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Protestos, violência e desgaste dos tradicionais partidos marcaram as eleições no México

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Em meio a ameaças de boicote e protestos, ocorreram no dia 7 de junho as eleições municipais e legislativas no México. A onda de violência que marcou tanto a campanha eleitoral, quanto o pleito no último domingo tem como cerne as denúncias de corrupção, o avanço do crime organizado que assola o país e, ainda, a crise econômica.  Nessa eleição, aproximadamente 83,5 milhões de eleitores escolheram um total de 2 mil cargos, sendo que, destes, 500 são deputados federais e 600 municipais, 9 governadores, 871 prefeitos e 16 chefes distritais[1]. Dada a importância da eleição, e tendo em vista que no México o voto não é obrigatório, uma das preocupações dizia respeito ao fato de que os protestos pudessem inibir a participação da população. Assim, o Governo adotou uma série de medidas de segurança que viessem a garantir a realização do pleito.

O Partido Revolucionário Institucional (PRI), do qual faz parte Enrique Peña Nieto, atual Presidente do México, conquistou a maioria na Câmara dos Deputados, com cerca de 30% dos votos. No entanto, o número de cadeiras poderá ser menor do que da legislatura anterior, quando contavam com 214 deputados[2]. Esse quadro reflete as fortes críticas que o Governo tem sofrido por não ter conseguido combater o crime organizado e a corrupção, apesar de ter promovido uma série de reformas no país. Além disso, o desaparecimento de 43 estudantes em setembro de 2014, promovido por membros dos cartéis de tráficos de drogas em conjunto com polícias municipais, desestabilizou a confiabilidade do Governo perante a população. Adicionalmente, há ainda os recentes escândalos imobiliários que envolvem inclusive a PrimeiraDama e o conflito de interesses entre o Presidente e o Ministro das Finanças, que também ameaçaram os votos da coalizão governista.

No entanto, segundo estimativas das agências mexicanas, o PRI deve eleger entre 196 e 203 cadeiras. O Partido Verde Ecologista do México, aliado da base governante, obteve entre 7,15% e 7,55% dos votos, devendo conquistar, assim, entre 41 e 48 vagas. Outro partido da base é o Partido Nova Aliança, que provavelmente elegerá entre 9 a 12 deputados. Desse modo, os três partidos somariam entre 246 e 263 cadeiras parlamentares na Câmara dos Deputados[3].

Em contrapartida, a oposição deve conseguir entre 156 e 176 vagas. Assim, o Partido Ação Nacional (PAN), que é o maior partido em oposição ao atual governo, recebeu entre 21,47% e 22,20% dos votos, devendo eleger entre 105 e 116 deputados. Já o Partido da Revolução Democrática (PRD), que obteve entre 11,14% e 11,81% dos votos, continua com a terceira maior quantidade de deputados, entretanto passou de 99 para algo entre 51 e 60 cadeiras.

Essa queda no número de vagas deve-se a entrada do esquerdista Movimento Regeneração Nacional (Morena), liderado por Andrés Manuel López Obrador, que já no seu primeiro pleito logrou entre 8,8% e 9,15% do sufrágio, alcançando assim entre 34 e 40 cadeiras[4]. O Movimento Cidadão deve duplicar seus deputados ao passar de 12 para um montante entre 24 e 29 cadeiras. Outro partido que fez sua primeira participação foi o Encontro Social, que conseguiu entre 8 e 10 vagas. Por fim, o Partido do Trabalho deve conquistar entre três e doze deputados.

O cenário já se mostrava conturbado durante a campanha eleitoral, quando 16 pessoas, entre eles candidatos, políticos, trabalhadores de campanha e ativistas foram assassinados. Isso provocou a desistência de vários pretendentes em concorrer ao pleito com receio de que pudessem sofrer o mesmo destino[5]. Desse modo, a mobilização do Exército e da Polícia Federal foi decidida em razão dos fortes protestos ocorridos nas últimas semanas, sobretudo na região sul do país, mais precisamente nos estados de Guerrero, Oaxaca e Chiapas. Para Eduardo Sánchez, PortaVoz da Presidência, “os mexicanos querem e têm o direito de votar em paz, e o governo da República exercerá suas atribuições e tomará todas as ações necessárias, dentro do âmbito da lei, para garantir isso[6].

No domingo, ao longo da eleição alguns grupos de manifestantes, entre eles professores, bloquearam seções eleitorais, acesso a postos de combustíveis e queimaram cédulas de votação. A Coordenadoria de Trabalhadores da Educação (CNTE), grupo dissidente do sindicato nacional do qual fazem parte os professores, protesta contra a reforma do ensino, anunciada pelo atual Governo[7]. Além disso, alguns professores, parentes e outros grupos organizados protestaram em apoio às famílias dos 43 estudantes desaparecidos em setembro de 2014 no Estado de Guerrero, e também pelo conluio frequentemente existente entre narcotraficantes e policiais.

Sob o lema “Nem PAN, nem PRI, nem PRD[8], vive a cidade de Tixtla, localizada no Estado de Guerrero. Os familiares dos 43 alunos desaparecidos, que moram em Tixtla, juntamente com outros manifestantes queimaram sete urnas e material eleitoral, exigindo do Governo uma solução para o caso. Para Martina de la Cruz, mãe de um dos estudantes desaparecidos, “primeiro queremos que as crianças sejam encontradas. Depois poderá haver eleições[9]. Segundo Felipe de la Cruz, porta-voz dos familiares, a  repressão do Governo é clara contra esse movimento, pois já não há mais como explicar os oito meses de desaparecimentos e estão tentando silenciar a nossa voz[10]. No sábado, 16 pessoas morreram no Estado, durante um ataque armado na cidade de Xolapa, por um grupo de policiais comunitários contra um grupo rival, no entanto, as autoridades atribuíram o confronto a uma disputa territorial e não às eleições[11].

