso. A oposição afirma que isto representa a perda de, aproximadamente, 8 bilhões de dólares para o Estado e é uma ofensa à sociedade, que padece com a carestia e a escassez no país.

O governo anunciou que são apenas 30.000 toneladas, mas, mesmo nesta situação, os opositores não aceitam as justificativas, uma vez que continua sendo uma quantia expressiva e o Estado impediu a iniciativa privada de abastecer a população, controlando o processo.

Chávez tem afirmado que isso faz parte de uma Guerra midiática da oposição. Contudo, o líder opositor Ramón Muchacho apresentou um documento, o qual, segundo ele, é resultado de auditoria na PDVSA que identificou ter a estatal comprado 1,05 milhão de toneladas de alimentos, entre outubro de 2007 e junho de 2008. Deste montante, de acordo com o divulgado, foram recebidos apenas 266.516 toneladas e, dessas, apenas a metade foi distribuída, daí a confirmação das 130.000 toneladas apodrecendo.

Este é um escândalo que está sendo percebido pela população e se acredita que afetará a escolha dos parlamentares nas eleições legislativas de 26 de setembro de 2010. Chávez está adotando outras medidas para obter efeito imediato em relação à população mais pobre. Dentre elas, a recente proibição de que Bancos tenham participação acionária em meios de comunicação.

A explicação é de que a mídia acaba trabalhando para o grande capital e distorce as medidas que são feitas para o benefício do povo, ou não as divulga. A medida, entretando, está sendo vista como mais uma forma de controle e um atentado contra as liberdades no país e se acredita que afastará os investimentos, além de frear a dinâmica da economia. Para ter resultados mais imediatos, o presidente venezuelano está mudando sua postura diplomática.

De acordo com pesquisas realizadas, o povo não está favorável ao seu comportamento belicoso e, aproximadamente, 80% da população é contra um conflito com a Colômbia, país que os venezuelanos consideram amigo e com o qual tinham intensas relações comerciais, tanto que, com o rompimento destas, ocorrida no meio de 2009, ocorreram perdas de quase 7 bilhões de dólares, afetando os “Produtos Internos Brutos” (PIBs) dos dois países. Isto refletiu diretamente no desabastecimento interno na Venezuela.

Diante deste cenário, analistas têm apontado que a alternativa de Chávez está sendo rever seu comportamento na política externa. Apontam também que um ponto crucial na avalição do venezuelano é o final de mandado do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, pois o seu tom belicoso não terá mais o discurso moderado de um aliado de peso para apaziguar o ambiente criado, principalmente contra a Colômbia, ou os EUA.

Os efeitos destas percepções estão sendo imediatos. Hugo Chávez, ao reatar as relações rompidas com a Colômbia, declarou que não aceita e não aceitará a presença de grupos ilegais colombianos em seu país, da mesma forma que, já na semana passada, solicitou as “Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército Popular” (FARC – EP) que abandonem o recurso às armas e passem a atuar politicamente, dentro das regras democráticas, sem esclarecer que esta era a proposta do ex-presidente colombiano, Álvaro Uribe.

Além disso, afirmou que a Colômbia tem o direito soberano para estabelecer parcerias e Acordos com os Estados que lhes forem adequados, uma aceitação indireta ao “Acordo Militar” assinado por colombianos e estadunidenses, que foi motivo de discordias, agressões  e ameaças de conflito armado.

Ontem, ao saber da explosão de um carro-bomba em Bogotá, Chávez declarou repúdio ao ato que qualificou como “atentado terrorista”. Em suas palavras: “O povo e o governo venezuelano repudiam da maneira mais enérgica este ato terrorista dirigido contra o povo irmão da Colômbia e contra seu fervoroso desejo de viver em paz. (…). O governo bolivariano do presidente Hugo Chávez, em nome do povo venezuelano, expressa sua solidaridade para com o povo e o governo da República da Colômbia, e formula votos pelo pronto esclarecimento desses lamentáveis fatos”.

Observadores acreditam que a tendência será de que esta nova postura sofra retrocesso logo após  os resultados das eleições legislativas venezuelanas, caso Chávez tenha confirmação da vitória do “Partido Socialista Unido da Venezuela” (PSUV) e mantenha as parcerias e investimentos da China no país, pois os chineses podem ser as fontes de recursos para que o governo venezuelano mantenha seu planejamento estratégico.

Ademais, a mudança com relação à Colômbia está sendo gerada pelas necessidades econômicas imediatas dos dois países, algo que pode ser suplantado, e as questões políticas estão no patamar das intenções, uma vez não foram esclarecidos os meios para concretizar questões como a vigilância comum das fronteiras; a identificação dos grupos ilegais (já que há divergências conceituais sobre questões pontuais de guerrilha, terrorismo e narcotráfico) e  há contradições em relação aos modelos politicos, econômicos e fundamentos ideológicos dos dois governos.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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