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Rússia e EUA ensaiam afastamento político

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Após as eleições legislativas ocorridas na Rússia no dia 4 de dezembro, o relacionamento entre os governos russo e dos EUA começou a se tornar complexo, fragilizando as aproximações feitas ao longo dos últimos quatro pelo governo de Dmitri Medvedev com estudos de aproximação no final do governo de George W. Bush e de forma intensa com o atual presidente estadunidense, Barack Obama.

 

As acusações mútuas, algumas veladas, outra explícitas, podem levar a um expressivo esfriamento das relações entre os dois países, bem como uma reconfiguração do quadro internacional. Após o anúncio do resultado em que o Partido do governo, o “Rússia Unida” (RU) venceu com 49,3% as denúncias de fraude surgiram com grande intensidade, levando a que os mandatários do país usassem da repressão para conter as manifestações.

Segundo os resultados, o partido “Rússia Unida” perdeu a maioria de dois terços que tinha, mas manterá a maioria na Duma (“Câmara Baixa”) e, de acordo com os manifestantes, isso só ocorreu porque conseguiram aumentar de forma fraudulenta o ganho de pelo menos 14% dos votos que foram computados para sua legenda.

Os resultados oficiais foram: 49,3% dos votos (32,3 milhões de eleitores, ou 238 cadeiras), para os governistas do RU; 19,2% (92 cadeiras), para os Comunistas; 13,25% (64 cadeiras) para os socialdemocratas do “Rússia Justa” e 12% (56 cadeiras) obtidos pelo ultranacionalista “Partido Liberal Democrático”*.

As declarações de manifestantes e dos observadores locais e internacionais mostraram para o mundo uma situação que expressa o mesmo espírito dos cenários ocorridos em vários outros países circunvizinhos da Rússia, da mesma forma que também está seguindo o mesmo modelo a resposta dada pelo atual primeiro-ministro Vladmir Putin para o Ocidente.

No limite, sua postura está sendo idêntica a adotada pelos Governos dos países que receberam e estão recebendo apoio russo em suas crises internas: recusam aceitar que houve falhas no seu processo eleitoral; não aceitam críticas ao sistema político e acusam as manifestações internas de receberem apoio estrangeiro, quando não interferência exterior diretas em assuntos domésticos, com o recebimento de recursos para desestabilizar o país.

Foi o caso expressivo da manifestação feita por Putin contra as declarações da secretária-de-estado dos Estados Unidos, Hilary Clinton. No dia 6 de dezembro, durante encontro entre ministros dos países da “Organização para a Segurança e Cooperação na Europa” (OSCE), Hilary afirmou que as eleições russas “não foram nem livres, nem justas”** e analisou o processo eleitoral na região afirmando que na Bielorrússia a oposição foi perseguida, ocorrendo várias irregularidades, da mesma forma que lembrou o caso ucraniano, em que, segundo afirmou, o ex-premiê Yulia Tymoshenko foi perseguido há sete anos. Reforçando suas declarações, no dia seguinte, terça-feira (dia 7), afirmou que a população russa “merece uma investigação completa sobre fraudes e manipulações eleitorais”*.

O Presidente do país, Dmitri Medvedev, reagiu de pronto recusando discutir seu sistema político, mas as respostas mais duras vieram de Putin que acusou frontalmente a Europa e os EUA de estarem interferindo na política russa e de estarem remetendo recursos financeiros para a oposição ao governo, conforme dito anteriormente.

Primeiro-Ministro afirmou que as declarações da norte-americana funcionaram para “marcar o tom de alguns ativistas da oposição. (…)deu-lhes o sinal para eles começarem a trabalhar ativamente”***. Além disso, afirmou que “existe no país quem queira ver a situação evoluir como aconteceu ainda não há muito tempo na Ucrânia”, declarando ainda ser “particularmente inaceitável” que outros governos “injetem fundos nos processos eleitorais”, numa acusação explícita de financiamento das ações para desestabilizar o governo da Rússia.

Putin é o candidato do RU à Presidência em 2012, sendo necessário destacar que pelo sistema político da Rússia, o Presidente detém a maioria dos poderes políticos, expressivos poderes administrativos e controle das decisões em relação à política externa, sinal de que as aproximações com o Ocidente esfriarão, levando-se em conta o temperamento mais forte do atual “Chefe de Governo” em relação ao temperamento do atual “Chefe de Estado” (Medvedev).

O esfriamento das relações já está crescendo nos últimos meses com o afastamento constante gerado pelos posicionamentos antagônicos em relação a forma de agir sobre as crises no Oriente Médio e norte da África, sobre a postura perante o “Programa Nuclear” iraniano e, neste momento, em relação ao “Escudo Antimísseis Europeu”, que levou o Governo russo a declarar que não aceitará a maneira como ele está sendo concebido, colocando a questão no dilema de, ou os europeus e a “Organização do Tratado do Atlântico Norte” (OTAN) aceitam os russos como parceiros na sua construção, ou a Rússia responderá à altura, dando indicações de uma nova corrida estratégica na região e possível retorno a um antagonismo explícito dos russos contra os ocidentais.

Esta situação seria celebrada com entusiasmo por todos os Estado não alinhados e, principalmente, pelos opositores dos norte-americanos, em especial os seus inimigos declarados, casos de Venezuela, Irã e Coréia do Norte.

Analistas apontam que seria um pequeno retorno a um equilíbrio do sistema, mas seria rapidamente superado voltando a uma instabilidade com consequências graves para as relações internacionais, diante da atual integração entre os atores, diante da perda de poder relativo e absoluto em vários setores pelos EUA, Rússia e Europa, além do crescimento contínuo da China, que não se sabe qual comportamento adotará, embora esteja integrada a economia internacional de forma plena. A questão que emerge é que ela tem se posicionado ao lado da Rússia em várias questões de política internacional, com quem está entabulando constantes reuniões bilaterais para definir posicionamentos semelhantes diante do ocidente. Além disso, são vários os observadores que mostram estarem os chineses menos preocupados com estas questões de como evitar a crise do sistema, mas sim de como consolidar a posição conquistada neste momento.

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Fontes:

* Ver:

http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/russia-condena-eua-por-denuncias-de-fraude-eleitoral/n1597398613479.html

** Ver

http://www.sidneyrezende.com/noticia/154984+hillary+clinton+acredita+em+fraude+nas+eleicoes+parlamentares+da+russia

*** Ver:

http://www.publico.pt/Mundo/putin-acusa-washington-de-estar-a-fomentar-contestacao-na-russia-1524273

Ver também:

http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/partido-governista-vence-eleicoes-parlamentares-na-russia/n1597396270236.html 

Ver também:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/12/111208_russia_eua_pu.shtml  

Ver também:

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5509522-EI294,00-Otan+e+Russia+nao+fecham+acordo+para+cooperar+na+defesa+antimisseis.html  

Ver também:

http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/putin-acusa-eua-de-estimular-protestos-poseleicoes-na-russia/n1597401509311.html

Ver também:

http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/gorbachev-pede-novas-eleicoes-na-russia/n1597399727864.html  

Ver também:

http://portuguese.ruvr.ru/2011/12/08/61864142.html  

Ver também:

http://www.prensa-latina.cu/index.php?option=com_content&task=view&id=457792&Itemid=1 

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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