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Raio X do comércio e dos investimentos da China com os estados brasileiros

“Na atual conjuntura de crise econômica no Brasil, verificou-se um aumento dos investimentos da China. Diferentemente do perfil dos investidores dos países desenvolvidos no Ocidente, os chineses veem o Brasil com uma perspectiva de longo prazo (30 anos ou mais), sabendo que a conjuntura de crise eventualmente será superada. O Brasil possui um mercado aberto a investimentos e mão de obra qualificada. Adicionalmente, os chineses estão acostumados a investir em países que tenham algum grau de instabilidade política, e a Nova Rota da Seda (“Belt and Road Initiative”) é o exemplo emblemático desta tendência.”

Ricardo Kotz
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O Brasil foi o primeiro país com o qual a China estabeleceu a relação de parceria estratégica, no ano de 1993, em um contexto no qual os chineses buscavam credibilidade e relações (sul-sul) que sustentassem seu esforço de internacionalização. Com a entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001, o processo de projeção global da economia chinesa ganhou maiores proporções, incluindo a sua inserção na América Latina.

A conjuntura global mudou drasticamente desde 2001, sendo que a partir do ano de 2009 a China se tornou o maior parceiro comercial do Brasil, e atualmente é o principal destino das exportações de doze (12) estados da Federação brasileira* e do Distrito Federal, quais sejam: Alagoas, Bahia, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraná, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Tocantins.

Imagem simbolizando o poder econômico da China

Em valores, o Brasil exportou US$ 47,49 bilhões para a China e importou US$ 27,32 bilhões, apresentando um superávit de US$ 20,17 bilhões. Se esta cifra pode ser vista como um símbolo de otimismo no curto prazo, no médio e no longo prazos a situação pode ser preocupante se considerarmos a pauta do comércio realizado entre estes países. As importações brasileiras em relação a China incluem quase que totalmente produtos manufaturados, circuitos, semicondutores, peças e componentes de máquinas, além de bens de consumo de um modo geral. Por outro lado, os principais produtos exportados pelo Brasil incluem a soja (43% do valor), o minério de ferro e (22%) e óleos brutos de petróleo (15%), produtos primários de baixa complexidade tecnológica.

Nesse sentido, acentua-se um processo de reprimarização da pauta exportadora do Brasil em relação à economia chinesa. Todavia, não se pode concluir a partir deste fato que haja um processo de desindustrialização** do país. Identifica-se como um dos principais problemas a queda na competitividade da indústria nacional, que perdeu espaço nos mercados dos países desenvolvidos e mesmo nos mercados latino-americanos, em decorrência da inserção de produtos chineses a partir da década de 2000. As indústrias das regiões Sul e Sudeste do Brasil foram as mais afetadas. Adicionalmente, a demanda chinesa por commodities e a alta dos preços destas mercadorias estimulou a especialização produtiva brasileira, visto que o país já possuía vantagens comparativas e competitivas relacionadas ao solo e clima favoráveis.

No que diz respeito à questão dos investimentos, o levantamento realizado pelo Conselho Empresarial Brasil-China aponta vinte e cinco projetos de investimentos de empresas chinesas no Brasil que foram confirmados e/ou iniciados entre os anos de 2014 e 2015, com valores que chegam ao montante de US$ 9,2 bilhões, além do adicional de oito projetos anunciados, totalizando a soma de US$ 2,2 bilhões. O ano de 2016 apresentou doze projetos confirmados, no valor de US$ 8,4 bilhões e quatro projetos anunciados, no valor de US$ 4,1 bilhões.

(Pequim – China 01/09/2017), Troca de Presentes entre o Presidente da República Popular da China, Senhor Xi Jinping e o Presidente da República, Michel Temer.
Foto: Beto Barata/PR

Na atual conjuntura de crise econômica no Brasil, verificou-se um aumento dos investimentos da China. Diferentemente do perfil dos investidores dos países desenvolvidos no Ocidente, os chineses veem o Brasil com uma perspectiva de longo prazo (30 anos ou mais), sabendo que a conjuntura de crise eventualmente será superada. O Brasil possui um mercado aberto a investimentos e mão de obra qualificada. Adicionalmente, os chineses estão acostumados a investir em países que tenham algum grau de instabilidade política, e a Nova Rota da Seda (“Belt and Road Initiative”) é o exemplo emblemático desta tendência.

