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Projeto Desenvolvimentista Etíope: “Sacrifícios” se fazem evidentes (História e Política)

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O continente africano desponta como uma das regiões mais vibrantes do mundo em termos de mudanças sociais. Observa-se que indústria e serviços se sobrepõem a antigas formas de produção econômica, como a agricultura nômade; que instituições democráticas dialogam com antigas e tradicionais formas de autoridades; que a sociedade civil e seus ativistas travam constantes lutas contra regimes autoritários. Neste cenário, diversos países apresentam-se como os principais palcos destas verdadeiras revoluções sociais: Angola, Egito, Moçambique, Nigéria, Quênia, Tunísia e, o foco deste artigo, a Etiópia.

Se por um lado tais câmbios despertam o otimismo em muitos, do outro emergem dúvidas sobre o verdadeiro caráter inclusivo da nova conjuntura traçada. Acadêmicos, pesquisadores e ativistas não deixam de elucidar casos empíricos onde pequenos grupos ou minorias étnicas posicionam-se em condições de vulnerabilidade devido aos câmbios ocorridos, como se fossem de fato partes do organismo social que sofrem com os efeitos colaterais do remédio aplicado.

Se pudéssemos definir, em uma só frase, esta situação de vulnerabilidade, ela seria: condições estruturais capazes de diminuir as oportunidades de vida de um determinado grupo de indivíduos.

Ou, conforme afirma o professor Robert Chambers, do Institute of Development Studies, do Reino Unido, “vulnerabilidade não significa a mesma coisa que pobreza. Não significa a falta de algo, mas sim uma situação de insegurança, de exposição a um risco e, acima de tudo, de não poder se defender[1].

A vulnerabilidade aparece, assim, como uma externalidade, isto é, uma consequência em partes não prevista e em partes não trabalhada pelas políticas públicas de desenvolvimento. Entretanto, em que medida parte da população etíope é vulnerável perante a conjuntura política e econômica de seu país e quais as origens deste estado de vulnerabilidade?

Para o alto e avante. Se em um primeiro momento a palavra “modernização” associa-se à ideia de uma revolução nas estruturas sociais, políticas e econômicas, rumo à adoção de práticas seculares, à industrialização e à urbanização, pode-se dizer que, dos países do continente africano, a Etiópia aparece como aquele onde o processo modernizador ocorre em maior intensidade.

A evolução nos principais indicadores socioeconômicos é brutal, principalmente se for utilizado o ano de 1995, data das primeiras eleições gerais, como base comparativa. De lá para cá, a parcela da população com acesso à energia elétrica aumentou de 10% para cerca de 27% e, se 46% da população situava-se abaixo da linha da pobreza, atualmente este indicador baixou para a 30%[2].

O crescimento econômico também desponta como um dos mais expressivos em todo o mundo, o que explica, em grande parte, a acelerada mobilidade vertical na estrutura social etíope: nos últimos dez anos, a média de crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) etíope é de aproximadamente 11% ao ano[2].

Significativa parcela deste crescimento advém da modernização das práticas agrícolas. Segundo dados do Banco Mundial, o valor adicionado pelo setor agrícola, em 2014, correspondia a 42% do PIB, posicionando o setor como o principal da economia etíope[2]. Em partes, a modernização do setor agrícola etíope se deu graças ao Growth and Transformation Plan I (GTP I), concebido pelo Governo juntamente com importantes economistas internacionais.

Ao passo que o GTP I corresponde aos esforços governamentais em modernizar a agricultura e aumentar a sua produtividade, o GTP II aparece como um conjunto de políticas públicas que buscam expandir a atividade industrial e alçar a Etiópia ao posto de economia de nível de renda médio em 2025[3].

Segundo muitos economistas, a Etiópia apresenta condições socioeconômicas vantajosas para o desenvolvimento da indústria: expressivo e crescente mercado consumidor interno – segundo os últimos dados oficiais, a população etíope era de aproximadamente 94 milhões de habitantes[4] –, sistema político parcialmente democrático e uma mão de obra mais qualificada em relação aos seus pares na região.

