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O ano de 2014 na cena política internacional trouxe muitas respostas, entretanto deixará muitas perguntas a serem respondidas. Um ano cujos conflitos iniciados no início dessa década tiveram um abrupto agravamento, em que massacres, epidemias, divergências comerciais, geográficas, ideológicas e ambientais saltaram aos olhos da sociedade internacional como um alerta sobre os rumos que o sistema poderá tomar a partir de 2015, depois de inúmeros cenários conflitantes mantidos em aberto.

O último presidente da União Soviética e ganhador do prêmio Nobel da Paz, Mikhail Gorbachev, em um artigo confeccionado para a publicação Project Syndicate, classifica como “vórtice da inércia negativa” as tendências e perspectivas para 2015. Esse pessimismo ilustrado nas palavras do ex-presidente não é privilégio apenas de suas críticas analíticas. Muitos pensadores de respeitável gabarito margeiam seus pensamentos em situações ainda muito difusas para a grande massa social que não conseguiu compreender o quão perturbador a ordem vigente tem conduzido ações para desestabilizar metamorfoses necessárias nos diversos espectros do cotidiano das relações internacionais. Os gestos e políticas de mudanças não estão alinhados com os preceitos dos neoconservadores norte-americanos, que ainda relutam a aceitar que a hegemonia política e econômica do maior centro de poder do mundo não terá uma versão atualizada no novo século e, por conta disso, o quebra-cabeça dos eventos de 2014 recebe peças do antigo tabuleiro, com as terminologias históricas de “Guerra Fria”, “Destruição Mútua Assegurada”, “Guerra Mundial”, dentre tantas outras como peças essenciais neste novo quebra-cabeça.

Com ou sem metáforas para traçar o cenário final de 2014, cabe categorizar que as condições políticas, sociais, econômicas, militares e culturais não irão induzir para uma remodelagem kantiana. Para a grande massa de intelectuais, no campo das previsões, a comunidade internacional deve se preparar para períodos conturbados na condução das políticas internacionais, em especial no que remete aos protagonismos de Estados Unidos, União Europeia, China e Rússia, esta última, alvo de predileção ocidental devido aos embates classificados como um dos mais complexos desde o fim da Guerra Fria em 1989.

Para compreender o que ocorre hoje no leste europeu é necessário reviver cenas da esfera bipolar do pós Segunda Guerra Mundial, em que dois blocos ideológicos antagônicos disputavam zonas de influência por todo o globo. De forma bastante simplificada, o ator que tivesse o maior número de estados aliados e, por conseguinte, um grande poderio bélico, incluindo arsenal nuclear, agregado a um sistema financeiro hegemônico ganharia o direito de ditar as regras unilateralmente. Nesse sentido, é justamente pela imposição de regras unilaterais ao fim da Guerra Fria que as consequências sobre a conjuntura atual externa conduziram para análises pouco otimistas quanto à condução da ordem.

Ainda em referência aos atores protagonistas, cujas ações permeiam o direcionamento geoestratégico atual, é importante pontuar situações iniciadas no fim dos anos 90 e que atingiriam o ápice nessa década. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, na sigla em inglês) e a União Europeia fizeram e fazem parte das ferramentas sob o controle de Washington para ampliar seus domínios para ex-repúblicas soviéticas. Essa intitulada conveniência política e militar começou em meados de 1999 quando a NATO avançou rumo ao leste inserindo nos seus quadros a República Checa, a Hungria, a Polônia. Posteriormente, em 2004, a Bulgária, a Estônia, a Letônia, a Lituânia, a Romênia, a Eslováquia e a Eslovênia. No âmbito político, diplomático e econômico a União Europeia fez os mesmos movimentos focando há alguns anos a Ucrânia, centro da grande tensão hoje entre Ocidente e Rússia.

Ao entrar na crise ucraniana, usada como recorte para exemplificar e contextualizar os pessimismos e os entrelaces que tal ingerência poderá acarretar no curto e médio prazo é de grande valia externar os componentes levantados por especialistas em geopolítica. Nesse sentido seriam três os componentes de maior relevância para compreender as sintonias que poderão ser construídas e destruídas com o advento das medidas que são vislumbradas:

