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Sob expressivos déficits comerciais, Etiópia reforça exportação de produtos agrícolas

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As economias do chamado “Sul Global”, reduzidas às atividades primárias como fontes de divisas, integram-se no mercado mundial de commodities através da venda de produtos agrícolas e minerais, consolidando com isso balanças comerciais que, no longo prazo, tendem a experimentar gradativos déficits. Isto, em especial, acontece devido ao fato destas nações importarem bens de capital para a formação dos arranjos produtivos locais, sendo que tais bens gozam de um valor de troca expressivamente maior do que o valor dos produtos exportados.

Na foto, o ex-primeiro-ministro Desalegn cumprimenta o presidente chinês Xi Jinping. Ambos intensificaram as relações diplomáticas e comerciais entre os dois países

É neste sentido que a inserção dos países da África Subsaariana no comércio internacional ocorre através das vendas externas de petróleo, pedras preciosas, gás natural e outros produtos do tipo. No caso etíope, por exemplo, o café constitui-se há muito tempo como a principal mercadoria de exportação, sendo este país um dos dez maiores exportadores dessa commodity.

No entanto, com a ascensão do projeto desenvolvimentista nacional – encabeçado, primeiramente, por Meles Zenawi, seguido por Hailemariam Desalegn e, atualmente, pelo primeiro-ministro Abiy Ahmed –, a Etiópia presencia gradativa mudança na pauta de exportações. Não que aí esteja se consolidando um intenso comércio externo de maquinários, equipamentos e demais bens de alto valor monetário. Justamente ao contrário*: presencia-se a emergência de outras mercadorias agrícolas, cuja produção e comercialização crescente se faz estimulada pela intensa demanda mundial por estas commodities.

Neste cenário destacam-se as exportações de soja, as quais somente nos três primeiros meses deste ano (2018) já superaram todo o volume exportado no ano passado por agricultores etíopes. O seu principal destino são os portos chineses, uma vez que o país asiático se destaca como um dos maiores compradores deste produto em todo o mundo.

A parceria selada entre a China e a Etiópia, na semana passada, reforça essa trajetória. Ambos acordaram em aumentar os incentivos às exportações agrícolas etíopes, tendo em vista que o Governo chinês quer reduzir a importação de soja e de demais grãos produzidos nos Estados Unidos (EUA). Estes dois países encontram-se em longas disputas comerciais, iniciadas principalmente após a posse do presidente estadunidense Donald Trump.

A assinatura do acordo ocorreu durante um encontro ocorrido em Pequim, entre membros do Governo chinês e autoridades políticas de todas as nações africanas. O evento aconteceu com o objetivo de intensificar os laços diplomáticos e econômicos entre estes países, reforçando as perspectivas de cooperação Sul-Sul e abrindo caminho a uma presença cada vez maior das empresas chinesas na África. Especificamente no que diz respeito à Etiópia, a presença da China ocorre maciçamente no plano de industrialização etíope, atuando não somente na instalação de complexos manufaturados, mas também na realização de obras de infraestrutura e na compra de grandes porções de terra para a produção agroexportadora em larga escala.

A presença chinesa, no entanto, desperta dúvidas sobre em que medida ela poderá elevar os níveis de produtividade da economia etíope. Há um nítido temor desta parceria reforçar somente um padrão de desenvolvimento dependente das grandes potências mundiais para a importação de bens de capital. Não à toa, dados recentes reforçam essa suspeita: em 2016, o déficit nas contas externas da Etiópia somou um pouco mais de 14 bilhões de dólares, levantando dúvidas sobre a viabilidade das parcerias internacionais reverterem essa consolidada conjuntura.

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Nota:

* Tem sido crescente a exportação etíope de produtos manufaturados, como roupas e demais bens têxteis. Ainda que gradativamente em expansão, a participação destas mercadorias na pauta de exportação é relativamente pequena: em 2016, representou somente 2% do total exportado pelo país africano.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Soja passará a ser exportada da Etiópia à China” (Fonte):

http://agronewsng.com/agro-shop/agrocommodities/soybean/

Imagem 1Na foto, o exprimeiroministro Desalegn cumprimenta o presidente chinês Xi Jinping. Ambos intensificaram as relações diplomáticas e comerciais entre os dois países” (Fonte):

http://semonegna.com/president-xi-jinping-china-ethiopia-ties/

Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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