LOADING

Type to search

A relação sino-brasileira, uma relação desapercebida pelo brasileiro

“Enquanto na China há uma força tarefa para conhecer e entender o Brasil, o seu povo e sua cultura, muito pouco do mesmo comportamento se vê em solo brasileiro. (...) Nesse sentido, como se pode perceber das entrevistas e da percepção de alguns analistas, o olhar para a China deve se realizado para além dos cadernos econômicos, de forma que os campos esportivo e cultural precisam ser melhor explorados. ”

Fabricio Bomjardim
Share

Ao final de 2017, todas as notícias e acontecimentos no campo político-econômico doméstico brasileiro acabaram por abafar as ações de um importante ator internacional para o cotidiano do Brasil, cujo papel e relevância muitos brasileiros, senão a maioria, não sabem, às vezes ignorando também o grau de atuação que este tem na economia do país.

Desde o ano de 2009, a China é o maior parceiro comercial do Brasil e, entre 2016 e 2017, tornou-se o maior investidor em território brasileiro, destacando-se que o gigante asiático é a segunda maior economia do mundo. Existem dados suficientes para entender a importância chinesa para os brasileiros, porém eles não são frequentemente disseminados nos espaços sobre economia de jornais e revistas especializados. Conforme disse o especialista de questões da China da Fundação Getúlio Vargas, Evandro Menezes de Carvalho, para a Rádio China Internacional (CRI), “Há poucos estudos sistemáticos a respeito da sociedade chinesa de uma maneira aprofundada no Brasil”.

Suas palavras refletem a atual realidade da relação sino-brasileira, afinal, a presença chinesa está bem próxima do brasileiro, destacando-se, contudo, que mais longe daqueles que pulam o caderno de economia nos jornais. Economicamente, só neste ano (2017) os chineses intensificaram a compra de empresas brasileiras e até o meio do ano já haviam sido usados mais de US$ 8 bilhões em transações de investimentos e compra de empresas nacionais, dados este que, apesar da importância para o Estado brasileiro, não foram  apresentados por seus órgãos ou entidades, mas pela consultoria britânica Dealogic.

2017 foi um ano intenso de negócios entre os dois países. Além da compra de empresas brasileiras, as cidades chinesas passaram a utilizar mais o sistema de cidades irmãs, como é o caso de São Paulo, onde empresas da China estão investindo em segurança pública, como já foi noticiado aqui no CEIRI NEWSPAER. Nesse sentido, o ano dos contatos comerciais Brasil-China será encerrado no positivo, mas isso não é o suficiente para a manutenção das relações entre essas duas grandes nações.

Em 2017 ainda foi possível perceber uma presença chinesa diferente na cidade de São Paulo, com um grande número de estudantes chineses de língua portuguesa. Em entidades como o Fu Guo Shan (Centro Social Chinês de São Paulo), na Universidade de São Paulo, entre outras, o número desses estudantes cresceu e isso se deu devido a identificada importância do Brasil para a China.

Da esquerda para a direita: Cabral (guia turístico do Ed. Martinelli em São Paulo), Chen Hsin, Sally Chou, Mei Fang, Mauri (estudantes de mandarim) e Li Yuan, que se dedica ao esporte. Foto: Fabricio Bomjardim / CEIRI NEWSPAPER

Neste ano também houve uma série de eventos e atividades com jovens chineses no Centro Social Chinês e na escola de língua chinesa Sunhouse, e eles fornecem uma percepção importante do que é o Brasil*. O entendimento é de que o Brasil foi uma ponte, uma região turística para os jovens asiáticos, e para muitos realmente foi apenas isso, mas, hoje, tornou-se algo mais.

Para a taiwanesa Mei Fang, estudar a língua portuguesa é essencial para sua formação e para herdar a empresa de seus pais, que passaram a fazer exportação de produtos para o Brasil e outros latino-americanos. O país se tornou base para ela viajar por outros Estados da América do Sul, como é o caso do Chile, um importante parceiro dos chineses.

