LOADING

Type to search

[:pt]SMARTBIKES da China podem revolucionar o transporte, as relações de consumo e a matriz energética mundial[:]

Share

[:pt]

Nas décadas de 1970 e 80, a China era famosa pela quantidade de bicicletas. Naquela época, andar de bicicleta não era nem elegante, nem “descolado”, nem tampouco politicamente correto ou ambientalmente sustentável: o carro era o símbolo máximo de status do sistema capitalista de produção. A China comunista e superpopulosa tinha a bicicleta como o meio de transporte mais popular.

O conceito de “smartbike” começou como um mero serviço de locação de bicicletas públicas, instaladas próximas a pontos turísticos e estações de trem do metrô, que são retiradas e devolvidas automaticamente pelos usuários. O pagamento também é realizado de forma eletrônica. A ideia era dispensar a mão-de-obra e incentivar populações a usarem menos os automóveis, com o compartilhamento de um meio de transporte popular que passa a maior parte do tempo parado. O projeto teve início na França e foi implementado pelo grupo de publicidade Clear Channel Communications em 1998, e rapidamente se espalhou pela Europa. Países como o Brasil já a utilizam em campanhas publicitárias. O pagamento do serviço de locação, atualmente, é realizado por meio de aplicativos (softwares) de smartphones. 

Com o advento da Internet, surgiu em 1999, pela boca do diretor do MIT Media Lab o termo Internet of Things (IoT), para definir a integração da rádio frequência à Internet para identificação de produtos, estoques, transporte e logística. A Internet das Coisas é nada mais que a integração entre os produtos e a tecnologia de informação pela Internet, onde objetos como refrigeradores alertariam seus donos pelo smartphone que falta leite ou cerveja, por exemplo.

O próprio smartphone, o “telefone inteligente”, na versão em Português, não deixa de ser um bom exemplo de IoT, em que foram instalados computadores de bordo nos aparelhos de telefonia móvel, conectados à Internet. Revolucionou conceitos de consumo e negócios. A portabilidade de um computador que cabe no bolso e sua conexão com a rede mundial de computadores permitiram o surgimento e a criação de vários programas de computador adaptados a esses minicomputadores, os chamados aplicativos, sendo a maioria deles com funções de marketing. Em suma, um produto conectado à Internet – de novo, a IoT – revolucionou o mercado porque facilitou a venda de produtos e serviços.

Com mais tempo próximo de um computador e da Internet, bilhões de pessoas passaram a consumir informação, produtos e serviços disponíveis nas infinitas promoções de vendas. Sites de músicas, jornais e revistas passaram a entregar conteúdo online grátis e softwares como Uber, Airbnb, Alibaba, de fácil instalação nos dispositivos móveis, diminuíram a distância entre fornecedores de produtos e serviços e os consumidores finais. A Internet e os smartphone alteraram profundamente as relações comerciais, erodindo indústrias e criando outras. Internet, automação e robótica baseada em softwares robôs transferiram investimentos do capitalismo industrial para o capitalismo conceitual[1], um capitalismo baseado em marcas, patentes, design e na capacidade de divulgação e distribuição de produtos.

Se, antes, a riqueza era medida pelo número de fábricas ou empregados, e o sucesso nas vendas dependeria de que cada consumidor comprasse ao menos um produto para uso pessoal, individual e próprio (o “seu” carro, a “sua” bicicleta), na nova economia a maioria das empresas mais bem-sucedidas nas Bolsas de Valores ao redor do planeta produzem apenas informação, conteúdo, mídia ou simplesmente conectam produtores aos clientes ou interconectam consumidores, incentivando possuidores a compartilharem produtos e serviços com outros usuários. As antigas cidades industriais passaram a ser cidades de serviços. E ainda estamos só no começo.   

Conforme salientamos em Nota Analítica intitulada “Cybereconomia’ e ‘Crescimento Verde’: Principais Agendas da China”, de 15 de julho de 2016, muitos itens desse novo modelo de negócio baseado na Internet, automação e robótica de computadores são alvo da estratégia econômica de governos (Alemanha, Israel e China) e disputas acirradas de mercado.

No caso da China, a smartbike concorre com a impressora 3D como o produto conectado à Internet alvo das indústrias de tecnologia de ponta. A primeira chamando a atenção, inclusive da administração pública das megalópoles chinesas, devido aos problemas de superprodução e uso inadequado.

Mas, as smartbikes da China não são bicicletas inteligentes apenas no sentido da locação automática e compartilhamento iguais as da França no início do uso do rádio com a Internet: são um novo conceito de smartbikes, conectadas à Internet e que podem gerar mais informação acerca do consumo e do tráfego de populações nas grandes cidades. Marcas como Mobike, Ofo, Youôn, Ubike, WeChat e, mais recentemente, a Bluegogo, todas, assim mesmo, marcas com inscrições ocidentais, cada uma com design e cor característicos, tem seus produtos e serviços à venda ou locação via smartphone. Essas bicicletas estão invadindo calçadas, ruas, ciclovias e até latas de lixo.   