Em 2013, o Banco Mundial concedeu ao país a nota 4,5 – em uma escala de 0 a 6 – no indicador “CPIA de Recursos Humanos”, o qual mede a qualidade da mão de obra em determinado país. Este valor foi superior à nota obtida por países emergentes na África Subsaariana, como Angola, Gana, Nigéria e Quênia[2].

O atual boom econômico serve como importante motivação aos poucos industriais do país expandirem as suas linhas de produção. Acreditando na sustentação do ritmo de crescimento econômico nos próximos anos, bem como na capacidade de o Governo impor as políticas públicas que prevê ao setor, a formação bruta de capital fixo atingiu, em 2014, expressivo valor de 40% – indicador muito mais alto do que o Brasil, por exemplo, o qual não passa de 20%[2]. Em outras palavras, a formação bruta de capital fixo quantifica o investimento de industriais em bens de capital – máquinas e equipamentos – necessários para a expansão da produção, o que posiciona este indicador como uma medida capaz de levantar a confiança dos empresários na economia do país.

A Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (FDRPE), Partido que governa o país desde 1991, orgulha-se desta conjuntura econômica e social. Boa parte dessas mudanças sociais ocorreram dentro de seu governo, o que credita ao Partido um peso de persuasão expressivo sobre os eleitores. O milagre etíope, por assim dizer, torna-se, de alguma forma, estritamente associável à presença do FDRPE no comando do país.

Não à toa, a aceitação popular do FDRPE é enorme: nas eleições de maio deste ano, 500 das 547 cadeiras do Parlamento Etíope foram conquistadas pelo Partido[5]. No mandato anterior, entre 2010 e maio de 2015, somente uma das cadeiras do Parlamento era ocupada pela Oposição[6].

No entanto, opositores e ativistas de direitos humanos negam a acreditar que as sucessivas vitórias do FDRPE são fruto somente de uma massiva aprovação popular. A perseguição e apreensão de opositores, o controle austero sob a mídia local, bem como possíveis manipulações de resultados nas eleições dos anos 2000 e 2005, aparecem como a principal explicação para tamanha dominação noParlamento[5]. Além disso, não cessam em aparecer na mídia internacional denúncias de abusos políticos, crimes ambientais e contra minorias étnicas e prisão a opositores[5].

Mais do que argumentos vazios ou formulados por aqueles que estão fora do jogo político, tais críticas encontram bases na realidade cotidiana etíope e na estrutura política deste país. E é justamente a compreensão destas estruturas e de seu funcionamento na sociedade etíope que se deve tomar como ponto de partida para entender as origens destas críticas, bem como a sua latência no cotidiano do país.

Rumo ao poder. A democracia, enquanto instituição legalmente garantida, é um fato extremamente recente na Etiópia. As primeiras eleições gerais somente ocorreram em 1995, passados quatro anos de reestruturação política após o fim da “Era Derg”. Porém, entender a razão pela qual a democracia nesse país não assume as mesmas condições de um sistema democrático tipicamente liberal passa por compreender sob qual cenário político e ideológico a FDRPE emergiu em 1991.

Chama-se “Era Derg” o período histórico entre 1974 e 1991, marcado pelo governo do Comitê de Coordenação das Forças Armadas, Polícia e Exército Territorial. Sob o comando do major Mengistu Haile Mariam, o Comitê Derg depôs o então imperador Haile Selassie, em setembro de 1974, encontrando suporte popular no aumento drástico do custo de vida e nas altas taxas de pobreza ao redor do país[7]. Além disso, o Comitê Derg, que se proclamara comunista e adepto à ideologia marxistaleninista como a Ideologia de Estado, recebeu considerável apoio da União Soviética e de outros Estados comunistas.

