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Por um fio: evacuações humanitárias e o cessar-fogo sírio

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Há cerca de duas semanas, o Enviado Especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, declarou que o cessar-fogo no país havia permitido que ajuda humanitária chegasse a cerca de 560.000 civis em áreas sitiadas ou de difícil acesso, no que ele chamou de um “progresso modesto, mas concreto” na situação humanitária da crise síria.

O Enviado da ONU também declarou que, no último dia 20 de abril, 515 pessoas haviam sido evacuadas, por razões médicas, das cidades de Zabadani, Madaya, Kefraya e Foah. Jan Egeland, Chefe da Força-Tarefa Humanitária da ONU para a Síria, afirmou que se trata da “maior evacuação de áreas sitiadas na Síria” jamais feita, e que foi realizada pelo Crescente Vermelho sírio, em cooperação com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha e a ONU (As cidades de Zabadani, Foah e Kefraya foram evacuadas também em dezembro de 2015, como observado em Nota Analítica passada).

No entanto, tal sucesso humanitário permanece “modesto”. Em parte, em função de restrições ao envio de determinados medicamentos. De Mistura explicou que o Ministério da Saúde sírio não havia permitido o envio de itens como equipamento de diálise e kits médicos básicos, além de vitaminas, antibióticos, analgésicos e itens cirúrgicos.

Ademais, como destacou a especialista J. Dana Stuster, escrevendo à Foreign Policy, as evacuações humanitárias foram realizadas, ao passo que o cessar-fogo que reduziu a violência na Síria nos últimos dois meses erode ainda mais. Como explica Stuster, já em  20 de abril a Rússia havia começado a mover unidades de artilharia para áreas ao norte da Síria, onde Forças do Governo também começavam a se concentrar e a aumentar o número de seus ataques aéreos no país, enquanto os Estados Unidos advertiam os russos de que estavam preparados para fornecer armas antiartilharia e antiaéreas, caso o cessar-fogo desmoronasse completamente.

Infelizmente, no último dia 27, o conflito parece ter escalonado em Aleppo, como relata Stuster à Foreign Policy, e hospital operado pela Médicos Sem Fronteiras foi destruído, causando a morte de 14 pacientes e três médicos. Além disso, o Syrian Observatory for Human Rights documentou 202 mortes civis em Aleppo, entre 22 e 28 de abril, incluindo 123 mortes causadas por ataques aéreos.

Face a tal intensificação do conflito, o cessar-fogo parece já ter desmoronado. No próprio dia 27 de abril, o Enviado da ONU para a Síria destacou que a última rodada das conversas de paz, de 13 a 27 de abril, foi ofuscada por uma “deterioração substancial” do cessar-fogo, e urgiu que atores envolvidos, especialmente Rússia e Estados Unidos, procurem resgatar o Acordo. De Mistura insistiu que o cessar-fogo não desmoronou completamente, pois ainda prevalece em certas áreas – mas reconheceu que pode ruir a qualquer momento.

Após reportar ao Conselho de Segurança, o Enviado Especial afirmou que espera retomar as negociações de paz em algum momento em maio, mas deixou claro que potências globais precisam reavivar o cessar-fogo.

O atual esforço para dar um fim ao conflito sírio foi largamente liderado pelo Secretário de Estado americano, John Kerry, e pelo Ministro das Relações Exteriores russo, Sergey Lavrov, mas contou com o apoio de potências regionais e internacionais, as quais formaram o International Syria Support Group, incluindo 17 países, a ONU, a União Europeia e a Liga de Estados Árabes.

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ImagemEm Madaya, membros da comunidade local ajudam a descarregar e distribuir suprimentos de ajuda humanitária” (Fonte):

http://www.un.org/apps/news/story.asp?NewsID=53745#.VyML8zB96hf

Ricardo Fal Dutra Santos - Colaborador Voluntário

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.

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