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Relações teuto-americanas abaladas: emerge tal possibilidade no cenário atual

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As relações bilaterais entre Estados Unidos e Alemanha a partir da segunda metade do século XX sempre foram pautadas pela solidez e admiração retratadas ao longo da história. O discurso em Berlim de John F. Kennedy (1960-1963), quando pronunciou “Ich bin ein Berliner”, levando centenas de milhares de alemães a grande entusiasmo, abriu precedente para construção de uma relação profunda entre esses dois atores. Em 2008, Barack Obama, então candidato a Presidência dos EUA, fez um movimento similar ao de JFK indo até Alemanha e arrastando uma multidão para seu discurso que tinha uma grande conotação utópica de mudanças, esperança e unidade para as massas de todo o globo.

A admiração pelo presidente Kennedy, o apoio norte-americano incondicional na queda do Muro de Berlim e, consequentemente, o reconhecimento do povo alemão na unificação da Federação, assim como a recente receptividade com o surgimento de uma liderança alheia aos discursos tradicionais da política internacional não foram suficientes para evitar a diminuição dessa confiança intensamente trabalhada ao longo de décadas depois dos sucessivos escândalos de espionagem que Washington direcionou à Alemanha, um de seus aliados mais sólidos de todo o sistema internacional.

O contexto dos escândalos nas relações teuto-americanas é explícito para a comunidade internacional. O grampo no celular da chanceler Angela Merkel, o uso de hackers para invadir sistemas de dados de organismos estatais, ações de inteligência cujo objetivo era adquirir e vender segredos estratégicos, trouxeram à tona um comportamento nebuloso na relação entre os dois estados, apesar das inúmeras atividades que ambos desenvolvem em conjunto nas esferas política, econômica e militar.

Para refletir sobre a conjuntura atual, analistas em Berlim e Washington, bem como membros do alto escalão dos dois governos, em condição de anonimato, definiram a questão da Parceria Transatlântica* como parâmetro elementar para entender o estremecimento que o movimento de espionagem produziu na relação de Merkel com Obama.

Nesse sentido, a Casa Branca se revela muito preocupada com a posição de Berlim, líder do Bloco europeu, principalmente em relação a assuntos específicos sobre exportação de produtos alimentícios geneticamente modificados, que são proibidos na União Europeia, todavia aceitos nos Estados Unidos. Outro ponto discordante no discurso germânico está relacionado ao debate na Bundestag(Câmara Baixa do Parlamento Alemão) sobre um movimento antiglobalização, uma vez que há entendimentos de que as negociações que envolvem a Parceria Transatlântica não estão claras o suficiente, inviabilizando o surgimento do Bloco.

Diante desse quadro, de acordo com especialistas em Relações Internacionais, a preocupação quantos aos rumos do comércio internacional, que seria uma salvaguarda importante para recuperação econômica de Europa e Estados Unidos, monopoliza os trabalhos de inteligência das agências norte-americanas, que buscam ferramentas para realizar manobras que beneficiem a estratégia estadunidense de inserção nessa nova integração econômica.

Observadores apontam que a irritação da Chanceler Angela Merkel com a postura de Barack Obama gera especulações sobre os rumos não só do alinhamento teuto-americano, mas também da consolidação da integração econômica. Merkel quer uma posição clara sobre a política de espionagem. Obama não está disposto a oferecer.

Nesse caso, podem ser traçados os entendimentos sobre uma guerra nos bastidores da diplomacia, com ferramentas de contraespionagem, bem como uma negociação alternativa pouco comentada, mas plausível, para abrandar a ingerência de Washington em assuntos internos da Alemanha, ou seja, inserir os alemães no bloco denominadoFive Eyes”, um arranjo de países de língua inglesa (Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Nova Zelândia e Austrália) que trabalham em cooperação entre agências de inteligência. Essa negociação poderia trazer um pouco de calma nos escândalos de espionagem. Entretanto seria um capital político muito elevado já que a contrapartida alemã é pouco confiável na interpretação do governo norte-americano.

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* Um grande bloco econômico que irá consolidar numa área de livre comércio Estados Unidos e União Europeia.

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Imagem (Fonte):

http://cdn3.spiegel.de/images/image-150632-panoV9free-hldq.jpg

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Fontes consultadas:

Ver:

http://www.cfr.org/germany/us-germany-relations-recover/p33256

Ver:

http://www.politico.com/story/2014/07/german-spy-united-states-108588.html?hp=r7

Ver:

http://online.wsj.com/articles/the-u-s-germany-spying-scandal-1405035992

Ver:

http://www.abc.net.au/news/2014-07-11/germany-expels-top-us-intelligence-official-over/5590296

Ver:

http://www.dw.de/ao-espionar-a-alemanha-os-americanos-cometem-grande-erro-diz-analista/a-17782694

Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/07/140704_alemanha_espiao_mdb.shtml

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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