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[:pt]Reflexões sobre as armas nucleares no Século XXI[:]

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Desde o fim da Guerra Fria e o colapso da União Soviética, os temas mais discutidos sobre armas nucleares tem sido a não-proliferação e a coerção. Nos termos do Tratado de Não-Proliferação (TNP), de 1968, os Estados-Membros não dotados de armas nucleares concordaram em renunciar à obtenção desses artefatos em troca da garantia de que poderiam desenvolver a energia nuclear para fins pacíficos e da promessa feita pelas cinco potências nucleares de então (EUA, URSS, França, Grã-Bretanha e China) de que perseguiriam “de boa fé” o desarmamento. Desde então, nenhuma nação dotada de armas nucleares, exceto a África do Sul, desmantelou seu arsenal, razão pela qual os Estados-Membros não nucleares do TNP continuam pressionando os Estados nucleares a cumprirem a promessa feita em 1968.

Em um novo livro intitulado “Política Nuclear: As Causas Estratégicas da Proliferação”, os autores, ainda que com base num conjunto de dados muito pequeno, buscam identificar as motivações dos Estados em buscar a obtenção de armas nucleares. Das oito nações que possuem armamentos nucleares; três (Grã-Bretanha, França e Israel) são aliados americanos; duas (Índia e Paquistão) tem relações amistosas com os EUA; e três (China, Coreia do Norte e Rússia) são adversários dos norte-americanos. Dois desses países (Coréia do Norte e Paquistão) obtiveram armas nucleares nos anos oitenta, o que é muito preocupante, mas ambos as adquiriram a um grande custo. Zulfikar Ali Bhutto, então Ministro das Relações Exteriores do Paquistão, disse que seu povo poderia até “comer grama” se fosse necessário para atingir esse objetivo.

Os EUA impediram vários Estados de desenvolverem armas nucleares, ameaçando abandonar uma aliança (Taiwan e Alemanha Ocidental), ou ameaçando, indiretamente, usar a força militar (Líbia), ou usando-a efetivamente (Iraque). Em que circunstâncias os Estados desenvolvem armas nucleares? Os autores argumentam que a maioria dos países é muito fraco para fazê-lo e muitos não estão interessados nisso. Alguns por não se sentirem especialmente ameaçados e outros porque são protegidos por Estados mais fortes. Estas conclusões questionam a ideia segundo a qual a bomba seria uma ferramenta de Estados fracos. Segundo eles, “Sem dúvida, a bomba atômica permitiria que um estado fraco enfrentasse adversários mais poderosos, mas até agora nenhum estado fraco e desprotegido conseguiu obtê-la”.

Em “Armas Nucleares e Diplomacia Coercitiva”, publicado recentemente, os autores investigam a coerção nuclear, um conceito que quase substituiu o de dissuasão em alguns círculos políticos. A dissuasão envolve parar seu inimigo de fazer o que você não quer. Já a coerção envolve forçar seu inimigo a fazer o que quiser. A teoria da dissuasão repousa sobre uma análise do equilíbrio entre duas superpotências aproximadamente iguais. Estas condições deixaram de ser aplicáveis. Coerção é uma teoria para uma única superpotência: um novo jogo, que exige uma nova teoria. Funciona? Na verdade, não.

Como demonstram os autores, as potências nucleares não conseguiram, em geral, coagir outras potências nucleares. Nos anos sessenta, a superioridade nuclear dos soviéticos não ajudou a resolver disputas territoriais com a China. Mais recentemente, os EUA não conseguiram forçar a Coréia do Norte a abandonar seu desenvolvimento de armas nucleares. Os autores argumentam também que as potências nucleares não foram capazes de alterar o comportamento das potências não-nucleares e sua lista é longa.

A sombra do arsenal nuclear norte-americano não convenceu os líderes afegãos a entregarem os agentes da Al Qaeda depois que o grupo realizou ataques terroristas contra alvos americanos em 1998 ou 2001. A Grã-Bretanha não poderia obrigar as forças argentinas a se retirarem das Malvinas sem lutar em 1982, apesar de terem enviado forças nucleares ao Atlântico Sul. A União Soviética não podia impelir o Irã ou a Turquia a entregar território disputado no início dos anos 1950, depois que Moscou adquiriu a bomba. A China também não conseguiu fazer Estados relativamente fracos, incluindo Brunei, Malásia, Filipinas, Taiwan e Vietnã, a abandonar suas reivindicações sobre as disputadas Ilhas Spratly no Mar da China Meridional.