Outro exemplo é Sally Chou, da cidade de Shanghai, que veio por motivos semelhantes aos de Mei. Seu marido é engenheiro e morou no país durante o ano para tratar de negócios da indústria ferroviária com empresas brasileiras do setor.

O caso interessante foi de Chen Hsin e de Li Yuan, que vieram para conhecer o esporte e os pontos turísticos. Ambos os jovens participam de atividades atléticas em seu país de origem e o Brasil é uma referência no futebol e no vôlei.

A presença desses jovens asiáticos que vieram para o país em grande quantidade, com intensa migração nos últimos 10 anos, faz com que o Brasil tenha recebido uma visão ampla. No entanto, o intercâmbio cultural Brasil-China ainda é muito desequilibrado. Enquanto na China há uma força tarefa para conhecer e entender o Brasil, o seu povo e sua cultura, muito pouco do mesmo comportamento se vê em solo brasileiro. Por exemplo, a cultura chinesa ainda é muito confundida com a japonesa. Poucos sabem que a culinária asiática presente na região é chinesa, mas com nome japonês ou coreano, o que deixa os chineses bem tristes pela falta de conhecimento do povo brasileiro em relação a eles.

Nesse sentido, como se pode perceber das entrevistas e da percepção de alguns analistas, o olhar para a China deve se realizado para além dos cadernos econômicos, de forma que os campos esportivo e cultural precisam ser melhor explorados.

Placa na entrada do Centro de treinamento do Shandong Luneng, em Porto Feliz, Estado de São Paulo, Brasil

Na cidade de Porto Feliz, interior de São Paulo, clubes esportivos chineses vem investindo em escolas e alojamentos para promover a integração entre seus jovens e os locais. O objetivo deles é claro: desenvolver os seus clubes de Futebol. Mas, o investimento trouxe benefícios mútuos.

Em 2014, o clube Shandong Luneng comprou o Desportivo Brasil, reformulando totalmente a estrutura já existente, construindo escola, alojamentos, área de prática esportiva, algo que beneficiou pequenos clubes esportivos do interior, o público jovem local e promove a integração com os pequenos esportistas chineses.

Essa ação deixou claro como é simples e efetivo o planejamento de muitas empresas na China: buscar informação sobre onde há especialização acerca de determinado assunto, tema ou profissão; analisar o custo de implementação dessa base em seu país e o custo de investir diretamente na fonte; e, tendo os dados necessários, executar ações que lhes trarão um lucro no médio e longo prazo, de acordo com suas expectativas e prioridades.

Com tantas informações sobre a grande presença chinesa em solo brasileiro, em diversos campos de atuação que trazem benefícios para os locais, acreditam vários observadores que este é um momento de melhorar a visão sobre a China e de se pensar a integração cultural e desportiva entre jovens dessas duas grandes nações com potenciais distintos, mas que almejam o mesmo objetivo de desenvolvimento e crescimento para beneficiar seus povos.

Nesse sentido, preparar hoje uma geração para se comunicar melhor com os chineses no futuro será importante, pois eles já estão atuando dessa forma e quem tiver maior facilidade de adquirir informações e conseguir se comunicar com mais facilidade terá vantagens na hora de realizar acordos de cooperação mútua.

———————————————————————————————–                    

Nota:

* As informações sobre tais percepções decorreram de contatos pessoais, entrevistas e conversas com estes estudantes em eventos e oportunidades que surgiram.

———————————————————————————————–                    

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Foto dos Chefes de Estado e de Governo da IX Cúpula do Brics” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Michel_Temer_e_Xi_Jinping_2017.jpg

Imagem 2 Da esquerda para a direita: Cabral (guia turístico do Ed. Martinelli em São Paulo), Chen Hsin, Sally Chou, Mei Fang, Mauri (estudantes de mandarim) e Li Yuan, que se dedica ao esporte (Fonte):

Foto: Fabricio Bomjardim / CEIRI NEWSPAPER

Imagem 3 Placa na entrada do Centro de treinamento do Shandong Luneng, em Porto Feliz, Estado de São Paulo, Brasil” (Fonte):

http://www.desportivobrasil.com.br/historia/

Tags:
Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

  • 1

Deixe uma resposta