Significativa parte deste apoio se dava pela venda de armas e equipamentos bélicos, utilizados pelo Comitê Derg ao combate de grupos opositores. Credita-se a Mengistu e ao Comitê o início da Guerra Civil da Etiópia, em 1975. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 250 mil etíopes foram mortos durante a guerra, em um período histórico apelidado como o “Terror Vermelho[7].

O golpe sob o reinado de Haile Selassie em 1974 foi acompanhado pela emergência de diversos partidos políticos, que visavam orientar a atuação política do Comitê. Agremiações como o Partido Revolucionário do Povo Etíope (PRPE) proclamava-se o partido de vanguarda da revolução ocorrida, entrando em conflito com grupos de perspectivas ideológicas distintas, como o Movimento Socialista da Etiópia (MEISON).

Entretanto, a proclamação da República Democrática Popular da Etiópia, em março de 1975, por parte do Comitê Derg, pôs na ilegitimidade qualquer agremiação política diferente daquela que legislava o país. Surgiram, então, perseguições oficiais a indivíduos ou grupos que eram suspeitos de serem opositores ao Regime, iniciando-se uma das guerras civis mais sangrentas da história humana[7].

As forças políticas, no entanto, voltariam a se equilibrar ao final da década de 80: o desmantelamento da União Soviética, principal apoiador ao regime de Mengistu, representou significativo abalo econômico e militar ao governo comunista. A derrotada do regime comunista finalmente foi consumada em maio de 1991, quando o governo não resistiu à invasão da FDRPE à capital Addis Ababa[7]. Mengistu, que em 2006 foi sentenciado pela justiça etíope à prisão, devido aos crimes cometidos contra o seu próprio povo[8], encontra-se até hoje exilado em Harare, no Zimbábue.

Centralismo Democrático. Assim como outros importantes partidos no continente africano, como a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), a FDRPE encontra as suas origens em movimentos sociais armados da segunda metade do século XX. Assim como os partidos mencionados, a FDRPE proclama-se um Partido de Vanguarda, uma vez que nasceu dentro da tradição política marxista-leninista[9]. Em outras palavras, traz para si o papel de liderar uma verdadeira revolução social a partir de um cenário ético-político utópico capaz de guiar as práticas partidárias.

Imerso, assim, na tradição marxista-leninista partidária, a FDRPE emerge no cenário político em 1991 com a proposta de levar a cabo uma Revolução Democrática, como diz a própria denominação do Partido: mais do que uma simples associação de conceitos liberais com marxistas, a proposta aparece como discurso legitimador em um cenário político no início da década de 90 nada favorável a outra agremiação comunista aos moldes ortodoxos. O projeto democrático do FDRPE se fez visível com a proclamação da constituição nacional em 1994, e com as eleições gerais de 1995, 2000, 2005, 2010 e 2015.

Seguindo a crítica leninista sob a democracia liberal, o centralismo democrático é definido como a situação onde exista “a liberdade de discussão, em coexistência como a unidade de ação[9]. Em outras palavras, dentro do próprio Partido existe a possibilidade de emergirem diferentes frentes de discussão e debate sobre determinado tema. No entanto, uma vez deliberado o assunto, não são mais permitidas a sustentação de pontos de vista divergentes, cabendo ao Partido como um todo adotar a posição escolhida.

O centralismo democrático FDRPEniano opera de maneira similar ao Partido Comunista Chinês: como este, são somente as posições oficiais as únicas válidas, sendo que críticas às deliberações oficiais são duramente combatidas e desmanteladas, uma vez que geram desfuncionalidades ao modus operandi do partido.

Não à toa, assim como a China, o Governo Etíope é alvo de severas críticas por parte de ativistas e da mídia internacional por restringir o espaço para o debate de ideias. Isto porque observa-se que no centralismo democrático a esfera pública (local propício à livre argumentação e debate em torno dos principais fatos cotidianos, sendo as deliberações feitas neste espaço capaz de reorganizarem o conjunto de regras que rege determinada sociedade) esmorece perante a magnitude que a esfera sistêmica e governamental assume.

