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De um lado, a racionalidade. A decisão baseada em evidências. Na agenda do desenvolvimento internacional, acordada na Declaração de Paris e na Agenda de Ação de Accra, isto se reflete também na efetividade da ajuda externa baseada em resultados e evidências. Não à toa, há um fervor na comunidade acadêmica por casos de sucesso legitimados por avaliações de impacto, tanto como forma de prestação de contas de recursos públicos e privados, como, também, fonte de conhecimento sobre o que funciona, o que não funciona e como funciona. Essas decisões impactam diretamente na promoção da Agenda 2030, principalmente devido à complexa teia de 17 objetivos, 169 metas e 230 indicadores, dos quais apenas 25% são publicamente acessíveis.

Do outro lado, a emoção. A decisão baseada em instintos. Não importa se há dados disponíveis publicamente. O motor do argumento é a crença, mas não aquela religiosa. Para o Oxford Dictionary, post-truth (pós-verdade) é a palavra de 2016 e significa: “o relato ou a indicação de circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes em moldar a opinião pública do que os apelos à emoção e às crenças pessoais”.

Nessa lista, destacam-se as mentiras contadas durante a campanha presidencial nos Estados Unidos, quando o republicano Trump afirmou que Barack Obama era muçulmano, que o papa Francisco apoiava sua candidatura e que Hillary Clinton criou o Estado Islâmico. Ainda no cenário internacional, o pós-verdade também afetou diretamente o Brexit e a vitória do não no referendo colombiano sobre o Acordo de Paz com as FARC. No plano doméstico, um levantamento organizado pela Associação dos Especialistas em Políticas Públicas de São Paulo (AEPPSP) identificou, através do monitoramento de informações e compartilhamento de notícias em redes sociais, uma lista de blogs e sites genéricos de notícias que propagavam notícias falsas.

O conflito entre essas duras arenas, quase antagônicas, mina todo e qualquer esforço recente de legitimar as políticas de desenvolvimento. Em outras palavras, mesmo com uma autoridade internacionalmente reconhecida, como a Organização Meteorológica Mundial das Nações Unidas (OMM), afirmando que 2016 foi um ano extremo para o clima global, Donald Trump já afirmara que o aquecimento global não passa de um fenômeno natural, pondo em cheque todas as tentativas de garantir o comprometimento dos líderes de Estado com o clima e com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Ainda no plano internacional, o programa Rede de Proteção Social na Nicarágua alcançou efeitos positivos e reconhecimento internacional na educação e na saúde de crianças, mas sofreu com a falta de compreensão no nível doméstico, levando à rápida extinção do programa. Apesar da inexistência da expressão na época, o programa sofreu inúmeros golpes através de comentários e declarações falsas, a citar, o caráter assistencialista do programa, a redução da força de trabalho disponível, a utilização do dinheiro para o consumo de álcool. Considerando a importância de políticas de proteção social para diminuir a pobreza, erradicar a fome e reduzir as desigualdades – três itens da Agenda 2030 – a indução de mentiras, mesmo em casos de sucesso, poderá se agravar durante a implementação dos ODS.

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Imagem 1Ícones dos Objetivos Globais” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File%3ATGG_Icon_Color_18.png

Imagem 2Donald Trump e Hillary Clinton no início do terceiro debate presidencial em 2016” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File%3AStart_of_Third_Debate_2016.png

Imagem 3Bandeira da Organização Meteorológica Mundial (OMM)” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Organização_Meteorológica_Mundial

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João Antônio dos Santos Lima - Colaborador Voluntário

Mestre em Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco e graduado em Relações Internacionais na Universidade Estadual da Paraíba. Tem experiência como Pesquisador no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) no projeto da Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento Internacional (Cobradi). Foi representante brasileiro no Capacity-Building Programme on Learning South-South Cooperation oferecido pelo think-tank Research and Information System for Developing Countries (RIS), na Índia; digital advocate no World Humanitarian Summit; e voluntário online do Programa de Voluntariado das Nações Unidas (UNV) no projeto "Desarrollar contenido de opinión en redes sociales sobre los ODS". Atualmente, mestrando em Development Evaluation and Management na Universidade da Antuérpia (Bélgica) e Embaixador Online do UNV na Plataforma socialprotection.org.

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