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Rebeldes líbios começam a trabalhar a transição “Pós-Era Kadhaffi”

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Apesar de ainda permanecerem alguns focos pró-Kadhaffi no país, os rebeldes líbios, sob o comando do “Conselho Nacional de Transição” (CNT), já consideram a vitória como certa e, neste momento, estão buscando solucionar três problemas: (1) controlar as ações dos diversos grupos rebelados, uma vez que, apesar de já haver um comando central (o próprio CNT) existe o risco de fragmentação do próximo governo, podendo levar ao prolongamento da guerra, agora entre grupos existentes no seio da rebelião; (2) acertar com os aliados o processo de reconstrução do país e a reorganização das instituições e (3) definir a forma como serão julgados os membros do regime derrubado.

 

Em relação ao primeiro problema, o CNT está trabalhando neste momento para desarmar a população. Isto será essencial, pois pelotões e milícias tiveram acesso aos depósitos de armamentos de Kadhaffi e as armas ficaram na posse de tais grupos, além de populares, trazendo riscos de acidentes, mas, principalmente, podem levar ao surgimento de grupos autônomos.

O Conselho está colocando as milícias que se formaram ao longo da guerra civil sob o comando único do “Conselho Militar”, em Trípoli, cujo chefe é o coronel Mahmoud Sherif, e também está em perseguição dos indivíduos que são leais a Kadhaffi, já que eles estão prolongando a luta. Eles estão sendo procurados em todos os bairros, pois, pelo que foi divulgado, existe uma lista com os seus nomes.

As medidas são estratégicas para estabelecer um governo centralizado, já que, manterão o monopólio da violência legítima nas mãos do Estado, agora recomposto. Acrescente-se que com este procedimentos submeterão os possíveis grupos dissidentes que podem se levantar e, assim, terão como definir uma organização política com validade geral, aceita por todos, restando trabalhar no processo de legitimação dos atos governamentais.

O ministro do Interior rebelde declarou: “Vamos colocar todas as milícias sob o comando militar e recolher todas as armas das mãos da população. A cidade já é segura e esses disparos que se ouvem de vez em quando são somente demonstrações de celebração”*.

O segundo problema, a manutenção do apoio estrangeiro, agora ao processo de reconstrução do país, está sendo tratado na França, onde o presidente francês, Nicolas Sarkozy, fez convites aos países ocidentais e árabes para comporem o denominado “Grupo de Contato”, que está tratando dos investimentos a serem realizados para recompor a infraestrutura líbia, reativar a economia e, principalmente, reorganizar as instituições. A reunião, a ser realizada em Paris, definirá um planejamento geral para reorganizar a Líbia.

Os analistas convergem para a ideia de que a grande vitoriosa neste processo será a França que certamente ganhará a preferência para trabalhar nas obras, na exploração do petróleo líbio que representa a segunda reserva da África e será a maior influência no governo do CNT. Vários afirmam que a Líbia será a mais importante “cabeça de praia” da França no norte da África e isso permitirá que ela ganhe espaços no continente, tendendo a expandir seus negócios e investimentos no continente.

O terceiro problema está gerando pequenas crises com países vizinhos, em especial com a Argélia. Não se sabe qual o paradeiro de Muammar Kadhaffi, mas a Argélia declarou que recebeu e deu abrigo aos familiares (esposa, dois filhos e a filha) do líder líbio, afirmando que se trata de uma questão humanitária, defendo a “regra sagrada de hospitalidade”** e ressaltando ainda que nenhum deles está sendo procurado pelas Cortes internacionais. Além disso, fecharam a fronteira entre os dois países.

Os rebeldes estão acusando os argelinos de terem apoiado Kadhaffi durante todo o período da rebelião. Eles exigem que os familiares sejam devolvidos ao país e querem ainda que o julgamento do ex-mandatário seja feito na Líbia, antes de ele ser enviado ao “Tribunal Penal Internacional” (TPI).

Vários países estão debatendo a situação, sabendo-se que Kadhaffi conta com apoio da Venezuela para recebê-lo. Além disso, países como a Rússia e a China se opuseram às medidas adotadas pela ONU contra ele. Ressalte-se ainda que a “União Africana” (logo os seus membros, ou a maioria deles) adotou a defesa da negociação, recusando inclusive o reconhecimento do CNT como o legítimo governo da Líbia.

A guerra civil ainda caminha. Os rebeldes deram ultimato ao restante das forças pró-Kadhaffi para que se rendessem em 48 horas para que não enfrentassem o encerramento de qualquer negociação, sendo de então submetidos a todos os rigores possíveis.

A “Organização do Tratado do Atlântico Norte” (OTAN) continua o apoio à rebelião, pois acredita que a redução das ações poderá levar ao atraso no encerramento da guerra. Por essa razão, apesar dos continuados anúncios de que a guerra civil ainda não terminou, os observadores concordam que ela deverá acabar brevemente.

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* Fonte:

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5320589-EI17839,00-CNT+quer+desarmar+populacao+Policia+retorna+a+Tripoli.html

** Fonte:

http://ultimosegundo.ig.com.br/revoltamundoarabe/argelia+defende+decisao+de+receber+familia+de+kadafi/n1597184866230.html

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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