Já no estado de Oaxaca, eleitores tiveram que votar em uma tenda erguida em uma estrada, pois a escola onde votariam estava sob o controle dos docentes que pediam aumento salarial. Em Oaxaca, um grupo de professores bloqueou o acesso a estatal Pemex, responsável pela distribuição de combustível. Aproximadamente 90 pessoas foram presas em todo o Estado[12]. Outro caso relatado foi em Monterrey, na região noroeste do país. Homens armados estavam intimidando eleitores em três cidades perto da fronteira com o Texas (Estados Unidos), de acordo com os relatos de dois partidos[13].

Segundo comunicado do Instituto Nacional de Eleições (INE), praticamente todos os locais de votação funcionaram, sendo que a porcentagem de participação eleitoral no país ficou entre 47,25% e 48,51%[14]. Conforme ressaltou Lorenzo Córdova, Presidente do INE, esse pleito “trata-se da aposta da sociedade nas eleições e na via pacífica, para resolver nossas diferenças. O que supõe o rechaço total tanto à violência quanto aos impulsos autoritários[15]. Para Javier Oliva, especialista em segurança da pública da Universidade Nacional Autônoma do México, “o que é inédito na história do México contemporâneo, como democracia consolidada, é que a possibilidade da violência social tenha um elemento de limitar o voto, que de alguma forma pode afetar os resultados[16]. Enquanto isso, o presidente Peña Nieto procurou ressaltar o seu “reconhecimento a todas as mulheres e homens que cumpriram com seu dever cidadão, especialmente avalio o compromisso cívico das centenas de milhares de vizinhos que se desempenharam como capacitadores eleitorais e funcionários nas mais de 140 mil urnas instaladas[17].

Por fim, alguns analistas ressaltam que nenhum dos três grandes partidos fez uma boa votação, o que pode sinalizar uma mudança mais profunda em 2018, quando devem ocorrer as eleições para Presidente. De mais a mais, há ainda, como mencionado anteriormente, as recentes revelações de corrupção e a ineficiência em combater os grupos ligados ao narcotráfico que corroboram para o desgaste do atual Governo. Nesse aspecto, segundo o analista Francisco Abundis, “se o PRI se salvou é porque sua oposição está ainda mais fraca[18]. Todavia, os números oficiais da eleição ainda devem ser apresentados.

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Imagem (Fonte):

http://www.noticiasmundofox.com/noticias/boicot-protestas-y-amenazas-mexico-tendra-las-elecciones-mas-complejas-que-ha-vivido-en-la

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.dw.de/m%C3%A9xico-enfrenta-elei%C3%A7%C3%B5es-cruciais-em-clima-de-viol%C3%AAncia/a-18501600

[2] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/06/partido-de-pena-nieto-vence-eleicoes-legislativas-no-mexico.html

[3] Ver:

http://www.dw.de/partido-de-pe%C3%B1a-nieto-vence-legislativas-no-m%C3%A9xico/a-18502343

[4] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/06/partido-de-pena-nieto-vence-eleicoes-legislativas-no-mexico.html

[5] Ver:

http://www.dw.de/partido-de-pe%C3%B1a-nieto-vence-legislativas-no-m%C3%A9xico/a-18502343

[6] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/06/mexico-realiza-eleicoes-em-meio-a-protestos-e-violencia.html

[7] Ver:

http://www.portugues.rfi.fr/americas/20150607-eleitores-do-mexico-vao-urnas-em-clima-de-violencia-e-boicote

[8] Ver:

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/06/07/internacional/1433698911_274923.html

[9] Ver:

http://www.osul.com.br/atos-de-violencia-e-sabotagem-marcam-eleicoes-regionais-no-mexico/

[10] Ver:

http://www.noticiasmundofox.com/noticias/boicot-protestas-y-amenazas-mexico-tendra-las-elecciones-mas-complejas-que-ha-vivido-en-la

[11] Ver:

http://noticias.emisorasunidas.com/noticias/internacionales/mexico-celebra-elecciones-entre-protestas-violencia  

[12] Ver:

http://www.osul.com.br/atos-de-violencia-e-sabotagem-marcam-eleicoes-regionais-no-mexico/

[13] Ver:

Idem.

[14] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/06/partido-de-pena-nieto-vence-eleicoes-legislativas-no-mexico.html

[15] Ver:

http://www.dw.de/m%C3%A9xico-enfrenta-elei%C3%A7%C3%B5es-cruciais-em-clima-de-viol%C3%AAncia/a-18501600

[16] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/06/mexico-realiza-eleicoes-em-meio-a-protestos-e-violencia.html

[17] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/06/partido-de-pena-nieto-vence-eleicoes-legislativas-no-mexico.html

[18] Ver:

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/06/07/internacional/1433698911_274923.html

Jessika Tessaro - Colaboradora Voluntária Júnior

Pós-graduanda do curso de Especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É Graduanda do Curso de Políticas Públicas da UFRGS e bacharel em Relações Internacionais pela Faculdade América Latina Educacional. No presente, desenvolve estudos sobre a geopolítica e a securitização dos Estreitos internacionais e Oceanos.

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