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Russia, Irã, Iraque e Síria acordam cooperação para possível ação militar em Idlib

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No sábado passado, dia 1o de setembro, comandantes militares da Federação Russa, do Irã, Iraque e Síria acordaram aumentar a cooperação e realizar mais trocas e auxílios nos setores de segurança e inteligência, para garantirem que as vitórias do governo Assad contra a resistência sejam mantidas. Assim, desejam encerrar a Guerra Civil no país, pois apontam que o bastião dos rebeldes ao Governo está localizado na região de Idlib, e esta encontra-se cercada e suscetível de ser derrotada por uma ação intensa e coordenada desses atores, além de haver probabilidade de contarem com o amparo da Turquia, ou ao menos a sua anuência.

Fotografia aérea do Kremlin, referindo-se ao Governo da Rússia

Os representantes acertaram que manterão o apoio mútuo, já que estão combatendo com sucesso o que denominam como terrorismo, havendo ainda concordância de que foram os suportes dados por esses países que permitiu a vitória dos sírios sobre os grupos que, como o Estado Islâmico, usam da violência e do terror contra os demais muçulmanos (takfiris*), sendo identificados como terroristas. Nesse sentido, os quatro Estados desejam que tais ações precisam ser mantidas até a derrota final dos rebeldes.

Conforme vem sendo disseminado, os membros do Estado Islâmico foram vencidos quase que totalmente, apesar de continuarem espalhados por áreas na Síria e Iraque, no entanto, há outros grupos da mesma natureza infiltrados entre os que fazem a resistência ao governo Assad, ou compondo-os integralmente, e, como foi dito, tem como o seu reduto exatamente Idlib, que usam como base para realizar os ataques ao Governo da Síria e, alegadamente, recebem apoio internacional para tanto.

Ministro das Relações Exteriores da Síria, Walid al-Muallem

O raciocínio estratégico adotado pelos russos, ao fazerem as denúncias na semana passada de que os ocidentais estão preparando uma encenação de ataque químico proveniente do Governo sírio, segue esta linha de que se deve aproveitar a oportunidade de acabar definitivamente com os focos rebeldes, pois é alta a probabilidade de sucesso, o que obrigará a sociedade internacional a reconhecer o governo Assad como o único de fato no país. Dessa forma, os russos consideram que a suposta encenação visa justificar bombardeios e demais atividades bélicas dos ocidentais contra a infraestrutura e bases sírias, com o intuito de impedir o avanço do Exército governamental.

Pelo que vem sendo informado na imprensa, os preparativos para a ação contra a resistência nesta região se dá apenas com armas convencionais, dada a superioridade estratégica, tática, de efetivos e de equipamentos, algo que só poderá ser enfrentado com interferência direta do ocidente, o qual, para legitimar uma ação desta natureza, necessita de justificativa que lhe possibilite receber apoio da comunidade internacional, daí a suposta encenação de ataque químico, conforme vem declarando os russos.

Os sírios alegam que não detém mais armamentos químicos, que não usaram no denunciado ataque realizado no primeiro semestre deste ano (2018) e não precisam desse tipo de armas para obterem uma vitória na região, por isso não recuarão no intento de avançar sobre esta área.  

Nas palavras do ministro sírio Walid Muallem, “Tudo o que está sendo feito pelos Estados Unidos não afetará a determinação do povo sírio e do Exército sírio de libertar o Idlib e pôr fim ao terrorismo na Síria. (…). Nós, o povo e o governo da Síria, gostaríamos de acabar com o conflito, mas a interferência dos países ocidentais está atrapalhando isso”.

As convicções de observadores e personalidades globais são de que poderá haver mais uma catástrofe humanitária se houver combates na região, rompendo a trégua que foi estabelecida, a qual sírios e russos apontam que já foi rompida pela resistência. O Papa Francisco, por exemplo, declarou: “Os ventos da guerra ainda estão soprando e as inquietantes notícias sobre o risco de uma possível catástrofe humanitária na província de Idlib estão chegando. Peço mais uma vez [a] toda a comunidade internacional e todas as partes envolvidas a fazer uso dos instrumentos da diplomacia, diálogo e negociações, em conformidade com o direito internacional humanitário e para salvaguardar a vida dos civis”.