Mais do que nada, o centralismo democrático é uma prática válida em si mesma. Aparece como uma maneira de governar que traz consigo uma síntese entre instituições tipicamente liberais e ideologias do antigo bloco soviético – uma síntese que não deixa de ser resultado do processo de formação histórica da sociedade etíope contemporânea.

O bom filho à casa torna. Trajado com um fino paletó e gravata azul petróleo, Hailemariam Desalegn senta-se em seu gabinete diante de uma repórter da emissora internacional Al Jazeera[10]. A ocasião marca mais um encontro entre o PrimeiroMinistroetíope e emissoras internacionais. As perguntas, em sua ampla maioria, recaem sob a questão da liberdade de imprensa e de expressão na Etiópia. Sem hesitar ou mesmo titubear perante os questionamentos mais sensíveis, Desalegn mantem a serenidade e a frieza de suas respostas, inclusive nos momentos mais tensos dessa entrevista de aproximadamente meia hora.

Essa personalidade fria, pragmática e calculista demonstra claramente que Desalegn é o homem correto para liderar o FDRPE em suas aspirações desenvolvimentistas, bem como o próprio FDRPE e sua estrutura organizacional é o partido certo para abrigar alguém como Desalegn.

Engenheiro de formação pela Universidade de Addis Ababa, Desalegn voou para a Finlândia quando tinha 24 anos com o intuito de realizar o seu Mestrado na Tampere University of Technology[11]. Ali, em um local tão distante de sua terra natal, Desalegnpermaneceu por dois anos quando, em 1991, decidiu trocar uma possível carreira profissional na Europa por um retorno rápido ao seu país de origem.

Ao testemunhar, desde o seu “exílio acadêmico”, a FDPRE dominar Addis Ababa em maio de 1991, pondo fim a longínqua Era Derg, Desalegn resolveu regressar e viver o novo cenário político e social que se desenhava na Etiópia.

Eu sabia que a situação seria melhor do que aquela durante a Era Derg. Eu seguia as notícias e estava constantemente em contato com os meus amigos, os quais me indicavam que as coisas iriam melhorar. Eu percebi que a FDRPE estava lidando com a população e com as comunidades de uma maneira democrática, por isso eu não me preocupei muito o que iria acontecer comigo. A uma certa altura, eu pensei comigo mesmo: ‘preciso voltar ao meu país e ver com os meus próprios olhos o que está acontecendo’[11], afirmou Desalegn.

De volta a Etiópia, as altas qualificações acadêmicas o creditaram a um prestigiado posto como professor e pesquisador no Arba Minch Water Technology Institute[11]. Ali seria o local onde floresceria as suas qualidades como acadêmico, as quais posteriormente seriam de ampla importância enquanto líder de um partido que conduz uma política desenvolvimentista com precisão cirúrgica. Acima de tudo, a sua obediência a métodos e regras formais e impessoais de experimentação, demandadas tanto pelas ciências exatas, lhe seria posteriormente exigido dentro da FDRPE.

De certa maneira, seu ingresso na política se deu de maneira retardada se comparada à média de idade dos políticos em seus primeiros cargos públicos. Com 35 anos, Desalegn foi apontado como VicePresidente da Região dos Povos, das Nacionalidades e das Nações do Sul, uma das nove províncias étnicas da Etiópia[11]. Entretanto, se seu ingresso se deu de maneira atrasada, sua ascensão dentro do FRDPE ocorreu de maneira acelerada.