Até o ano de 2013, o perfil das corporações chinesas no Brasil era predominantemente estatal, correspondendo a mais da metade das empresas que investiam no mercado nacional. A partir de 2014-2015 aumentou a presença das que possuem capital misto e capital privado e que desempenham funções de planejamento e estratégia. O setor de energia liderou a recepção de investimentos, sendo seguido pelo setor de máquinas e equipamentos, e, por fim, seguidos pelos setores de novas tecnologias, informática e serviços financeiros. O período consolidado de 2010-2015 contabilizou o montante anunciado de US$ 67,5 bilhões de investimentos, dos quais US$ 37,1 bilhões foram confirmados.

O maior investimento a ser realizado pela China no Brasil consiste no projeto de construção da ferrovia bioceânica, cujo custo total está estimado em US$ 50 bilhões. A ferrovia começaria no Rio de Janeiro, passando pelos estados brasileiros de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Rondônia e Acre, chegando ao Oceano Pacífico, através do Peru. Sob a perspectiva chinesa, a Ferrovia seria uma importante peça (geo) estratégica, visto que possibilita a articulação (geo) econômica através do Oceano Pacífico, chegando até o Oceano Atlântico.

Isto reduziria significativamente os custos de importação e exportação de produtos através destas regiões. Um estudo encomendado pelo Governo Brasileiro fala dos possíveis impactos da ferrovia: “A projeção da demanda para 2025 é de transporte de 14,5 milhões de toneladas rumo ao Oceano Pacífico e de 8 milhões de toneladas ao Atlântico. Para 2030, os números seriam de 31,3 milhões de toneladas para o Pacífico e de 19,3 milhões de toneladas para o Atlântico”.

As maiores empresas chinesas atuando no mercado brasileiro incluem as estatais da área de energia, State Grid, China Power Investment e China Three Gorges; a montadora de automóveis Chery; a Didi Chuxing (concorrente do Uber) que adquiriu recentemente a 99; e empresas como a Huawei, dos ramos de smartphones, computadores e eletrônicos. 

As políticas protecionistas são medidas por vezes válidas no curto prazo no sentido de assegurar a sobrevivência da indústria nacional. No entanto, no médio e longo prazos, o aumento da competitividade do Brasil é o caminho a ser buscado. Países ricos em recursos naturais poderiam focar no desenvolvimento da biotecnologia como forma de agregar valor às cadeias de commodities, aumentando a sua produtividade e o seu grau de inovação.

Por fim, permanece a necessidade de diversificar o setor produtivo brasileiro e incentivar políticas públicas que auxiliem no aumento da complexidade econômica do país, tais como investimento em inovação, em infraestrutura, na educação e treinamento para a força de trabalho, bem como investimentos em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos, sendo tais ações meios de se construir uma base de recursos que possam ser convertidos em maior influência ao promover relações tanto com a China como com o restante do mundo.

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Notas:

* A Federação refere-se ao país, pois o Brasil é um Estado federado.

** Para esclarecimento, a desindustrialização refere-se a queda na participação da indústria na composição do PIB de uma nação. Por outro lado, a reprimarização refere-se ao processo de aumento da participação de produtos primários (agrícolas) na composição da pauta exportadora de um país. Pode ocorrer desindustrialização, com maior participação do setor de serviços na composição do PIB, por exemplo. Os fenômenos podem ou não ocorrer concomitantemente, portanto, não existe necessariamente uma relação de causalidade entre os mesmos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Localização Geográfica do Brasil e da China” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/2a/Brazil_China_Locator.png

Imagem 2 Imagem simbolizando o poder econômico da China” (Fonte):

https://pixabay.com/p-938269/?no_redirect

Imagem 3 Mandatários da China e do Brasil” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/1c/01-09-2017_Troca_de_Presentes_%2836830652821%29.jpg

Ricardo Kotz - Colaborador Voluntário

Mestrando no programa de Pós Graduação em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), atuando na linha de Economia Política Internacional. Possui especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA). Agente consular junto ao Consulado Honorário da França em Porto Alegre, atuando paralelamente no escritório RGF Propriedade Intelectual, no período de 2013-2015.

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