A tendência de alta probabilidade de vitória de Assad foi assumida indiretamente pelo Ministro de Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, o qual declarou sobre o Presidente sírio que este “venceu a guerra, mas não venceu a paz”. Tal afirmação decorre de considerar que ele terá derrotado, ou está prestes a vencer estes grupos rebeldes, mas que continuariam presentes as razões que levaram aos seus surgimentos, produzindo novos grupos e mantendo a situação no país, conforme é possível interpretar de suas palavras.

Cruzador de Mísseis Marechal Ustinov

Para enfrentar as medidas ocidentais, a Rússia está fazendo exercícios militares no  Mediterrâneo, iniciados no sábado, dia 1o de setembro, com duração até o dia 8 de setembro, e ocupando posições estratégicas. Segundo declaração do Ministério da Defesa da Rússia, “o grupo vai praticar um conjunto de tarefas de defesa aérea, anti-submarino e anti-sabotagem e também apoiar as contramedidas de minas”. O grupo a que se refere são 25 navios de guerra liderados pelo cruzador de mísseis Marechal Ustinov e 30 aeronaves, incluindo os bombardeiros guiados por mísseis Tu-160, os aviões de combate anti-submarino Tu-142MK e Il-38, os caças Su-33 e as aeronaves Su-30SM da aviação naval, conforme foi disseminado na mídia. Além disso, declarou que os Estados Unidos têm atualmente 70 veículos de entrega com cerca de 380 mísseis de cruzeiro no Oriente Médio e são capazes de preparar um grupo de ataque de mísseis para uma ação contra a Síria em apenas 24 horas.

Como as vitórias contra os remanescentes do Estado Islâmico estão acontecendo constantemente, observadores convergem para a certeza de que haverá a ofensiva contra os focos de resistência ao governo, por essa razão, a tendência é de que combates sejam realizados em futuro breve em Idlib. Nesse sentido, Rússia, Irã, o Governo Assad e demais aliados deram um passo estratégico mais seguro ao fazerem a denúncia, pois colocaram os ocidentais na reativa, sendo obrigados a provar que a acusação feita contra eles é falsa (invertendo o ônus da prova) e, neste momento, ocorre uma batalha entre os Serviços de Inteligência dos dois lados para acharem formas de anular a narrativa um do outro, tanto que ocorreu esta reunião entre os representantes da Federação Russa, Irã, Iraque e Síria.

Ressalte-se que também está ocorrendo embate entre estratégias de comunicação para tentar desqualificar o discurso um do outro. Até o momento, especialistas e a mídia internacional tem repercutido mais as declarações, acusações e denúncias feitas pela Rússia, podendo significar que esta vem tendo um ganho significativo.

Além disso, também é preciso lembrar que no caso do suposto ataque químico ocorrido em abril deste ano (2018), os russos tinham como principal interesse impedir que qualquer fato atrapalhasse a realização da Copa do Mundo de Futebol, já que o evento poderia ser, tal qual especialistas hoje dizem que foi, um excelente meio de apresentar à comunidade internacional uma outra Rússia e afastar as imagens negativas que vinham sendo disseminadas sobre o país e seu governo. Por isso, naquela ocasião, os russos recuaram. Sendo assim, o risco de uma tragédia neste momento é muito maior do que o existente no início do ano.

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Nota:

* Takfiri: O termo é usado para se referir a um muçulmano que acusa o outro de apostasia, ou seja, acusa-o de ter-se desligado, renunciado ou abandonado a religião da qual fazia parte, ou passou a adotar uma opinião contrária a ela. Sendo assim, são takifiris o Estado Islâmico e demais grupos que se posicionaram como inimigos dos outros muçulmanos que não seguem os preceitos por eles considerados como sendo os fundamentais.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Print Screen da Região de Idlib  destacada em rosa retirado do Google Maps” (Fonte):

https://www.google.com.br/maps/place/Idlib,+S%C3%ADria/@35.9334051,36.6421011,7z/data=!4m5!3m4!1s0x152500e6cc6ed27b:0xe59a7e2f651fc24c!8m2!3d35.8268798!4d36.6957216

Imagem 2 Fotografia aérea do Kremlin, referindose ao Governo da Rússia” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Kremlin_de_Moscovo#/media/File:Kremlin_birds_eye_view-1.jpg

Imagem 3 Ministro das Relações Exteriores da Síria, Walid alMuallem” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Walid_Muallem#/media/File:Walid_Muallem.jpg

Imagem 4 Cruzador de Mísseis Marechal Ustinov” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Marechal_Ustinov#/media/File:Cruiser_Marshal_Ustinov_leaving_Norfolk_1989.jpg

Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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