Somente 13 anos após o seu ingresso formal no Partido e com apenas 47 anos de idade, Desalegn, em 2013, foi nomeado pelos membros da FDRPE como o seu líder e, por consequência, elevado ao posto de PrimeiroMinistro[11]. A súbita morte de Meles Zenawi, PrimeiroMinistro desde 1995, criou um vácuo não somente dentro do próprio FDRPE, mas também na Etiópia, a qual se viu, de repente, órfã de sua principal liderança.

Foi na juventude de Desalegn e em sua personalidade pragmática que o FDRPE buscou a renovação de sua imagem pública e a reiteração com o compromisso desenvolvimentista. Passados dois anos desde então, Desalegn conseguiu ampla maioria dos votos ao FDRPE nas eleições de maio deste ano (2015), o que o garante no comando do país até, pelo menos, 2020. Até lá, os membros de seu Partido esperam que ele seja capaz de lidar com as pressões externas no que tange ao estado da democracia no país e conduzir a Etiópia ao tão sonhado status de economia de nível médio.

Ciência e servidão. Em grande parte, a fama de Max Horkheimer e Theodor Adorno se deve pela obra “Dialética do Esclarecimento”, publicada em 1947[12]. Nela, uma das frases que mais se destacam e que, em grande medida, é capaz de resumir a principal tese destes autores é a seguinte: “o iluminismo somente conhece o homem na medida em que este é o seu servo[12].

Em analogia, o período das “luzes” pelo qual o FDRPE e Desalegn dizem que a Etiópia passa atualmente também cria os seus servos; também demanda os seus sacrifícios. Se por um lado tais sacrifícios são justificados pelo argumento de serem necessários para elevar o país a um novo patamar econômico, do outro fica evidente que podemos encontrar suas origens na estrutura política na qual a FDRPE se organiza; acima de tudo, no centralismo democrático cultivado por ele.

É justamente por estar restrito a críticas e opiniões divergentes, uma vez que a coesão e sintonia de interesses entre os membros do Partido é a maior das preocupações da FDRPE, que a sociedade civil sofre severas restrições neste país. Compreender a censura da imprensa e a prisão de ativistas na Etiópia sem relacioná-la com o centralismo democrático FDRPEniano é entender este fenômeno de forma parcial.

Críticos afirmam que a própria distinção entre o poder legislativo e judiciário na Etiópia é falho, uma vez que a justiça subjuga-se às normativas impostas pelo FDRPE[10]. Tal crítica se sustenta em importantes casos empíricos, como foi o caso da prisão dos Zone 9 bloggers[13].

Em sua maioria, contrários às políticas desenvolvidas pelo FDRPE e ao estado atual da imprensa na Etiópia, o Zone 9 transformou-se em importante voz da oposição etíope em 2012. Sob a alegação de incitar a violência e de seus membros pertencerem a grupos terroristas, em abril de 2014 o Governo etíope decretou a prisão de seis de seus membros, juntamente com outros três jornalistas acusados de práticas terroristas. Após intensa pressão de ativistas nacionais e internacionais, 5 dos 9 aprisionados foram libertados em julho deste ano.

Eles não são jornalistas, mas sim terroristas fantasiados de jornalistas. Todos aqueles que nos criticaram não ofereceram provas contrárias à acusação de que eles de fato são terroristas[10], afirma Desalegn, o qual demonstra acreditar que o Zone 9 bloggers pode estar vinculado a grupos como a Al Shabab e a ONLF.

Desalegn está ciente da influência da mídia e dos ativistas internacionais no caminho dos projetos governamentais etíopes, bem como da capacidade desta, através da advocacia internacional, de fortalecer nos quatro cantos do mundo as reivindicações dos ativistas locais. Foi justamente a partir das matérias elaboradas pelo repórter britânico Jonathan Dimbleby sobre a fome na Província de Wollo, em 1972, que o mundo se deu conta do que de fato ocorria na Etiópia, fragilizando o longínquo reinado de Haile Selassie[14]. Visando evitar um cenário como este, Desalegn posiciona os agentes internacionais como indivíduos totalmente descapacitados para discutir os assuntos internos, afirmando que estes desconhecem a real ameaça terrorista existente no país[10].

