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Relações China-Rússia reforçadas com a visita do Presidente chinês

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Numa altura que China e Rússia celebram 65 anos do estabelecimento das relações diplomáticas, na perspectiva de Pequim as mesmas são satisfatórias. Como prova disso são os sinais de que a nova liderança chinesa tem dado desde março de 2013, em termos de encontros ao mais alto nível. A visita à Rússia do presidente Xi Jinping na semana passada (6-8 de fevereiro) efetivou o sexto encontro com o seu homólogo russo, Vladimir Putin, em 11 meses. Os respectivos Primeiro-Ministros também se avistaram duas vezes, em outubro e novembro de 2013. 

Alguns dias depois de ser empossado como “Presidente da China”, Xi Jinping fez da Rússia a sua primeira escala internacional em março de 2013, onde se reuniu com presidente Vladimir Putin e outros líderes russos. Cerca de uma semana depois, os dois líderes voltaram a se encontrar na cidade de Durban (“África do Sul”), quando da “Cimeira dos BRICS” (o grupo de países que congrega o Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a “África do Sul”)[1].

O terceiro encontro aconteceu durante uma “Reunião Multilateral de Presidentes e Chefes de Governo do G20”, em “São Petersburgo” (Rússia), nos princípios de setembro. Uma semana depois, à margem da reunião anual dos líderes da “Organização de Cooperação de Xangai” (OCX, composta por Cazaquistão, China, Quirguistão, Rússia, Tadjiquistão e Uzbequistão) Xi e Putin cruzaram o mesmo caminho pela quarta vez em Bishkek, capital do Quirguistão. Novamente, o quinto encontro entre os dois Presidentes, da Rússia e da China, teve lugar em novembro, em Bali (Indonésia), ao longo da realização da “Cimeira Anual”  da “Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico” (APEC, sigla inglesa)[2].

Tal qual o ano passado, Xi diplomaticamente inaugurou 2014 visitando a Rússia na primeira semana de fevereiro. Além de ter mantido conversações formais com Putin e assistir a abertura oficial da “22ª Edição dos Jogos Olímpicos de Inverno” (2014), que se realizam na cidade de Sochi, o Chefe de Estado chinês também encontrou-se com o “Presidente do Comitê Olímpico Internacional”, Thomas Bach[3].

A mídia chinesa não esconde que esta visita por outro lado visa mostrar o comprometimento do Governo chinês na candidatura das cidades de Pequim e Zhangjiakou (que se situa na “Província de Hebei” e dista 200km da capital chinesa) para os “Jogos Olímpicos de Inverno de 2022[3].

O Primeiro-Ministro chinês, Li Keqiang, e seu colega russo, Dmitry Medvedev, se reuniram duas vezes em 2013, no mês de outubro, em Pequim, e em novembro em Tashkent, Uzbequistão, durante a reunião dos primeiros-ministros da OCX[2].

De uma forma geral, além de apelos para um cada vez maior fortalecimento das relações bilaterais e para o apoio mútuo aos interesses nacionais, estes encontros enfatizam as áreas de economia, segurança, energia e cultura.

Por exemplo, ao nível econômico, os dois países pretendem elevar a fatias das trocas comerciais, calculada em 88 bilhões de dólares americanos, em 2012, para 100 bilhões, em 2015, e 200 bilhões cinco anos mais tarde. O que certamente contribuirá para tais valores altos será o incremento em 10 milhões de toneladas anuais do petróleo russo à China durante os próximos 10 anos, o que totalizará 85 bilhões de dólares[2].

Ainda no contexto econômico, outro dos maiores ganhos dos recentes encontros entre líderes chineses e russos é a entrada no mercado chinês da estatal petrolífera russa Rosneft. Esta firma detém 51% das ações na joint-venture de refinação de petróleo com a “Corporação de Petróleo Nacional da China” (CNPC, sigla inglesa), a maior companhia chinesa de produção e fornecimento de combustíveis e gás, com os remanescentes 49%. Por sua vez, a Rússia deseja ter mais investimentos no seu país[2].

