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Prisão de Príncipes Sauditas muda cenário no Oriente Médio

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No último domingo, 5 de novembro, o Governo da Arábia Saudita noticiou a prisão de onze Príncipes que ocupavam alguns dos cargos mais proeminentes do país, os quais teriam incorrido em corrupção em seus respectivos cargos públicos. Além deles, dezenas de outras eminentes figuras sauditas também foram detidas pelo mesmo motivo, incluindo antigos e atuais Ministros de Estado.

É importante notar que as mencionadas prisões se deram somente algumas horas após o Chefe de Polícia saudita ter sido destituído do cargo – o que permite acreditar que a força policial, de alguma forma, teria deixado de atuar, em desfavor de alguns dos detidos. Entretanto, a situação no Estado Saudita ainda é nebulosa, já que há discordância entre veículos de mídia internacionais ao noticiar o motivo das prisões.

Ministro da Defesa saudita e Secretário de Defesa norte-americano no Pentágono, em 2015

Assim, enquanto que alguns órgãos noticiaram que não havia acusações formais, ou processo jurídico que investigasse casos de corrupção envolvendo os mencionados príncipes e ministros – tendo a ordem de prisão sido emanada pelo príncipe Mohammed bin Salman –, outros órgãos mencionam que, ao surgirem provas referentes a antigas investigações a respeito de mau uso de verbas públicas, estabeleceu-se uma comissão anticorrupção na noite de sábado – algumas horas antes do início dos aprisionamentos –, criando-se, assim, embasamento para as detenções em tela.

Esta discrepância entre agências expõe a falta de transparência sobre os assuntos de Estado da Arábia Saudita, cuja Monarquia Absoluta não se atém aos mesmos valores de Estados democráticos. Destarte, o Monarca, ao acumular os poderes judiciário, executivo e legislativo em si próprio, acaba por ter condições legais de determinar prisões como aquelas ora mencionadas. Nesse sentido, ainda que se possa questionar a legitimidade das ordens de prisão, não há o que se falar quanto à legalidade desses atos, em se tratando de incumbência de representantes da Monarquia Saudita.

No campo econômico, podem-se prever problemas para algumas empresas internacionais norte-americanas, como Twitter, Apple e Four Seasons, uma vez que um dos príncipes presos, Alwaleed bin Talal, não só investe em companhias globais, como é um dos responsáveis por atrair corporações desse porte a investirem na Arábia Saudita. O poder econômico deste país, tido como o maior aliado norte-americano no Oriente Médio, certamente será levado em consideração por parte da direção das empresas prejudicadas.

O atual Governo dos Estados Unidos vem deixando claro seus interesses junto aos sauditas, tendo, inclusive, três conselheiros da Casa Branca comparecido a reuniões de alto-escalão naquele país. Tal situação demonstra que o governo Trump deve acompanhar de perto o desenrolar dos fatos no país árabe, em razão das consequências comerciais e econômicas envolvendo ambas as partes.

Já se observam consequências também na área da segurança, cuja cúpula também foi atingida pela onda de prisões de domingo. Nesse mesmo dia, unidades de defesa aérea sauditas interceptaram um míssil direcionado à capital, Riad, proveniente do Iêmen, e que teria sido lançado pela milícia Houthi. Em decorrência disso, o Governo saudita acusou esta milícia de promover uma “perigosa escalada na violência devido ao apoio iraniano”.

Percebe-se, assim, que forças xiitas – apoiadas pelo Irã – prontamente tentaram tirar proveito da momentânea debilidade nas defesas do Estado Saudita, principal força sunita no Oriente Médio, em sua conhecida agenda para se tornar a principal potência regional.

Fica evidente, portanto, que as consequências advindas das alterações no alto escalão do Governo da Arábia Saudita não tardaram para se observar, e podem ser mais graves do que imaginado inicialmente. Além disso, o equilíbrio de forças no Oriente Médio se desequilibra uma vez mais, tornando claro que Arábia Saudita e Irã, maiores representantes do sunismo e do xiismo islâmicos, respectivamente, continuam a se valer da política de empregar terceiros para dar sequência às suas campanhas visando a supremacia militar e econômica regional.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/House_of_Saud#/media/File:Prince_Salman_bin_Abd_al-Aziz_Al_Saud_at_the_Pentagon_April_2012.jpg

Imagem 2 Ministro da Defesa saudita e Secretário de Defesa norteamericano no Pentágono, em 2015” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/House_of_Saud#/media/File:U.S.Defense_Secretary_Ash_Carter_places_his_hand_over_his_heart_as_the_national_anthem_plays_during_an_honor_cordon_to_welcome_Saudi_Defense_Minister_Mohammed_bin_Salman_Al_Saud_to_the_Pentagon,_May_13,_2015_150513-D-NI589-527c.jpg

João Gallegos Fiuza - Colaborador Voluntário

Bacharel em Direito pela Universidade Cruzeiro do Sul. Especialista em Gestão de Políticas Públicas pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em Polícia Comunitária pela Universidade do Sul de Santa Catarina, em Gestão de Ensino a Distância pela Universidade Federal Fluminense, e em Estudos Islâmicos pelo Al Maktoum College of Higher Education (Reino Unido). Mestre em Segurança Internacional pela Universidade de Dundee (Reino Unido). Atualmente, é mestrando em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo. Pesquisa, principalmente, temas relacionados a conflitos no Oriente Médio e Europa, bem como a organizações criminosas transnacionais e terroristas. Professor de Criminalística no Curso de Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública da Academia de Polícia Militar do Barro Branco e Subchefe de Seção de Investigação da Corregedoria da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

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