Desalegn e o FDRPE combatem as críticas e pressões externas a partir de um discurso sustentado pelo direito à soberania nacional e, de alguma forma, associando-se à perspectiva marxista-leninista sobre colonialismo e dominação ideológica. Em resposta ao conteúdo presente em importantes relatórios internacionais sobre a liberdade de expressão, como o relatório produzido anualmente pelo Human Rights Watch, Desalegn os posiciona como documentos imbuídos pela “ideologia ocidental”, e que não cabe assim ao Governo da Etiópia adaptar-se a eles, mas sim que os órgãos internacionais se adaptem aos padrões etíopes: “nós estamos sempre em contradição com o Human Rights Watch. Nós acreditamos que eles se baseiam em uma perspectiva neoliberal acerca da liberdade de expressão e uma vez que a Etiópia não se encaixe nesse paradigma eles passam a nos criticar[10].

O sertão vai virar mar. As críticas internacionais e a crescente oposição interna parecem não abalar os projetos concebidos peloFDRPE à economia etíope. Assim, de alguma maneira o desenvolvimento econômico e as políticas governamentais parecem se sobrepor à opinião pública. O que se vê, em realidade, é uma forçada adaptação do cidadão etíope aos projetos governamentais e é justamente este estado de subjugação que posiciona diversos indivíduos e grupos sociais em situações de vulnerabilidade; situações de um verdadeiro sacrifício humano em prol do projeto “Etiópia 2025”.

Talvez um dos maiores exemplos desta situação seja o caso da barragem GIB III, a ser finalizada ainda neste ano, no Vale do Rio Omo, perto da fronteira com o Quênia[15][16]. Essa região, além de ser considerada um sítio arqueológico de extrema importância por abrigar restos paleontológicos, abriga também uma série de grupos seminômades, como as tribos Kwegu, Bodi e Mutsi. Não à toa, a região é considerada pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade[17].

Em termos geográficos, o Vale caracteriza-se como uma zona de transição climática: as montanhas semitropicais localizadas na parte norte, ainda dentro da Etiópia, aos poucos se transformam em uma planície árida e desértica, onde situa-se o Lago Turkana, já em terras quenianas. O Lago Turkana é o maior lago desértico do mundo e 90% de seu abastecimento se dá pelas águas do Rio Omo[18].

Projeto financiado pelo Banco Mundial, o GIB III destaca-se pela sua expressiva capacidade de geração de energia elétrica – cerca de 1.870 megawatts por ano –, bem como por ser o principal projeto do programa Promovendo Serviços Básicos concebido pelo Banco para a Etiópia[15]. Estima-se que o programa, como um todo, disponha de um orçamento total de 4,7 bilhões de dólares[15].

Além de produzir expressiva quantidade de energia elétrica, o represamento do Rio Omo será capaz também de abastecer com água o Vale Inferior do Omo e os projetos agrícolas que o Governo concebeu para esta região. Estes empreendimentos agrícolas ocupam papel central no projeto desenvolvimentista do Governo, tendo em vista o fato de o setor agrícola ter significativo peso na composição do PIB nacional, bem como por ter sido o principal condutor do crescimento econômico da última década.

Entretanto, se por um lado o projeto destaca-se pela sua potencialidade em gerar empregos, energia e água, por outro destaca-se a vultosa perturbação causada na vida das tradicionais populações seminômades da região.

Segundo relatos de organizações não governamentais atuantes na região, como a Survival International[17], pequenos produtores agrícolas estão sendo expulsos do Vale com o intuito de darem lugar a grandes corporações agrícolas, em sua maioria da Malásia e da Índia[15][16]. Estima-se que cerca de 20 mil pessoas foram afetadas pela GIB III, sendo que esta quantia poderá chegar à 200 mil no momento de conclusão da obra[16].

