LOADING

Type to search

Protestos estudantis na Etiópia demonstram que crescimento e justiça distanciam-se um do outro

Share

Pesam na balança da ética dois lados: os princípios e as consequências. Aos deontologistas, nada mais importante que obedecer a um conjunto de valores “universais”; aos utilitaristas, os resultados positivos sobrepõem-se a qualquer valor que possa existir.

Na balança dos governos autoritários ou parcialmente democráticos usualmente reside o desiquilíbrio. Em regimes como o de Kim Jong-Un ou o regime chavista, por exemplo, um conjunto de ideias de valor se sobressaem a qualquer indicador econômico e social. Em outros regimes, o lado das consequências pesa diversas vezes mais que o lado dos princípios: a taxa de crescimento econômico torna-se o indicador mais importante e a política pública que trouxer a maior taxa é a aplicada, independentemente se esta fere os direitos humanos ou ambientais.

Foi assim, por exemplo, em diversos governos com pautas desenvolvimentistas, como nos governos autoritários do Brasil e do Chile, na segunda metade do século XX, ou como no caso do atual Partido Comunista Chinês, que se desdobra em mil faces para manter o ritmo de crescimento acima de 7% ao ano, independentemente se tais políticas são acompanhadas de severas críticas de órgãos internacionais de defesa dos direitos humanos.

Fatos recentes apontam que na Etiópia, gradativamente, os valores também perdem peso frente a importância que o crescimento econômico tem na pauta governamental. A situação se torna ainda mais dramática se levarmos em consideração que se trata de um país onde estão incrustados diversos grupos étnicos, que veem crescentemente um espaço mais restrito para a sua sobrevivência.

Com uma média de crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) nos últimos onze anos de 10,91%, a capital Addis Ababa transformou-se em um verdadeiro canteiro de obras. A cidade está fincada na Província de Oromo, sendo, assim, inevitável a sua expansão para dentro deste território. No entanto, analistas e críticos a esta expansão afirmam que o Governo não ouve a população local para a formulação de um projeto urbanístico que englobe os anseios das mais diversas camadas sociais que aí habitam; ao contrário, o governo estaria deliberadamente expulsando tradicionais agricultores oromo de suas terras para a expansão do espaço urbano da cidade.

A Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (FDRPE), partido governista, tem sua origem histórica na província de Tigray, no norte do país. Com isso, ativistas afirmam que a FDRPE, nos últimos anos, conduz uma clara política de exclusão social dos Oromo, utilizando o discurso urbano como um subterfúgio para esta reclusão.

Em resposta a este cenário que se desenha, desde a semana passada, estudantes universitários e do ensino médio de Addis Ababa conduzem intensos protestos contra o Governo e contra o projeto de expansão urbana dentro do território Oromo. No entanto, até agora, os manifestantes não foram contemplados com alguma audiência pública ou disposição à negociação por parte do Governo etíope. Ao contrário, estima-se que 10 manifestantes morreram após ataques da polícia, a qual, segundo fontes locais, respondeu aos protestos com munição de verdade.

Fatos passados corroboram a opinião de que os direitos de grupos étnicos minguam frente aos projetos desenvolvimentistas do Governo, especialmente os direitos do Povo Oromo. A construção da barragem de GIB III, ao sul da província de Oromo, perto da fronteira com o Quênia, deslocou – e desloca – diversos agricultores de suas terras para o estabelecimento de grandes propriedades agrícolas, adquiridas em sua maior parte por estrangeiros. Ao que tudo indica, o anseio do Governo em posicionar o país como um grande produtor de alimentos em escala mundial levou inúmeros etíopes a um perigoso estado de vulnerabilidade social.

Tendo em vista estas considerações, é necessário reequilibrar a balança. Sem qualquer salvaguarda aos princípios mais básicos da existência humana, uma política de desenvolvimento – que sequer poderá ser assim chamada – jamais passará de uma mera política de “números”, estritamente quantitativa. Ao contrário, uma real política de desenvolvimento deverá ser, acima de tudo, qualitativa: neste panorama, princípios e consequências se equilibram, oferecendo um cenário propício para a expansão das oportunidades de vida de um cidadão, seja ele urbano ou camponês.

———————————————————————————————-

Imagem (FonteThe Global Panorama):

http://theglobalpanorama.com/ambo-students-killed-during-protest-in-ethiopia/

Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

×
Olá!