Segundo o fabricante da bicicleta inteligente “dobrável” QiCycle, a Xiaomi, esse meio de transporte é “perfeito para as cidades lotadas da China”. São bicicletas que medem o torque e a força bruta do usuário, e ajustam a rotação do motor ao estilo de pedalada de cada um, com baterias com até 45 quilômetros de autonomia. O mais fantástico é a integração da QiCycle a um aplicativo de smartphone que informa a localização da bicicleta, permite navegação por GPS, informa velocidade, distância, nível de bateria e até a quantidade de calorias queimadas. Custa 2.999 ienes, o equivalente a R$ 1,5 mil.

A título de comparação, o modelo mais comum de bicicleta elétrica do Brasil, a Lev, ainda não tem conexão com a Internet. Em sua página promocional na Internet a marca faz uma declaração que brinca com a realidade e a ficção, “Pensar em bicicleta elétrica no Brasil, no ano de 2008, era como pensar em pessoas usando discos voadores […]. Em viagem à China, um dos fundadores da Lev se encantou por uma das ‘magricelas elétricas’, como os chineses chamavam as bicicletas. Elas rodavam por todos os lados em Pequim, levando as pessoas de forma prática, sem ruídos ou poluição”. A bateria da versão brasileira tem autonomia de apenas 30 Km. O preço? R$ 5.490,00. Registre-se que a marca Lev é brasileira, porém suas bicicletas elétricas são fabricadas na China (!).

O Big Data como o conceito por trás da Internet das Coisas (IoT)

Voltando à aplicação da IoT nas bicicletas elétricas, que, a exemplo dos smartphones, qualquer cidadão de classe média possa comprar, imaginemos a seguinte situação: O fabricante da bicicleta inteligente instala Internet, sensores e aplicativos no quadro da bicicleta, que passa a produzir dados e informações sobre horários de maior uso, rotas, paradas, locais de abastecimento (corrente elétrica), pontos de estacionamento de maior período para identificação de locais de trabalho, lazer e consumo e, com ou sem o consentimento do usuário, possa vender esses megadados para governos e companhias diversas.

Quase tudo isso já é possível por meio dos smartphones, mas, por meio do deslocamento dos usuários de bicicletas podemos medir, analisar e até prever o comportamento de transporte e tráfego humano. Governos implementariam políticas habitacionais e de deslocamento mais adequadas. O Big Data, os megadados formados a partir dos dados de usuários de smartbikes, em um contexto de cidades Pequim, Shangai e outras megalópolis fora da China, ajudaria governos e empresas com o planejamento estratégico a partir da análise da mobilidade urbana. O Big Data das bicicletas inteligentes ajudaria na implementação do conceito de Cidades Inteligentes com predições, previsões de deslocamento populacional com base nos locais de emprego, renda e lazer. São dados úteis aos governos e às empresas das industrias elétricas, da construção civil e fast-food.

Smartbikes, o início do fim da indústria do petróleo

Difícil imaginar como um meio de transporte individual, porém compartilhável, não poluente e redutor de problemas de saúde pode ter adversários. As smartbikes têm. Muito mais baratas e menos poluentes que as motocicletas e motonetas movidas à combustíveis fósseis, as bicicletas inteligentes que convergem força bruta com torque e tração elétrica proporcional e estão integradas à Internet – leia-se aos smartphones – são uma aposta bastante provável de tomar conta das cidades inteligentes, tais como os telefones inteligentes tomaram conta do mercado e revolucionaram as relações de consumo.

Terça-feira, dia 27 de dezembro de 2016, o Comitê de Transporte da cidade de Shenzhen, na China, baixou um decreto para regulamentar o aluguel, o uso e o estacionamento dessas bicicletas, com responsabilização direta das companhias que as comercializam e alugam, por causa dos acidentes que vem sendo causados pela massa de novos usuários desses modelos de transporte. Segundo a administração de Shenzhen, os usuários das bicicletas inteligentes “não seguem as regras para o tráfego de veículos. O caos de estacionamento e outro mau comportamento representa um problema para a administração da cidade”.

A adoção do conceito de transporte individual compartilhável e movido a eletricidade por governos e populações de grandes cidades acendeu a luz vermelha das fábricas de carros e motocicletas e representa grave risco à indústria do petróleo, a mais poderosa indústria do mundo e da qual governos e empresas dependem especialmente em casos de conflitos armados.

A matriz energética, especialmente as de combustíveis fósseis, e sua influência em questões de estratégia governamental e política, são assuntos em pauta de jornais de relações internacionais, universidades e companhias. Segundo o Doutor em Ciência Política pela Universidade de Campinas (Unicamp) e Professor do pós-doutorado de História na Universidade Federal Fluminense (UFF), José Alexandre Altahyde Hage, o melhor livro sobre esse assunto é o Petróleo: Poder e Glória, de Daniel Yergin, publicado no Brasil em 1992. Ele demonstra os esforços de potências como os Estados Unidos da América e o Reino Unido para manter e regular a oferta de petróleo e o poder[2].  

