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[:pt]Saad Hariri anuncia apoio a Michel Aoun para Presidência do Líbano: impasse institucional pode estar perto do fim[:]

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Em 20 de outubro de 2016, o líder do “Movimento Futuro”, Saad Hariri, endossou oficialmente Michel Aoun como seu candidato à Presidência do Líbano. O anúncio representa um abandono do seu aval prévio a Sleiman Frangieh, anunciado em dezembro de 2015. Aoun é maronita e fundador do Movimento Patriótico Livre, o maior partido político cristão no Líbano, país que está sem um Presidente desde maio 2014

Falando em uma conferência de imprensa televisionada de sua residência, no centro da capital, Beirute, Hariri afirmou que tomou a decisão “para que o Líbano como um todo preservasse o Estado, suas instituições, sua estabilidade e sua segurança”, conforme reportou o The Daily Star. Classificando a decisão como um “sacrifício e não um acordo”, ele declarou ainda que “o Líbano precisa desesperadamente alcançar uma solução política e, portanto, estou formalmente endossando Michel Aoun para o cargo de presidente do país”.

Os partidos libaneses e suas coalizões têm disputado, tanto internamente, como entre si, sobre quem será o próximo Presidente, desde o término do mandato de Michel Sleiman, em maio de 2014. Sob o acordo de partilha de poder libanês, o cargo presidencial é reservado a um candidato cristão, geralmente maronita. O impasse presidencial já passa de 29 meses e ocorre em meio a outro impasse mais amplo, que também tem paralisado o Parlamento e ameaçado o trabalho do Gabinete. O Legislativo já estendeu seu mandato por duas vezes, a primeira em 31 maio de 2013, por 17 meses, e a segunda em novembro de 2014, por 31 meses, que irá até junho de 2017.

A “Coalizão 8 de Março” é composta pelo Hezbollah, Amal, Movimento Patriótico Livre (liderado por Michel Aoun), Movimento Marada e partidos sírios. Já a “Coalizão 14 de Março” é composta pelo Movimento Futuro, liderado por Saad Hariri, Forças Libanesas, Kataeb, Partido Socialista Progressista de Walid Jumblatt, entre outros.

As Forças Libanesas, o Hezbollah e o Movimento Patriótico Livre pedem pela eleição do parlamentar Michel Aoun, enquanto o Movimento Futuro, Walid Jumblatt e Nabih Berri – do Amal – manifestavam, até então, apoio pela nomeação do líder do Movimento Marada, Sleiman Frangieh. Ambos, Aoun e Frangieh, são membros da “Coalizão 8 de Março”. Nabih Berri, contudo, ainda não endossa o apoio a Aoun. Já o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, confirmou no último 23 de outubro que seu bloco parlamentar votará em Aoun na sessão da próxima segunda-feira, dia 31 de outubro, suspendendo, portanto, o longo período de boicote às sessões.

Aoun serviu como Chefe das Forças Armadas e brevemente como Primeiro-Ministro durante a Guerra Civil do Líbano, 1975-1990, quando era um forte opositor da presença militar síria no país. Mas ele surpreendeu muitos ao estabelecer um Memorando de entendimento com o aliado de Damasco, o Hezbollah, em fevereiro de 2006, um ano após seu retorno do exílio na França e da retirada das tropas sírias do Líbano, em abril de 2005.

Originalmente, antes de apoiar Frangieh, Hariri endossou a candidatura de Samir Geagea, das Forças Libanesas, membro de sua “Coalizão 14 de Março”. Após a desistência, em janeiro de 2016, Samir Geagea apoiou a candidatura do antigo inimigo, o general Michel Aoun, encerrando mais de duas décadas de relações amargas.

Hariri, ex-Primeiro-Ministro, pode voltar para o cargo de Premier sob um acordo de união nacional mediado com Aoun. Com um oficial de alto escalão da “Coalizão 8 de Março” como Michel Aoun na Presidência, Hariri poderia mais facilmente garantir o cargo de Primeiro-Ministro para si, já que é o líder da “Coalizão 14 de Março”, especulam especialistas. Mas este movimento de apoio a Aoun, na prática, coloca Hariri (líder do partido de maioria sunita e apoiado pela Arábia Saudita e pelo Ocidente) ao lado do Hezbollah, crítico severo das políticas sauditas, aliado do Irã e que possui membros combatendo na vizinha Síria. Hariri e seus parceiros apoiam o levante contra Bashar al Assad, enquanto o Hezbollah denuncia a presença de jihadistas no país. Ainda assim, o Hezbollah já sinalizou que aceitará Hariri como Premier, se este for o caso. O correspondente da Al Jazeera, Imtiaz Tyab, reportou que pelo menos dois membros seniores do Movimento Futuro anunciaram que se oporiam à nomeação de Aoun. A animosidade entre Hariri e Aoun remonta mais de uma década e muitos parlamentares membros do Partido Futuro como Ahmed Fatfat, Fouad Siniora, Farid Makari e Mohammad Qabbani expressaram abertamente insatisfação com a decisão de seu líder sunita.

Apesar de rivais, Hezbollah e as Forças Libanesas vinham tentando convencer o líder do Movimento Futuro, Saad Hariri, a abandonar o apoio a Frangieh e endossar Aoun, que diziam ser a única maneira de encerrar o vácuo presidencial. Os legisladores do Bloco Mudança e Reforma, do deputado Michel Aoun, junto ao bloco do Hezbollah e seus aliados, denominado “Coalizão 8 de Março”, têm frustrado qualquer quórum através do boicote às sessões parlamentares, exigindo um acordo de antemão com os seus rivais da “Coalizão 14 de Março” acerca de um candidato de consenso. O Parlamento deverá se reunir na próxima semana, em 31 de outubro, para nova tentativa de votação de um Presidente, a 46ª tentativa, desde 2014. Desta vez, a garantia de apoio em torno do nome de Aoun deve ser suficiente para a obtenção de uma maioria de 2/3 para a eleição presidencial.

Hariri fez referência à vizinha Síria como uma das principais razões por ter confirmado o apoio a Aoun, e exortou os cidadãos libaneses a se reunirem em torno do candidato. O país faz fronteira a norte e a leste com a Síria, devastada pela guerra que já gerou estimados 500.000 mortos. Como consequência, o Líbano vem registrando um alastramento no número de combatentes extremistas e grande afluxo de refugiados, deteriorando a já debilitada infraestrutura do país. A população total do país é estimada em 5,851 milhões de habitantes – excluindo o número de refugiados. Outros 1.033.513 de habitantes são refugiados sírios, conforme dados da UNHCR.

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ImagemGeneral Michel Aoun” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Aoun.jpg

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Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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