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[:pt]Protesto de maratonista nas olimpíadas apresenta ao mundo um panorama dos direitos individuais na Etiópia[:]

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Mais do que um evento esportivo, a Olimpíada sempre operou como palco para a veiculação de imagens e representações de cunho político. Nomeado por cientistas sociais como processos de advocacia transnacional, atletas – ou seriam ativistas do esporte? – tiram proveito do foco que a mídia internacional lhes concede neste momento e veiculam a sua causa para os quatro cantos do mundo.

Assim como em outros eventos de escala e magnitude globais, como em convenções do clima, eventos da Organização das Nações Unidas, da Organização Mundial do Comércio ou do G-7, ou mesmo em premiações importantes, como o Prêmio Nobel, a Olimpíada do Rio de Janeiro transformou-se para o maratonista Feyisa Lilesa em oportunidade para a veiculação de uma causa política importante na Etiópia.

Intensos conflitos nos últimos anos entre manifestantes da etnia Oromo e o Governo etíope, controlado pela Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (FDRPE), arrasaram a estabilidade social e política em uma das maiores, tanto em termos populacionais quanto em dimensão territorial, etnias do país. Segundo o Human Watch Rights, entre novembro do ano passado e junho deste ano (2016), mais de 400 ativistas Oromo foram mortos pela polícia local durante manifestações inicialmente pacíficas.

Os conflitos entre as duas partes se acentuaram em 2015, quando o Governo etíope anunciou os planos de expansão urbana da capital Addis Adaba sobre território Oromo. Ativistas e defensores dos direitos humanos posicionaram-se fortemente contra o projeto governamental, defendendo que as obras modificariam por completo a estrutura econômica e social das populações tradicionais.

A emergência de conflitos similares entre o Governo e outros grupos étnicos existentes no país, como os Amhara, demonstra que o atual projeto desenvolvimentista governamental move-se de maneira implacável sobre o direito à sobrevivência e reprodução cultural de grupos étnicos, cuja visão de mundo contrapõe-se à estatal.

Tendo como plano de fundo essa conjuntura social, o maratonista etíope Lilesa, ao cruzar a linha de chegada em segundo lugar, cerrou os braços, formando a letra “x”. O gesto significa um símbolo de combate, usualmente realizado pelos Oromo durante os protestos contra a polícia.

O gesto do maratonista chamou a atenção de toda a mídia internacional, que focou suas lentes – mesmo que por um momento breve, somente – à Etiópia e ao atual panorama de defesa dos direitos individuais neste país. Blogs e sites especializados no tema divulgaram artigos e vídeos esclarecendo a situação não somente do maratonista, mas do grupo étnico ao qual o gesto se referia.

O ruído gerado pela mídia internacional demandou o posicionamento dos governantes etíopes. Cientes da desaprovação em massa que uma resposta negativa ao gesto geraria, o Ministro de Comunicação da Etiópia, Getachew Reda, afirmou que Lilesa “seria sempre bem-vindo” e que “ele havia sido escolhido entre muitos na modalidade não por ele ter uma posição política ou outra, mas porque ele era um dos melhores, senão o melhor naquela modalidade”.

Embora o Governo etíope tenha declarado publicamente que Lilesa não sofrerá nenhum tipo de retaliação pelo seu gesto, o atleta ainda não se sente confortável para regressar à Etiópia. Buscando asilo político em outros países, inclusive nos Estados Unidos, ele afirma que as retaliações podem ser severas: “eu sei que eu posso ser preso ou inclusive morto”.

Caso se confirme o seu exílio, Lilesa não seria o primeiro atleta a buscar a vida em outros lugares. Sua preocupação em retornar à Etiópia e sua inclinação a mover-se para outro país representa hoje a preocupação de milhares de etíopes que veem suas vidas transformadas completamente pela ação governamental. O projeto desenvolvimentista, mais do que focar-se meramente no crescimento econômico, deveria incluir prioritariamente a expansão das liberdades individuais e a participação civil como o único caminho para desenvolver-se verdadeiramente.

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Imagem (FonteDemocracy Now!):

http://www.democracynow.org/2016/8/25/headlines/ethiopian_silver_medalist_who_staged_olympic_protest_fears_returning_home?

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Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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