LOADING

Type to search

MAIS REFLEXOS DA “REVOLUÇÃO DE JASMIM”: EGITO EM TRANSIÇÃO E AGORA SE INICIA O PROCESSO NO YEMEN E NA ARGÉLIA

Share

A denominada “Revolução de Jasmim”, revolta popular ocorrida na Tunísia, que resultou na queda do presidente “Zine El Abdine Ben Ali”, no dia 14 de janeiro de 2011, fez emergir os sentimentos comuns às sociedades das nações árabes contra os regimes políticos que dominam os países na região do norte da África e do Oriente Médio.

 

As reivindicações populares que emergem apresentam características parecidas pelas mesmas raízes desses povos, pelas identidades culturais e princípios religiosos, mas, especialmente, por viverem condições de desenvolvimento equivalentes, com pobreza, sofrendo abusos e vivendo a ausência de direitos, já que submetidos a regimes autoritários, apesar de haver várias formas de governo.

Após a renúncia do presidente egípcio Hosni Mubarak, noticiada no dia 11 de fevereiro, foram levantadas quatro questões fundamentais sobre as quais, passados alguns dias do acontecimento, surgiram fatores que permitem reflexões.

As perguntas, apresentadas na “Análise de Conjuntura” postada no “Site do CEIRI” na sexta-feira passada são: “(1) como o país se organizará neste momento transitório; (2) como será a participação e o apoio dado pelas grandes potências a este processo para não permitir a ascensão de grupos opositores que sejam anti-ocidentais, principalmente neste momento em que Mahmoud Ahmadinejad, Presidente do Irã, está usando o acontecimento como propaganda política para tentar tornar a revolta popular numa revolução islâmica e estimular que assuma esta característica, enquanto se espalha pelo Oriente Médio; (3) qual regime surgirá após as eleições e (4) qual a razão da insistência de Mubarak em permanecer no poder, já que ele supostamente o entregaria em setembro. Entendendo suas razões, tornam-se transparentes as articulações que há nos grupos que estavam e em menor medida ainda participam do poder e isto poderá apresentar à comunidade internacional as dificuldades que serão impostas para as transformações mais essenciais, podendo também levar a nova situação de revolta popular”.

As respostas para tais questões são difíceis, pois o processo continua em ebulição e o mais importante é entendê-las, pois os reflexos do acontecimento na Tunísia, que teve como desdobramento e fator de estímulo esta revolta popular no Egito, vem confirmando as expectativas dos analistas de estar ocorrendo um “efeito dominó” na região. Apesar de o processo transitório egípcio ainda estar nebuloso, alguns fatos se apresentam, indicando rumos.

O poder foi entregue às “Forças Armadas” do país que detém penetração na sociedade, na economia e influência nas instituições políticas pela forma como as instituições militares se estruturaram desde a formação do Egito contemporâneo, no século XX.

As relações entre militares e sociedade são respeitosas, mesmo porque, no Egito, como em vários outros Estados da região, foram estas instituições as carreadoras da modernização do país, apesar de não terem levado ao desenvolvimento social em quase todos eles. Além disso, os militares egípcios têm boas relações com norte-americanos e europeus, tendo sido muitos deles formados em escolas dos EUA e feito estágios em países da Europa.

As  FF.AA. detém capacidade de garantir um processo equilibrado, pois tornaram-se nos últimos momentos não apenas o fiel da balança, mas também o repositório das esperanças das grandes potências ocidentais de que a substituição do regime possa se dar sem riscos de ascensão de outro mais autoritário que o de Mubarak, ou fundamentalista e sem controle, ou francamente anti-ocidental.

Nesta direção, elas se apresenta como essenciais por ser a Instituição militar aquela que pode fazer frente ao outro segmento que também detém ampla penetração na sociedade egípcia: a “Irmandade Muçulmana”.

Esta última, apesar de ser proibida, recebeu tolerância em alguns momentos para os seus membros, pois suas ramificações perpassam toda a sociedade e em suas linhas programáticas está o investimento em políticas reformistas, não nas revolucionárias, mesmo que pregue alguns princípios intolerantes e tenha dado origem a grupos radicais que investiram no caminho armado, como o “Hamas”.

Além desses aspectos, as “Forças Armadas” da região têm diante de si o modelo turco, onde os militares assumiram o papel modernizador da sua sociedade, num trabalho feito especialmente pelo Exército. O líder fundador da “República da Turquia”, o militar Mustafá Kemal (também conhecido como Atatürk – Pai dos Turcos, o primeiro presidente da República, com mandato de 1923 a 1938) modernizou a Turquia usando exatamente as “Forças Armadas” como instrumento.

Ela se tornou um modelo de país islâmico; mais modernizado; próximo do Ocidente; que investiu na educação; que respeita, ou ao menos tolera certos valores da civilização ocidental e ainda tem nas suas “Forças Armadas” um dos pilares da sociedade.

Os acontecimentos no Egito estão levando algumas potências européias e os EUA a olhar para este modelo turco e a solicitar que as FF.AA. egípcias se espelhem nele e coordenem a transição do regime em direção a outro que, se não for uma Democracia ao estilo desejado, ao menos não se tornará um fator de instabilidade do sistema internacional.

