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VISITA DE HILLARY AO BRASIL PRODUZ POUCOS RESULTADOS E MOSTRA AS DIVERGÊNCIAS ENTRE OS DOIS GOVERNOS

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A visita da Secretária de Estado dos EUA feita ao Brasil, ontem, dia 3 de março, se encerrou com o encontro em São Paulo ocorrido na Universidade Zumbi dos Palmares. A avaliação geral feita por parte significativa dos analistas políticos é de que o encontro e reuniões não produziram muitos resultados significativos.

De concreto, apenas foram reforçadas as divergências entre os dois governos, em especial sobre a questão iraniana, sobre a forma de se posicionar perante a Venezuela, sobre a questão hondurenha, apesar de ter se acenado para negociações no problema do contencioso comercial que há entre os dois países.

 

Com relação ao Irã, a solicitação dos norte-americanos foi explícita. Hillary pediu que o Brasil apoiasse os EUA na aplicação de sanções econômicas contra os iranianos. Os representantes brasileiros defenderam o uso pacífico da energia nuclear e declararam que não podem acatar esta solicitação sem dados precisos, usando apenas especulações. De forma direta, foi afirmado que os países têm o direito ao uso da energia nuclear para fins pacíficos, tanto o Irã como o Brasil.

Por isso, o uso de sanções só seria justificado no caso de apresentar provas de um projeto militar e apresentou como ilustração do que falava o caso da Guerra do Iraque, quando se afirmou que havia armamentos químicos e bacteriológicos no país, mas nada foi comprovado. Foi à forma diplomática de mostrar aos EUA que não se deseja cooperar com as suas solicitações.

A Venezuela foi outro tema tenso. A Secretária estadunidense afirmou que ações como as de Hugo Chávez são contraproducentes para a região e para o próprio país, acrescentado que o presidente venezuelano deveria olhar mais para o sul, espelhando-se em exemplos como o do Brasil e do Chile, tidos como modelos a serem seguidos.

O ministro brasileiro, Celso Amorin, usou de sua verve diplomática para marcar o afastamento de ambos os governos sem produzir constrangimentos e adotou o argumento de Hillary de que Chávez deveria olhar mais para o sul, mas dando-lhe outro sentido.

Enquanto a norte-americana quis dizer que o modelo socialista de Chávez levaria ao fracasso, por isso deveria olhar para os modelos do sul, Amorin uso a mesma frase para dar o sentido de que Chávez deve continuar olhando mais para o sul, significando que deve continuar a adotar a política externa de alinhamento sul-sul, ou seja, afastamento dos norte-americanos.

Além disso, aproveitou o momento para defender a postura do governo brasileiro de defesa da inclusão do Estado venezuelano no Bloco do MERCOSUL. No limite, este foi o momento que estabeleceu a maior diferença de posicionamento, perspectiva e princípios durante o encontro.

Mesmo a questão do contencioso comercial entre os dois países, que podem levar o Brasil a aplicar sanções contra os norte-americanos em um valor 546 milhões de dólares, de acordo com o divulgado, ainda está em fase de negociação, podendo os EUA apresentar uma proposta para evitar que o problema se desdobre em disputas maiores.

Hillary acenou que o cenário de uma nova negociação é o mais provável, pois ainda há trinta dias para se chegar à aplicação das sanções e já estão sendo encaminhados técnicos ao Brasil para buscar uma solução adequada ao imbróglio.

No encontro realizado com o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, este buscou tratar mais dos pontos em comum. Afirmou que vai trabalhar pelo sucesso da próxima reunião de cúpula sobre o clima, a se realizar na cidade do México e intitulada COP-16, e desconversou sobre os pontos polêmicos. Ficou acertado que ambos os países assinarão Acordos de parceria para a cooperação internacional, em especial na liderança compartilhada para a reconstrução do Haiti.

Como resultado final, a visita de Hillary serviu como uma prospecção. Veio para observar; para afirmar os pontos essenciais aos EUA e analisar as respostas das autoridades brasileiras, com o intuito de montar um mapa estratégico. Também veio para mostrar que deseja negociar divergências, algo que produziu resultado neste ponto, embora a negociação vá se desenvolver ao longo do ano.

No entanto, o principal objetivo parece ter sido dar avisos e preparar o terreno para a vinda de Barack Obama, quando será possível firmar posições mais concretas, as quais podem não ser amenas ao Brasil, caso seu governo adote postura ideológica.

Embora à diversificação das parcerias internacionais e a ampliação da carteira comercial dê aos brasileiros maior autonomia e relevo no cenário mundial, os EUA ainda são o maior parceiro econômico Brasil.

As alternativas não são tão amplas, pois a China, que se espera tornar-se a garantia para substituir os norte-americanos e ocupa o segundo lugar nas relações comerciais brasileiras, vende produtos manufaturados, enquanto compra commodities do Brasil. Os analistas são unânimes ao afirmar que investir neste cenário seria um risco para a indústria brasileira.

Além disso, as pretensões brasileiras no cenário mundial, dentre elas a de conseguir uma cadeira como membro permanente no “Conselho de Segurança da ONU”, depende de dois fatores: (1) a boa vontade dos grandes que o compõem (no momento, apenas a França apresenta-se com este comportamento) e (2) uma conjuntura internacional favorável, algo que pode não acontecer se as apostas feitas até agora pela política externa brasileira se mostrarem erradas, já que explosivas, devido às posturas adotadas por Irã e Venezuela.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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