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[:pt]Rei saudita cancela visita ao Líbano, após pronunciamento do presidente Aoun sobre o Hezbollah[:]

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No último 6 de março de 2017, o Rei saudita, Salman Bin Abdul Aziz Al Saud, cancelou sua visita programada ao Líbano, em virtude de declarações feitas pelo Presidente libanês, Michel Aoun, com respeito ao Hezbollah. Em fevereiro, Aoun fez referência às armas do grupo como complementares as do Exército nacional do país e apoiou o direito da milícia de possuir armas ao lado das Forças Armadas Libanesas (LAF, na sigla em inglês).

O Monarca saudita teria decidido cancelar sua viagem ao Líbano depois de perceber que a eleição de Aoun “não foi capaz de conter o chefe do Hezbollah”, Hassan Nasrallah, que recentemente renovou suas críticas ao seu Reino. Conforme reportaram os jornais libaneses Kataeb e An-Nahar, o ressentimento saudita foi exacerbado pela proposta oficial libanesa de levantar a suspensão do regime sírio da Liga Árabe.

De acordo com o reportado pelo Naharnet, o Rei tinha planos de visitar o Líbano em março para “interpretar o desejo da liderança saudita em ajudar o Estado libanês e encorajá-lo a cumprir com suas obrigações árabes e internacionais e saudar o acordo que acabou com o vácuo presidencial”, graças a eleição de Michel Aoun. Fontes sauditas disseram que a visita deveria dar ao Líbano “um forte impulso moral e político do Reino e dos Estados do Golfo e abrir as portas para o regresso incondicional dos turistas árabes e do Golfo a Beirute, acompanhado de um apoio econômico tangível para o Estado libanês”, informou o Gulf News.

Semanas antes da vinda de Salman Bin Abdul Aziz Al Saud, em entrevista a CBC do Egito, durante sua visita ao Cairo, em 12 de fevereiro de 2017, Aoun afirmou que “enquanto Israel continuar a ocupar terras, cobiçando inclusive recursos naturais libaneses, e o exército libanês não for forte o suficiente para resistir ao país, sentimos a necessidade de ter o exército de resistência como complemento das ações do exército libanês”. Segundo o presidente Aoun, se não fosse pela pressão da resistência, Israel não teria se retirado da maior parte do território libanês, escreveu o Al-Manar.

Ele disse ainda que “os braços da resistência não são contrários ao projeto do Estado; caso contrário, não teríamos tolerado. É uma parte essencial da defesa do Líbano”. Conforme reportou o Al-Monitor, a declaração de Aoun provocou fortes reações por parte das Nações Unidas, da Coalizão oposicionista “14 de Março” e do “Movimento Futuro”, liderado pelo primeiro-ministro libanês Saad Hariri. A oposição acredita que as atividades do grupo, apoiadas pelo Irã, contribuem para a desestabilização da região.

Conforme aponta Haytham Mouzahem, do Al Monitor, o discurso representaria importantes mudanças nas orientações de Aoun, que também convocou o presidente sírio Bashar al-Assad, em 3 de fevereiro, para a reconciliação, pois ele representa legitimidade na Síria e o combate ao terrorismo, além da necessidade do regresso dos refugiados sírios atualmente no país. Aoun teria descartado, assim, a política de autodistanciamento seguida pelo Governo libanês desde o início da crise síria, em 2011.

De outro lado, alguns especialistas apontam que o seu tom, muito mais do que sua posição efetiva, é o que incomoda a Arábia Saudita. Em seu discurso inaugural em 31 de outubro, ele já havia se pronunciado no mesmo sentido. O acordo entre Hezbollah e Michel Aoun, líder do Movimento Patriótico Livre, denominado “Memorando de Entendimento Conjunto” é tão anterior quanto 6 de fevereiro de 2006, de tal forma que o apoio de Aoun ao armamento do Hezbollah não é novo. Adicionalmente, o Hezbollah indicou o seu nome para a Presidência desde abril de 2014, com o término do mandato presidencial de Michel Suleiman, no mês anterior.

Após sua eleição como Presidente, em 31 de outubro de 2016, encerrando mais de dois anos de vácuo presidencial, Michel Aoun visitou a Arábia Saudita em janeiro deste ano (2017). A intenção da visita era reforçar os laços após a decisão saudita em fevereiro de 2016 de congelar o pacote de ajuda militar ao Líbano, de US$ 3 bilhões, acusando o país de estar “sob domínio do grupo xiita”*. Com a eleição e visita de Aoun, os dois países concordaram, em 10 de janeiro deste ano (2017), a retomar as negociações sobre o pacote.

Contudo, a decisão parece ter sido repensada por Salman Bin Abdul Aziz Al Saud, após as declarações feitas no Cairo. Analistas afirmam que a Arábia Saudita “esperava um Líbano mais estável, após preocupações sobre o papel desempenhado pelo Hezbollah no Governo libanês e a ameaça representada pelos jihadistas e pela guerra na vizinha Síria, reportou o Daily Mail. No dia seguinte do anúncio do cancelamento da viagem do Rei saudita, o Ministério Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos convocou o Embaixador do Líbano em Abu Dhabi para protestar contra as declarações feitas por Presidente libanês.

O reforço de Aoun ao seu já antigo apoio ao Hezbollah eleva a preocupação dos sauditas, que se opõem ao partido e ao seu envolvimento na guerra síria. O Hezbollah é um feroz crítico da campanha militar do Conselho Cooperativo do Golfo, liderado pela Arábia Saudita, contra os houthis no Yemen, além de acusar o país de financiar grupos jihadistas na Síria. No último mês (fevereiro), Nasrallah também acusou alguns países árabes do Golfo de normalizarem secretamente suas relações com Israel. A enxurrada de reações, após a declaração de Michel Aoun, no Egito, demonstra preocupações de que as relações entre Líbano e Arábia Saudita devem voltar a testemunhar um retrocesso.

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* O pacote de ajuda militar de US$ 3 bilhões havia sido suspenso após Jibran Bassil, Ministro das Relações Exteriores que chefia o Movimento Patriótico Livre, aliado do Hezbollah, votar contra as resoluções unânimes da Liga Árabe e da Organização de Cooperação Islâmica, que condenaram os ataques iranianos de 5 de janeiro de 2016 às missões sauditas no Irã.

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Imagem 1 Rei saudita Salman Bin Abdul Aziz Al Saud” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Salman_da_Ar%C3%A1bia_Saudita#/media/File:Salman_bin_Abdull_aziz_December_9,_2013.jpg

Imagem 2 Michel Aoun, Presidente do Líbano” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Michel_Aoun

Imagem 3 PrimeiroMinistro libanês, Saad Hariri” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_primeiros-ministros_do_L%C3%ADbano

Imagem 4 Michel Suleiman” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Michel_Suleiman

Imagem 5 Bandeira do Hezbollah” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Hezbollah

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Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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