Estes argumentos são muito interessantes, mas se fundamentam num conjunto muito pequeno de dados históricos. Um novo caso poderia contrariar esses argumentos. Em 2009, Thomas Schelling, economista e especialista em segurança nacional, teórico da dissuasão da Guerra Fria, que havia ganhado um Prêmio Nobel por sua análise desse conflito pela teoria dos jogos, emitiu um aviso:

Um ‘mundo sem armas nucleares’ seria um mundo em que Estados Unidos, Rússia, Israel, China e meia dúzia ou uma dúzia de outros países teriam planos de mobilização para reconstruir armas nucleares e mobilizar ou dominar sistemas de vetores de lançamento. E teria identificado alvos para antecipar as instalações nucleares de outras nações, tudo em estado de alerta elevado, com exercícios de treino e segurança nas comunicações de emergência. Toda crise seria uma crise nuclear, qualquer guerra poderia se tornar uma guerra nuclear. O desejo de preempção dominaria. Quem conseguir as primeiras armas irá coagir. Seria um mundo nervoso”.

O mundo nervoso de Schelling é o cenário para “O Caso das Armas Nucleares dos EUA no Século XXI”, em que o autor faz um estudo cuidadoso e equilibrado, lamentando a radicalização tanto dos defensores como dos abolicionistas das armas nucleares e prega um novo e amplo debate: “Se as armas nucleares continuarão a ser eficazes na prevenção de guerras limitadas entre as grandes potências é uma questão em aberto”. O conceito de dissuasão começou a desmoronar ao final dos anos 90, argumenta ele, devido à falta de equilíbrio entre duas superpotências aproximadamente iguais.

Sua conclusão central é a de que outros Estados com armas nucleares não estão preparados para aderir aos EUA em fazer reduções nos seus arsenais e que medidas unilaterais de desarmamento seriam prejudiciais aos seus interesses e aos dos seus aliados. Ele argumenta, em última análise, a favor da paciência e persistência numa abordagem equilibrada para a estratégia nuclear, que abrange os esforços políticos para reduzir os perigos nucleares, juntamente com os esforços militares para dissuadi-los.

Diferentes cenários são avaliados pelos autores de “Sobre a Guerra Nuclear Limitada no Século XXI”. Com efeito, as últimas duas décadas viram um aumento lento, mas constante na proliferação de armas nucleares em Estados cujos objetivos políticos seriam, aparentemente, menos restritivos ao seu uso. Os autores argumentam que se pode chegar a um momento em que um desses Estados acredite que possa ser do seu interesse e tome a decisão consciente de usar uma arma nuclear contra os Estados Unidos, seus aliados, ou forças militares multinacionais concentradas no contexto de uma crise ou um conflito convencional regional.

Afirmam ainda que a comunidade internacional não está preparada para enfrentar esse tipo de guerra nuclear limitada e que é urgente repensar a teoria, a política e o uso da força relacionada às abordagens desse tipo de enfrentamento. Os autores criticam a doutrina da Guerra Fria sobre a guerra nuclear limitada, considerando uma série de conceitos-chave que devem governar a abordagem dos conflitos nucleares limitados no futuro. Estes conceitos incluem a identificação dos fatores que podem levar a uma guerra nuclear limitada, examinando a geopolítica de futuros cenários de conflito que podem levar ao uso nuclear em pequena escala e avaliando estratégias de gerenciamento de crises e controle de escalada. Finalmente, eles consideram uma série de estratégias e conceitos operacionais para combater, controlar ou conter uma guerra nuclear limitada.

O controle ou contenção de uma guerra nuclear limitada é algo crucial, pois é muito provável que qualquer ataque nuclear se agrave rapidamente numa espiral fora de controle por causa da estratégia “use them or loose them”, herança da Guerra Fria: se você não usar todas suas armas nucleares, é certo que o inimigo as destruirão. Os cenários para uma guerra nuclear no século XXI são diversos. Recentemente, a Rand Corporation lançou um estudo específico “War with China: Thinking Through the Unthinkable”.