Fica evidente, uma vez lido os principais relatórios produzidos sobre essa questão[18], que a água e a energia elétrica ofertada pela GIB III será usufruída pelas corporações agrícolas – as quais produzirão, em sua maioria, cana de açúcar e óleo de palma – e não pelas populações locais tradicionais. Estima-se que cerca de 445 mil hectares, antes pertencentes às populações locais, já foram marcados pelo Governo como áreas destinadas às futuras plantações[16].

Testemunhas e ativistas locais afirmam que não houver audições públicas para debaterem o assunto e verificarem a verdadeira disposição da população local em abrigar um empreendimento como este[17]. Na verdade, muitas famílias foram surpreendidas ao verem as obras: foi ali, ao observarem as movimentações de operários e tratores, que elas tiveram o primeiro contato com o projeto.

A muitas famílias nada restou senão a migração forçada a cidades locais ou à capital[16][17]. Similar a outros momentos históricos e em outros países do globo, a migração familiar de províncias rurais como esta do Vale Inferior do Omo representa um fluxo de migração de mão de obra barata aos grandes centros industriais, o que implica em um aumento da desigualdade social e no surgimento de diversos problemas sociais relacionados ao espaço urbano.

Por outro lado, algumas famílias decidiram ficar e, de alguma forma, recuperar as suas terras e os poucos insumos agrícolas perdidos. A ausência de meios legais para a reivindicação das terras inevitavelmente despertou o conflito entre a população local e os operários que foram à região trabalhar na GIB III e na demarcação das terras. Há relatos de testemunhas locais sobre o uso de força excessiva por parte dos seguranças presentes nas obras públicas.

“Eu estava caminhando calmamente no meu campo quando um dos soldados chegou e começou a atirar em mim sem nenhum motivo. Eu fui atingido por uma bala no meu joelho. Naquele dia 11 pessoas foram mortas e os soldados atiraram quatro corpos desde a ponte da vila Dima. Os corpos foram comidos pelas hienas[16], afirmou uma testemunha.

Os impactos, porém, não se restringem aos etíopes, mas ultrapassam fronteiras, impactando negativamente as pequenas comunidades que vivem às adjacências do Lago Turkana, no Quênia[18]. Dependentes da pesca e da caça da fauna que habita o ecossistema ao redor, a projetada queda no nível do lago em 70% após a conclusão do GIB III impactará significativamente na subsistência dessas populações[18]. Espera-se que o já iniciado processo de migração dessas comunidades intensifique-se ainda mais à medida que avançam as obras, o que só aumenta o drama sobre futuros conflitos ambientais na região.

Sacrifício humano. O ano de 2015 celebra os sessenta anos de publicação de uma das principais obras do século XX: “Tristes Trópicos”, do sociólogo e antropólogo francês Claude Lévi Strauss, foi listada pelo jornal Le Monde como uma das 100 obras mais importantes do século passado[19]. Resumidamente, o livro é um ponto de partida para entendermos a produção bibliográfica de um autor que buscou provar como determinadas construções sociais são a-históricas e universais, isto é, estão presentes em todos os países, povos e etnias.

Lévi Strauss jamais estudou especificamente a questão do sacrifício. Porém, se ainda estivesse vivo, provavelmente observaria como atualmente, em uma sociedade supostamente secular e pós-moderna, o conceito de sacrifício possui uma vivacidade similar àquela apresentada no período pré-moderno.

No dia 23 de setembro, a Etiópia celebra o “dia do sacrifício”: data presente na tradição islâmica, onde se comemora o dia em que supostamente Abraão aceitou a ordem de Deus para sacrificar o seu único filho Isaac. Na cultura islâmica, o dia é visto como a data para celebrar a servidão de Abraão, tomando esta servidão como exemplo a ser seguido nas práticas cotidianas.