  1. A provocação ocidental pautada nas sanções debilitantes a membros da alta cúpula governamental russa, bem como grandes empresários da confiança do presidente Vladimir Putin. A instalação de um governo fantoche em Kiev e a guerra midiática promovida pelos meios de comunicação ocidentais para desfigurar as reais tendências dos movimentos revolucionários. Porém são nas sanções econômicas e financeiras que a estratégia é focada. A redução do preço do petróleo para menos de US$ 100 o barril tipo Brent afeta diretamente as exportações de petróleo russo, matriz econômica do país. A redução do preço combinado entre membros da OPEP e a desvalorização do rublo direcionam a economia para a solvência com níveis próximos aqueles vistos com o fim da União Soviética. Ainda dentro desse componente, a reflexão sobre os fatos indica que os EUA e a Arábia Saudita poderiam aprofundar seus laços combinando o lastro para transações mundiais referendados em dólares, em contrapartida, Washington garantia a proteção da família real considerada na região como um dos grandes males e um dos apoiadores das crises no Oriente Médio;
  2. O segundo componente está atrelado ao modelo de governança na Ucrânia, com características de estado satélite, quase um protetorado velado para aspirações políticas e alicerce para manutenção do status quo. Há informações não confirmadas dadas por jornalistas internacionais de que a ministra das finanças do novo governo em Kiev é Natalie Jaresko, ex-funcionária do Departamento de Estado e cidadã dos Estados Unidos, que obteve a cidadania ucraniana apenas para assumir o cargo no governo do atual presidente Petro Poroshenko.
  3. A guerra de propaganda entraria como terceiro e último componente. A grande mídia procura difundir apenas informações que legitimem ações e provocações ocidentais, sem espaço para questionamentos e debates acerca do outro lado da história. Situações tendenciosas recheadas de mantras e juízos de valor permeiam os comentários sobre as “atrocidades” promovidas apenas por separatistas pró-Rússia. É relevante salientar que uma investigação independente por ocasião da queda do avião da Malaysia Airlines indica um retrato completamente diferente divulgado pelos especialistas europeus e norte-americanos. Nesse estudo há fortes indícios de que o avião fora derrubado por forças ucranianas e não por separatistas e obviamente tal notícia não chegou aos olhos do grande público sendo vetada qualquer veiculação pelas mídias detentoras dos direitos do outro lado do hemisfério.

Diante da complexidade dos fatos testemunhados em 2014, seria possível, por meio do aprofundamento nas análises, traçar alguns ensaios sobre os rumos da ordem internacional atual. O convite à reflexão leva a algumas possibilidades mediante parâmetros traçados por alguns intelectuais. De maneira conclusiva uma reflexão feita pelo economista e pensador Luiz Gonzaga Belluzzo à Carta Capital exprime alguns dos rumos humanísticos para os próximos anos, com os quais se pode concordar: “O sonho ocidental de construir o hábitat humano somente à base da razão, repudiando a tradição e rejeitando toda a transcendência, chegou a um impasse. A razão ocidental não consegue realizar concomitantemente os valores dos direitos humanos universais, as ambições do progresso da técnica e as promessas do bem-estar para todos e para cada um” (Carta Capital 21/12/2014).

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Imagem (Fonte):

http://www.iene.eu/articlefiles/geopolitics.jpg

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Fontes Consultadas:

Ver:

http://csis.org/publication/2015-global-forecast

Ver:

http://www.cfr.org/russian-federation/russian-military/p33758

Ver:

http://br.wsj.com/articles/SB12096357918852044289404580341602158353666?tesla=y&mg=reno64-wsj&url=http://online.wsj.com/article/SB12096357918852044289404580341602158353666.html

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https://news.vice.com/article/best-of-vice-news-2014-why-putin-will-get-everything-he-wants-in-crimea

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http://www.cartacapital.com.br/blogs/outras-palavras/boaventura-a-terceira-guerra-e-contra-a-russia-8975.html

Ver:

http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Por-que-Putin-esta-ganhando-a-Nova-Guerra-Fria-/6/32367

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http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/A-estrategia-dos-EUA-para-a-guerra-contra-a-Russia-na-Ucrania/4/32522

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http://cartamaior.com.br/?/Coluna/A-Terceira-Guerra-Mundial-/32494

Ver:

http://cartamaior.com.br/?/Coluna/Geografia-e-estrategia/32513

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http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Por-que-Putin-esta-ganhando-a-Nova-Guerra-Fria-/6/32367

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http://www.defesanet.com.br/geopolitica/noticia/17706/Sancoes-levam-a-reorientacao-da-industria-de-defesa-russa/

Ver:

http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1784

Ver:

http://www.defesanet.com.br/geopolitica/noticia/17815/Em-nova-doutrina-militar–Putin-ve-expansao-da-Otan-como-ameaca-para-Russia/

Ver:

http://cartamaior.com.br/?/Coluna/Fim-de-uma-era-uma-nova-civilizacao-ou-o-fim-do-mundo-/32501

Ver:

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,uma-nova-guerra-fria-imp-,1612120

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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