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Sírios no Líbano: de refugiados a ameaça securitária

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Na quinta-feira da semana passada, 25 de setembro, foi publicado um artigo pela Carnegie Endowment, intitulado “O modelo de moderação do Líbano”, exaltando o modelo político pluralista libanês como uma força que emergiu “contra os líderes bárbaros e delirantes do califado autoproclamado[1], isto é, o Estado Islâmico. Os autores, Marwan Muasher e Kim Ghattas, caracterizaram o sistema político libanês como “um modelo para a gestão de diversidade cultural e rejeição do radicalismo em um ambiente instável e fragmentado[1].

Coincidentemente, também no dia 25 de setembro, o Exército libanês executou incursões a campos de refugiados sírios na cidade de Arsal em busca de militantes afiliados ao Estado Islâmico. A narrativa oficial do Exército sustenta que soldados abriram fogo contra homens que tentavam atear fogo a tendas em um campo vizinho. No entanto, residentes e uma autoridade local contradisseram tal narrativa, afirmando que foram tropas libanesas que jogaram gasolina em tendas a fim de queimá-las, e que soldados atacaram homens, mulheres e crianças. A autoridade local afirmou, ainda, que “não há segurança alguma para os refugiados em Arsal[2][3].

Enquanto tais afirmações foram contestadas pelo Exército libanês[2][3], o ocorrido reforça um quadro de recrudescimento de violência contra sírios no país. Como reportou a Human Rights Watch (HRW) nesta semana, autoridades libanesas vêm falhando em proteger sírios, em sua maioria refugiados, contra uma onda crescente de violência que parece ter como objetivo expulsar sírios de determinadas regiões/vizinhanças ou reforçar um toque de recolher[4].

A HRW documentou 11 ataques, em agosto e setembro, de cidadãos libaneses contra indivíduos desarmados de nacionalidade síria ou percebidos como sírios, incluindo ataques com facas e armas de fogo. Em pelo menos quatro casos, as vítimas afirmaram que os ataques ocorreram à vista de Forças de Segurança libanesas, que não intervieram[4].

Os entrevistados afirmaram que não têm conhecimento de nenhuma investigação sobre os incidentes. Por um lado, isto se deve ao fato de que muitas vítimas não reportam ataques por medo de represálias por parte dos agressores, ou por medo de enfrentar problemas com as autoridades, como reportado por um trabalhador humanitário à HRW. Ao mesmo tempo, em casos em que vítimas prestaram queixas, autoridades se demonstraram indiferentes ou impotentes[4].

Casos de violência contra sírios têm se tornado mais frequentes nos últimos dois meses, desde que a cidade de Arsal foi tomada por rebeldes sírios afiliados ao Estado Islâmico, tornando-se palco de uma batalha entre forças rebeldes e libanesas[3][4][5].

Tais incidentes vêm se tornando também cada vez mais flagrantes. Segundo o site de notícias Al-Akhbar, Antoine Chakhtoura, Prefeito de Dekwaneh (subúrbio ao norte de Beirute), afirmou, em relatório publicado no site El-Nashra, que “de vez em quando, o município invade as casas dos sírios, a fim de não repetir a experiência de [guerra civil libanesa] em 1975[6]. Chakhtoura ainda acrescentou: “cada agrupamento de sírios é uma célula adormecida [dirigida] contra [os setores] de segurança, econômico, modo de vida, ou ambiental[6].

De fato, como já abordado[7], as memórias libanesas acerca da guerra civil, que durou de 1975 a 1990, têm marcado a postura do país em relação ao influxo de refugiados vindos da Síria[8]. Mais do que isso, o discurso – presente tanto na narrativa oficial de autoridades libanesas quanto na imprensa – que retrata sírios, e principalmente refugiados vindos da Síria, como uma ameaça à segurança nacional, revela uma realidade diferente do “modelo de moderação[9] defendido por Muasher e Ghattas, como mencionado no início desta nota analítica. Embora os autores tenham bem caracterizado o sistema político libanês[9] como também um “ambiente instável e fragmentado[9], eles parecem ter superestimado a capacidade e a vontade política do Governo em lidar com ataques violentos por parte de seus cidadãos contra sírios em seu território, o que demonstra uma falha em sua “gestão de diversidade cultural e rejeição ao radicalismo[9].

Como observou Nadim Houry[4], vice-diretor da Divisão Oriente Médio e Norte da África da Human Rights Watch, “[a]s forças de segurança do Líbano devem proteger a todos em solo libanês [independentemente de sua nacionalidade], e não fazer vista grossa a grupos de vigilantes que estão aterrorizando refugiados[4].

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ImagemDezenas de milhares de refugiados sírios estão vivendo em campos nos entornos da cidade libanesa de Arsal” (Fonte):

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-29370839

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://carnegieendowment.org/2014/09/25/lebanon-s-model-of-moderation/hq3x

[2] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-29370839

[3] Ver:

http://www.maannews.net/eng/ViewDetails.aspx?ID=730012

[4] Ver:

http://www.hrw.org/news/2014/09/30/lebanon-rising-violence-targets-syrian-refugees

[5] Ver:

http://jornal.ceiri.com.br/isis-e-o-novo-contexto-de-seguranca-libano/

[6] Ver:

http://english.al-akhbar.com/node/21557

[7] Ver:

http://jornal.ceiri.com.br/refugiados-sirios-no-libano-pais-dos-cedros/;

Ver também:

http://jornal.ceiri.com.br/memorias-libanesas/

[8] VerInternational Crisis Group (2013). Too Close For Comfort: Syrians in Lebanon. Middle East Report no. 141”. Disponível em:

http://www.crisisgroup.org/~/media/Files/Middle%20East%20North%20Africa/Iraq%20Syria%20Lebanon/Lebanon/141-too-close-for-comfort-syrians-in-lebanon.pdf

[9] Sobre o sistema sectário do Líbano, ver:

http://jornal.ceiri.com.br/os-desafios-do-novo-primeiro-ministro-libanes/

Ricardo Fal Dutra Santos - Colaborador Voluntário

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.

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