Outrora Haile Selassie, durante o seu longo reinado na Etiópia, encontrava a legitimidade para o seu Governo a partir do “sagrado”: adeptos do movimento rastafári o identificavam como descendente direto do Rei Salomão, o que, consequentemente, creditava ao poder de Selassie um poder de natureza divina.

Atualmente, o “sagrado” na Etiópia traja-se com vestimentas seculares e a palavra “desenvolvimento” é, acima de tudo, uma palavra de ordem. Sacrifícios são executados, e vulneráveis são as diversas famílias e grupos étnicos minoritários que, assim como um religioso obedece às ordens sagradas, devem obedecer essa palavra de ordem, tendo em vista a punição iminente caso não o fazem.

Se por um lado o centralismo democrático permite a condução do desenvolvimento de uma maneira fria e pragmática, do outro, a sua frieza congela o avanço do verdadeiro desenvolvimento social que é, mais do que nada, o avanço das liberdades individuais. É na própria confusão entre o significado das palavras “crescimento” e “desenvolvimento” que reside a explicação para a condição vulnerável a qual se encontram milhares de etíopes.

Ou o FDRPE aprende a servir verdadeiramente o seu povo, edificando, assim, uma real democracia, ou testemunharemos a reprodução de uma sociedade de poucos deuses e muitos servos.

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Imagem (FonteAnistia Internacional):

http://www.amnesty.org.uk/blogs/press-release-me-let-me-go/will-zenawi%E2%80%99s-successor-usher-brighter-ethiopia-human-rights

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Fontes Consultadas:

[1] Ver :

CHAMBERS, R. “Vulnerability, Coping and Policy”. In: CHAMBERS, R. Vulnerability: How the Poor Cope, IDS Bulletin, v. 20, n. 2, pp. 1-7, 1989.

[2] VerBanco MundialEstatísticas”:

http://data.worldbank.org/

[3] VerCEIRI Newspaper”:

http://jornal.ceiri.com.br/novos-passos-no-programa-de-desenvolvimento-na-etiopia/

[4] VerCIA World FactbookEthiopia”:

https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/et.html

[5] Ver:

http://www.dw.com/en/little-hope-for-opposition-in-ethiopian-elections/a-18466340

[6] VerVoice of America”:

http://www.voanews.com/content/ethiopia-ruling-party-wings-big-in-early-election-results/2792782.html

[7] Ver Minority Rights”:

http://www.minorityrights.org/3928/ethiopia/ethiopia-overview.html

[8] VerBBC”:

http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/575405.stm

[9] VerAddis Standard”:

http://addisstandard.com/the-oddities-of-revolutionary-democracy/

[10] Ver YouTube – Al Jazeera interviews Hailemariam Desalegn”:

https://www.youtube.com/watch?v=VwimUr2C7mY

[11] VerEthiopian Stories”:

http://www.ethiopianstories.com/feature-stories/250-ethiopias-new-prime-minister-hailemariam-desalegn

[12] Ver:

HORKHEIMER, M; ADORNO, T. A Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1995.

[13] VerElectronic Frontier Foundation”:

https://www.eff.org/pt-br/deeplinks/2015/07/three-ethiopias-zone-9-bloggers-released-prison-and-cleared-all-charges

[14] VerHuman Rights Watch”:

http://www.hrw.org/reports/pdfs/e/ethiopia/ethiopia.919/c3wollo.pdf

[15] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/environment/2015/sep/03/eu-diplomats-reveal-devastating-impact-of-ethiopia-dam-project-on-remote-tribes

[16] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/global-development/2013/feb/07/ethiopian-dam-project-devastating-remote-tribes

[17] VerSurvival International”:

http://www.survivalinternational.org/tribes/omovalley

[18] VerSurvival International”:

http://assets.survivalinternational.org/documents/1375/whatfuturelaketurkana-update.pdf

[19] VerLe Monde”:

http://www.goodreads.com/list/show/11432.Le_Monde_s_100_Books_of_the_Century

Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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