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As descobertas de abundantes recursos vivos e não vivos no “Atlântico Sul” conferiu à região relevante importância estratégica no atual cenário internacional. O “Atlântico Sul” banha, no lado da costa sul-americana, o Brasil, a Argentina e o Uruguai, e, do lado da costa africana, cerca de 20 países. Essa região, sobretudo após os anos 2000, passou a despertar o interesse das potências estrangeiras que compõem a “Organização do Tratado do Atlântico Norte” (OTAN), mais particularmente dos “Estados Unidos da América” (EUA). Assim, “as duas margens do Atlântico Sul têm sido alvo de intensa procura de energia, minérios e produtos alimentares, o que sublinha sua relevância geoeconômica. As reservas do Golfo da Guiné e de Angola e as jazidas de petróleo e de gás no offshore do Brasil representam um contrapeso aos centros tradicionais de poder no sistema energético internacional[1]. Adicionalmente, com o surgimento dos grandes cargueiros de petróleos, as tradicionais “Linhas de Comunicação Marítima” (SLOC’s, sigla em inglês)dos oceanos abertos, nesse caso o “Atlântico Sul”, voltaram a ganhar relevância na pauta sobre investimentos e segurança, tanto dos países regionais, quanto externos.

No presente, do ponto de vista econômico, a importância do “Atlântico Sul” deriva de sua principal característica como rota comercial. Além disso, este é essencial para o comércio dos países costeiros. Nesse caso, vale frisar o protagonismo crescente dos países da costa africana no que tange o mercado de hidrocarbonetos. Atualmente, os “Estados Unidos”compram 15% de seu combustível dos países do oeste africano e estima-se que tais compras aumentem em aproximadamente 25% até 2015[2]. Desses países, destacam-se a Nigéria e a Angola como primeiro e segundo produtores continentais de petróleo, respectivamente, que possuem os maiores campos de gás natural[3].

Num passado recente, ainda no contexto da “Guerra Fria”, o “Atlântico Sul” não ocupava um papel de destaque no cenário internacional, entretanto servia como rota do comércio de hidrocarbonetos. Sendo assim, as “Linhas de Comunicação Marítima”da região eram controladas pelas potências ocidentais. Desse modo, em termos históricos, os países do “Atlântico Sul” veem com ressalvas a expansão da influência dos “Estados Unidos” sobre a região, bem como da própria OTAN.

Desde o fim da “Segunda Guerra Mundial”, essas potências tentaram, por meio de acordos, expandir seu área de influência, contudo, ao longo do tempo, os países costeiros perceberam que a maioria desses acordos não se mostravam tão benéficos no seu desenvolvimento. Como exemplo, pode-se citar o “Tratado Interamericano de Assistência Recíproca” (TIAR), estabelecido em 1947 entre os países da “América do Sul” e os “Estados Unidos”. O TIAR visava apenas “Acordos Bilaterais”, ou seja, entre os “Estados Unidos” e algum país sul-americano, mas não tinha a intenção de criar um sistema integrado de defesa e a sua melhoria conjunta.

Além disso, os países costeiros apontavam que a “United States Southern Command”(UNITAS),que operacionalizava uma série de manobras navais não contemplavam os seus parceiros com suficiente assistência naval o que os levavam a crer que havia interesse deliberado dos EUA em manter suas marinhas num nível permanentemente secundário. Por estes motivos é que as manobras da UNITAS foram apenas simbólicas, ou seja, apenas uma demonstração de força do poder naval norte-americano, sem correspondência de fato com forças navais expressivas por parte dos países da região[4].

Outros exemplos são o “Acordo de Simonstown”, firmado entre “África do Sul” e a “Grã-Bretanha” no período de 1955 a 1975, e a tentativa da criação de uma “Organização do Tratado do Atlântico Sul” (OTAS) na década de 1980, articulada pela “Argentina” e “África do Sul” e fortemente apoiada pelos “Estados Unidos”. A criação de uma Organização nos moldes da OTAN era amplamente rejeitada pelo Brasil, Nigéria e demais países da região que temiam uma militarização da área.  Logo, o olhar mais receoso dos países do “Atlântico Sul”, com relação à atuação dos “Estados Unidos”e da própria OTAN, deve-se ao percurso histórico dessas relações, que não se mostrou tão frutífera aos países costeiros.

Com o fim da “Guerra Fria” e o “Pós – 11 de Setembro 2001”, dois eventos evidenciam a crescente presença norte-americana na região. O primeiro refere-se à redefinição da área de atuação da OTAN e o novo conceito estratégico da Organização divulgado em 2009. O fim da “Guerra Fria” estabeleceu um novo papel para a OTAN, no qual essa poderia vir a intervir em todas as regiões do mundo, sob as mais distintas finalidades, desde ações antiterroristas, contenção de ameaças à democracia, além de atividades humanitárias. Assim, para Daniel Fried,então“Sub-secretário de Estado dos EUA para Assuntos Europeus e Euro-Asiáticos”,a OTAN tem-se transformado desde a Guerra Fria e a posterior consolidação regional dos anos 90 numa instituição transatlântica com missões globais, alcance global e parceiros globais. Esta transformação é mais evidente no Afeganistão onde a OTAN opera, mas a linha que atravessamos torna efetivamente ultrapassado a discussão ‘área interna/área externa’ que tanto tempo consumiu nos anos 90. […] A OTAN está num processo de desenvolvimento de capacidades e de horizontes políticos para lidar com problemas e contingências em todo o mundo[5]. Em 2010, Nelson Jobim, o “Ex-Ministro da Defesa do Brasil”, mostrou-se claramente contrário à tese de atlantização da OTAN[6].