Portanto são governos de países como Estados Unidos da América, Reino Unido e Rússia e toda a indústria do petróleo, com todas as companhias que integram a cadeia de produção de petróleo, que sofreriam perdas financeiras decorrentes da adoção de conceitos como “cybereconomia” e “crescimento verde”, atuais agendas da China. E o gigante asiático parece não perder tempo. A popularização das bicicletas elétricas chinesas é um exemplo disso.

A mudança da matriz energética “petróleo” para a matriz de energia elétrica ou eletromagnética, hidroelétrica ou solar, dependem da mudança de paradigma de comportamento do consumidor e seu status. Somente em modelo mental (mentalidade) “verde”, amparada em forte comunicação social “menos é mais”, ou “ser é melhor que ter”, conduziria o cidadão a comprar menos produtos individuais poluentes e a consumir mais serviços de compartilhamento de produtos ecologicamente sustentáveis.

Do ponto-de-vista estratégico chinês, o impulsionamento de uma economia digital “verde” com ênfase em impressoras 3D de tecnologia de ponta e bicicletas inteligentes elétricas compartilháveis não somente reduziria a poluição na China como também diminuiria sua dependência do petróleo. Produtos feitos em impressoras 3D consomem plástico (petróleo) nos países consumidores dessas máquinas, e as smartbikes não usam combustíveis fósseis, senão energia elétrica – ou solar, futuramente –, e somente em quantidade necessária, quando o usuário não está pedalando, praticando exercícios físicos que reduzem o consumo de energia e melhoram a saúde.

Não bastassem as vantagens estratégicas internas da China em uma economia digital e “verde”, testadas e aprovadas por potências como Alemanha – com a qual a China mantêm conversações nesse sentido, há mais de 10 anos consecutivos –, ao mesmo tempo em que fortalecem sua economias, os países da vanguarda da Era Digital enfraquecem as potências do Império Anglo-Estadunidense formado pelo bloco dos “FIVE-EYES”, composto por Estados Unidos da América, Canadá, Reino Unido, Austrália e Noza Zelândia, conforme denúncia do ex-analista de Inteligência da Agência Nacional de Segurança dos EUA, Edward Snowden. Assim como a Rússia, o poder desse bloco está intimamente vinculado à indústria do petróleo e ao controle de zonas produtoras e distribuidoras.

Em um mundo cada vez mais digital e conectado, em que as lojas físicas perdem mercado para lojas de compras virtuais em sites de Internet, alugar bicicletas e dividir carros por meio do smartphone parece mais inteligente que comprar veículo de transporte próprio, e a informação e o volume de dados gerados pelo consumidor representam um “ativo” a ser trabalhado e explorado. O software robô (servo, em Tcheco) é o novo Golem e a “Revolução das Máquinas” começou agora que o Big Data e a Internet das Coisas (IoT) ativaram os efeitos imprevisíveis dos smartphones, impressoras 3D e smartbikes dos habitantes das “Smart Cities”.     

O petróleo ainda é indispensável, mas, a pergunta é: Até quando?

———————————————————————————————–                    

Imagem 1Xiaomi apresenta bicicleta inteligente” (FonteDivulgação/Xiaomi):

http://olhardigital.uol.com.br/noticia/xiaomi-apresenta-bicicleta-inteligente/59612

Imagem 2A Internet das Coisas conecta os aparelhos e veículos usando sensores eletrônicos e a Internet” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Internet_das_coisas

Imagem 3Linha de produção de carros” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Engenharia_de_produção

Imagem 4Motoneta e bicicleta elétrica recarregando baterias na China” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Bicicleta_elétrica#/media/File:Wuchang_Garment_District_-_charging_batteries_-_P1040874.JPG

Imagem 5Roda da Cidade Inteligente” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Roda_da_cidade_inteligente#/media/File:Roda_da_Cidade_Inteligente.png

Imagem 6Refinaria de petróleo” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Refinaria#/media/File:ShellMartinez-refi.jpg

Imagem 7Uma das cúpulas geodésicas situadas na base RAF Menwith Hill, usadas para esconder a direção de antenas e equipamentos do sistema Echelon” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Tratado_de_Segurança_UK-USA#/media/File:Menwith-hill-radome.jpg

———————————————————————————————–                    

Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:                                                 

[1] Capitalismo conceitual é o termo aqui cunhado para designar um capitalismo pós-industrial em que há prevalência dos serviços de marketing, do desenho industrial e da tecnologia da informação, enfim, em que conceitos prevalecem sobre a produção de bens de consumo duráveis e não duráveis. N. do A.

[2] Resenha de “A Tirania do Petróleo: A mais Poderosa Indústria do Mundo e o que Pode ser feito para Detê-la”, de Antonia Juhasz, por José Alexandre Altahyde Hage.

Fonte: http://www.ibri-rbpi.org/?p=12381

[:]

Marcelo de Montalvão - Colaborador Voluntário

Graduado em Direito (2000) pela Universidade da Amazônia, é diretor da Montax – Inteligência & Investigações e autor de Inteligência & Indústria – Espionagem e Contraespionagem Corporativa. Pesquisa Marketing de serviços, Guerra Econômica, Economia Política e áreas afins. Como Advogado criminalista, tem foco em ações antilavagem de dinheiro para Recuperação de ativos desviados de fraudes.

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

×
Olá!