Ao nível multilateral, a China e a Rússia continuam a defender solução política tanto para a questão da Síria como a do Irã. Os dois vizinhos têm usado a prerrogativa do veto no “Conselho de Segurança da ONU” para travar iniciativas “ocidentais” no que respeita a assuntos da imposição de sanções a Damasco e Teerã[4]

No entanto, a China e a Rússia continuam a divergir em termos da influência em países junto de regiões como a “Ásia Central” que recebe importantes investimentos chineses e apoio na área de segurança. O objetivo é garantir o fornecimento de petróleo á China por parte de alguns países como o Cazaquistão. Além de ser mais uma fonte para Pequim, há quem entenda que o plano de Pequim junto a Xinjiang é usar o Paquistão, país onde apoia a modernização de um Porto. O mesmo faz com o Irã, para importar o petróleo do Médio-Oriente, de onde, em 2011, importou 60% de todo combustível consumido no país, já que o tradicional trajeto via “Oceano Índico” é mais oneroso[5].

Também, ao cooperar com os países da “Ásia Central”, a China pretende estabilizar a região e travar a movimentação de elementos que o governo chinês denomina de forças do mal, junto a sua fronteira, na província ocidental de Xinjiang. Sendo considerados como tais: separatistas, extremistas e terroristas. Esta toda movimentação chinesa causa preocupação em Moscou, uma vez que em tempos já idos esta zona era um bastião da Rússia[6].

Da mesma forma, a venda de armamento russo a alguns países vizinhos da China, como a Índia e o Vietnã, não é bem visto em Pequim. O desconforto da China tem a ver com o fato destes dois países terem ainda problemas territoriais com ela e, em caso de conflito armado, poderão usar o mesmo material bélico contra a China[4].

Concluindo, do ponto de vista de Pequim, pelo fato de a Rússia, tal qual os “Estados Unidos da América” (EUA) e a “União Europeia” (UE), fazer parte do restrito grupo das atuais superpotências mundiais, incluindo a própria China, ela merece esta maior consideração. De fato, o chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi, em dezembro do ano passado (2013) construiu o cenário de que em 2014 a política externa do seu país seria dominada pelo “Novo Tipo de Relações com as Grandes Potências” (“New Type of Great-Power Relations”)[7]. O termo foi usado pela primeira vez em maio de 2012 pelo anterior presidente chinês Hu Jintao para Barak Obama e, posteriormente, repetido por Xi Jinping, depois do seu encontro com o “Presidente dos EUA”, em junho de 2013.

A terminologia “Novo Tipo de Relações com as Grandes Potências além de já fazer parte dos discursos do atual governo de Xi Jinping é também muito popular entre jornalistas e intelectuais chineses, além do fato de, nos “Estados Unidos”, ela também ser discutida na academia. Inicialmente, o debate girava em torno do relacionamento que teria a China com os EUA, mas o objetivo do Governo chinês em propor este modelo de Relações Externas tem em vista uma maior cooperação com as outras três grandes potências mencionadas atrás, com respeito aos interesses nacionais de cada parte para se evitar conflitos militares[8].    

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Imagem (Fonte):

http://www.fmprc.gov.cn/eng/zxxx/t1126945.shtml

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/viagem-de-xi-jinping-a-africa/   

[2] Ver:

http://news.xinhuanet.com/english/indepth/2014-02/02/c_133089728_2.htm

[3] Ver:

http://news.xinhuanet.com/english/china/2014-02/07/c_133097751.htm

[4] Ver:

http://csis.org/files/publication/1303qchina_russia.pdf

[5] Ver:

http://thediplomat.com/2013/07/china-makes-play-for-irans-chabahar-port/

[6] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/china/2012-03/06/content_14766900.htm

[7] Ver:

http://thediplomat.com/2013/12/china-to-prioritize-great-power-relations-in-2014/

[8] Ver:

http://carnegietsinghua.org/2014/01/15/us-china-relations-2013-new-model-of-major-power-relations-in-theory-and-in-practice/gyjm

Jorge Nijal (Moçambique) - Colaborador Voluntário

De Nacionalidade Moçambicana, é mestrando em História do Mundo no Instituto de Estudos Africanos da Universidade Normal de Zhejiang, na China. Graduado em História pela Universidade Eduardo Mondlane em Maputo (2007). Possui experiência na docência de disciplinas de História Geral e da África Austral. Interesses: História de Moçambique, relações China-Moçambique, política externa chinesa no nordeste e sudeste da Ásia, relações China-África, cultura cibernética popular na China. Fala Português, Inglês, Francês e conhecimento razoável de chinês.

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