Uma guerra nuclear poderia começar por uma reação a ataques terroristas, ou pela necessidade de se proteger contra a oposição militar esmagadora, ou através do uso de pequenas armas nucleares táticas de campo de batalha destinadas a destruir alvos limitados. Poderia passar rapidamente para o uso de armas nucleares estratégicas lançadas por mísseis ou bombardeiros de longo alcance. Estes poderiam criar explosões à alta altitude cujo pulso eletromagnético inutilizaria circuitos elétricos e eletrônicos num raio de centenas de quilômetros no solo, produzindo “apagões”. Ou eles poderiam lançar bombas nucleares para destruir instalações nucleares ou não nucleares, importantes infraestruturas industriais e mesmo grandes cidades. Ou poderia ignorar todas essas etapas e começar pelo uso acidental ou imprudente de armas estratégicas.

A instabilidade política do cenário mundial atual torna urgente refletir em profundidade sobre todos esses aspectos de forma a evitarmos uma catástrofe em grandes dimensões porque, como Carl Sagan uma vez disse, teorias que envolvem o fim do mundo não são passíveis de verificação experimental. Pelo menos, não mais de uma vez.

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Imagem 1 Cogumelo atómico da explosão de uma bomba de hidrogênio” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Holocausto_nuclear#/media/File:Castle_romeo2.jpg

Imagem 2 Capa do Livro Política Nuclear: As Causas Estratégicas da Proliferação” (Fonte):

https://www.amazon.com/Nuclear-Politics-Strategic-Proliferation-International/dp/1107518571

Imagem 3 Capa do Livro Armas Nucleares e Diplomacia Coercitiva” (Fonte):

http://www.cambridge.org/br/academic/subjects/politics-international-relations/international-relations-and-international-organisations/nuclear-weapons-and-coercive-diplomacy?format=PB&isbn=9781107514515#contentsTabAnchor

Imagem 4 Mapa detalhando a propagação da insurgência talibã no Afeganistão, 20022006” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_do_Afeganistão_(2001–presente)#/media/File:Neotaliban_insurgency_2002-2006_en.png

Imagem 5 Operação Crossroads (Operation Crossroads), em 25 de julho de 1946 no atol de Bikini” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Teste_de_arma_nuclear#/media/File:Operation_Crossroads_Baker_Edit.jpg

Imagem 6 Soldados do Exército Popular da Coreia do Norte” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Coreia_do_Norte#/media/File:Soldiers_at_Panmunjon_(5063812314).jpg

Imagem 7 Gráfico do Relógio do Apocalipse” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Relógio_do_Ju%C3%ADzo_Final#/media/File:Doomsday_Clock_graph-pt.svg

Imagem 8 Intensidade de um pulso eletromagnético a 400 km de altitude sobre os Estados Unidos da América” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pulso_eletromagnético#/media/File:EMP_mechanism.png

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Fonte Consultada:

Avaliação de Leonam dos Santos Guimarães: Doutor em Engenharia, Diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

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Leonam Guimarães - Colaborador Voluntário Sênior

É Diretor Presidente e Diretor Técnico da Eletrobrás Termonuclear S.A. - Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA. Membro do Board of Management da World Nuclear Association. Foi Professor Titular da Faculdade de Administração da FAAP, Professor Visitante da Escola Politécnica da USP, Diretor Técnico-Comercial da Amazônia Azul Tecnologias de Defesa SA – AMAZUL, Assistente da Presidência da Eletronuclear e Coordenador do Programa de Propulsão Nuclear do Centro Tecnológico da Marinha. Especialista em Segurança Nuclear e Proteção Radiológica, é Doutor em Engenharia Naval e Oceânica pela USP, Mestre em Engenharia Nuclear pela Universidade de Paris XI e autor de vários livros e artigos sobre engenharia naval e nuclear, gestão e planejamento, política nuclear e não-proliferação.

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1 Comments

  1. jorgepardim10 2 de julho de 2017

    Achei muito interessante, parabéns pelo artigo!

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