Um indício de que isso é possível, veio imediatamente após assumirem o poder, quando o porta-voz das “Forças Armadas” do Egito anunciou que o serão respeitados os Tratados e Acordos internacionais, trazendo certo alívio à Europa, EUA e, principalmente, a Israel.

Analistas acreditam que, diante da situação, os Estados ocidentais não poderão mais tratar da questão de destinar recursos para países na região sem cuidar das formas como serão alocados os montantes destinados, ou direcioná-los apenas para os setores de Defesa, pois, se assim o fizerem, estarão mantendo as condições para novas revoltas, já que quaisquer investimentos feitos não produzirão desenvolvimento social.

Para o Ocidente, este é um risco que não se pode correr, pois ele colocaria as sociedades árabes e do Oriente Médio nas mãos dos fundamentalistas islâmicos, ou pelo menos nas mãos de grupos anti-ocidentais, especialmente anti-norte-americanos, uma vez que pesquisas realizadas revelam que as acusações aos EUA por terem apoiado regimes como os de Mubarak são constantes na região, chegando este país a receber rejeição superior a 80% em alguns lugares.

Sendo assim, ao que tudo indica, o processo transitório será feito pelo Exército egípcio, Força Armada mais influente, com apoio do Ocidente, que pedirá a criação de processos para que nas eleições de setembro não seja possível um retrocesso, ou ascensão de um líder fundamentalista. Os elementos desta construção ainda são nebulosos.

Mohamed ElBaradei, por exemplo, inicialmente aparecia como a figura de transição por excelência, devido à sua proximidade com o mundo ocidental, mas as grandes potências começam a suspeitar de que ele esteja sendo usado pela “Irmandade Muçulmana” para garantir a passagem do poder para ela em etapas.

Os líderes deste grupo anunciaram que depositam em ElBaradei sua confiança para dirigir o Egito, ficando uma lacuna sobre quem e quais valores ele acabará defendendo, ou para qual grupo abrirá as portas, já que ele se apresentou como um “outsider”, algo que, por si, sempre traz os riscos de se ver nascer uma autocracia, seja pela intenção própria da personagem, seja pela sua incapacidade de controlar as forças que lhes garantiram a ascensão.

Observadores não acreditam que surgirá no Egito uma Democracia após as eleições de setembro, admitindo-se que ela ocorra, mas apenas que haverá uma acomodação e o possível renascimento de certos estímulos à sociedade civil, que passará a se articular para ver suas reivindicações serem acatadas paulatinamente.

Será um passo, mas faltará muito para que um regime democrático se instaure no país. É Possível que haja a tolerância ocidental para certos aspectos antidemocráticos, já que a simples liberdade eleitoral não é condição suficiente para a Democracia, mas apenas uma condição necessária, que, se for aplicada sem estruturação prévia e sem garantias de controle da sociedade sobre o grupo que ascender ao poder, inevitavelmente acabará sendo revertida contra si.

Esta é a armadilha que EUA e europeus temem que o Egito caia. Por isso, a conclusão a que estão chegando é de que, nas eleições de setembro, não se estará instaurando a Democracia no Egito como corolário de uma revolução democrática, mas abrindo portas para a emergência de grupos sociais que podem fazer surgir as instituições democráticas.

As dificuldades de prever o que pode nascer decorre ainda do entrelaçamento existente entre aqueles que estão sendo afastados, as instituições políticas e sociais, as “Forças Aramadas” e demais grupos que neste momento se apresentam como manifestantes rebeldes no país.

Parte dos analistas tem apontado que foram grandes os desperdícios feitos por Mubarak durante o período que esteve no poder, além das acusações de corrupção, chegando a ser disseminado na mídia que a fortuna do Ex-Presidente chega a 40, ou 60 bilhões de dólares (há várias fontes e vários informações). Numa situação como esta, dificilmente não existe uma rede que também esteja entrelaçada em todos os setores sociais.

Ao longo do processo transitório, será possível verificar se a estabilização do país ocorrerá, mas à medida que forem identificadas as personagens e grupos que estão entrelaçados nesta rede e em que grau participam da transição, ocuparão cargos, ou assumirão funções políticas no Egito.

Não se pode esquecer que um dos geradores dos ventos que sopraram da “Revolução de Jasmim” na Tunísia foi a o cansaço do povo em relação à corrupção de suas instituições, corporificado no ato de Mohamed Bouazizi, que resolveu mostrar sua indignação com a impossibilidade de confrontar policiais e fiscais corruptos, cometendo suicídio.

Agora, visto que a onda de indignação contra os regimes que imperam na região fez efeito no Egito, nos países circunvizinhos o povo também está se levantando, reivindicando as mesmas mudanças.

Argélia e Yemem apresentaram-se neste último fim de semana como as bolas da vez, mas a Líbia, a Jordânia, o Bahrein também estão vivendo a emergência de suas revoltas populares que podem levar a resultados parecidos, uma vez que reivindicam as mesmas transformações.

Este é apenas o início de um processo entre as “Nações Árabes” e no “Oriente Médio” cuja emergência vem amadurecendo faz alguns anos e há indícios de que a qualquer momento poderá mudar os rumos do século XXI.

Tags:
Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.