O segundo, diz respeito à reativação da “Quarta Frota”, em 2008, que opera particularmente na região da “América Central” e Caribe sob a coordenação do “Southern Comand”. Segundo alguns analistas, a reativação da “Quarta Frota” representa um direcionamento do Pentágono para fortalecer seus sistemas de segurança e defesa no “Atlântico Sul”, com seus olhos dirigidos principalmente para a “África Ocidental e Meridional”, fator esse que também teria justificado a criação da “U.S. Africa Command” (AFRICOM)[7]. Apesar do quartel do AFRICOM estar instalado na cidade alemã de Stuttgart, os EUA juntamente com as forças navais europeias buscaram intensificar nos últimos anos a presença de suas Marinhas[8].

No presente, os “Estados Unidos” possuem bases no Caribe, “Atlântico Norte”, continente americano e ainda contam com as bases militares dos países da OTAN localizadas no “Atlântico Sul” e na “Costa Ocidental Africana[9]. Compete ressalvar que outros países como Inglaterra e França ainda possuem territórios sul-atlânticos que consistem em pontos estratégicos para possíveis operações militares[10].

Assim, a ilha britânica da Ascensão, que foi uma das mais importantes para as atividades e manobras do AFRICOM, sobretudo para as operações militares na região do “Golfo da Guiné[11]. Vale lembrar que o “Golfo da Guiné” é a principal rota de escoamento do petróleo produzido na Nigéria e em outros países da região, e, portanto, tem sido foco de diversos exercícios militares, sobretudo após o aumento da pirataria marítima na área. O que, por sua vez, justificou o aumento das marinhas envolvidas de 9 para 22, coordenadas pela “U.S. Navy[12].

O controle desses pontos estratégicos no “Atlântico Sul” e o aumento das atividades das operações do AFRICOM, da“Quarta Frota” e a ampliação do radar da OTAN, evidenciam a crescente presença norte-americana na região. Ao mesmo tempo, servem de alerta as projeções do Brasil sob o “Atlântico Sul”. Por fim, compete ressaltar ainda que nos últimos anos, alguns países como México, Chile e Colômbia mostraram grande interesse em estabelecer vínculos com a OTAN, ideia que é fortemente rejeitada pelo “Ministério de Defesa do Brasil[13].

De acordo com analistas, a “Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul”(ZOOPACAS),apesar de suas limitações, apresenta-se nesse sentido como um importante Fórum para debate desses países quanto à presença estrangeira e ainda para a cooperação comercial e securitária entre os membros, podendo ser uma alternativa interessante para equilibrar o peso da influência dos “Estados Unidos” e da OTAN.

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Imagem (Fonte):

http://geopoliticadopetroleo.wordpress.com/tag/atlantico-sul/

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.defesa.pt/Documents/20130405_CM_CEDN.pdf

[2] Ver:

http://www.usnwc.edu/getattachment/72712d53-8ef1-4784-925b-93c765c94e89/Perspectivas-sobre-Estrategia-Maritima-(1)

[3] Ver:

[4] Ver:

COUTAU-BEGARIE,Hervé: Geoestratégie de L’Atlantique Sud. Paris: PUF, 1985. Pg121.

[5] Ver:

http://www.globalresearch.ca/a-globaliza-o-do-poder-militar-a-expans-o-da-otan/10357

[6] Ver:

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,brasil-rejeita-acao-da-otan-no-atlantico-sul,627832,0.htm

[7] Ver:

http://www.revistas.usp.br/revusp/article/viewFile/52234/56270

[8] Ver:

http://www.defesanet.com.br/africa/noticia/15127/OTAN-%E2%80%98invade%E2%80%99-Atlantico-Sul-pela-Africa-/

[9] Ver:

http://www.ie.ufrj.br/images/pos-graducao/ppge/Dissertao_Fernanda_Pacheco_de_C._Brozoski.pdf

[10] Ver:

http://www.ie.ufrj.br/images/pos-graducao/ppge/Dissertao_Fernanda_Pacheco_de_C._Brozoski.pdf

[11] Ver:

http://www.revistamilitar.pt/artigo.php?art_id=557

[12] Ver:

http://www.defesanet.com.br/africa/noticia/15127/OTAN-%E2%80%98invade%E2%80%99-Atlantico-Sul-pela-Africa-/

[13] Ver:

Jessika Tessaro - Colaboradora Voluntária Júnior

Pós-graduanda do curso de Especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É Graduanda do Curso de Políticas Públicas da UFRGS e bacharel em Relações Internacionais pela Faculdade América Latina Educacional. No presente, desenvolve estudos sobre a geopolítica e a securitização dos Estreitos internacionais e Oceanos.

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