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Solução para crise síria passa por pacto entre Rússia e EUA

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Ontem, dia 28 de fevereiro de 2013, ocorreu em Roma a ConferênciaAmigos do Povo Sírio” que conseguiu reunir parte da oposição síria e 11 Estados que apóiam os opositores ao atual Regime*. Nela se buscou um encaminhamento para encerrar a crise política que assola o país há dois anos e já resultou em, aproximadamente, 70 mil mortos e outras dezenas de milhares de feridos e refugiados, segundo dados que vem sendo disponibilizados à sociedade internacional pela ONU, por ONGs e diversas entidades internacionais.

A conclusão a que chegaram os participantes foi de que é necessária “mais ajuda política e material[1], sem que isso pudesse significar envolvimento direto no conflito, nem apoio militar aos rebelados. Em comunicado oficial, foi anunciado: “Os ministros prometeram mais ajuda política e material para a Coalizão (Nacional Síria), representante única e legítima do povo sírio, e mais ajuda concreta ao interior da Síria. (…) ressaltam a necessidade de mudar o equilíbrio de poder no terreno… (…) …lamentam o envio contínuo de armas ao regime (do presidente Bashar al-Assad) por países terceiros**” [1].

Francamente, o representante dos EUA, o secretário de estado John Kerry, afirmou em coletiva de imprensa que “os Estados Unidos darão 60 milhões de dólares em ajuda não letal para apoiar os esforços da oposição síria nos próximos meses… (…). Será uma ajuda direta… (…). …assistência médica e comida [1], confirmando que serão evitados os apoios bélicos, bem como que o discurso se manteve direcionado ao campo diplomático, tendo como teto a contribuição política, tal qual está no restante de sua declaração em que “Todos os sírios devem saber que eles podem ter um futuro… (…). A Coalizão de oposição pode conseguir conduzir uma transição pacífica[1], mesmo que também tenha apresentado as mesmas exigências anteriores ao Governo Assad de encerramento da repressão: “o regime deve parar imediatamente o bombardeamento indiscriminado contra as áreas populacionais, que constitui crime de guerra contra a humanidade e não pode ficar sem punição[2] .

Os observadores estão convergindo para a conclusão de que a solução para o impasse criado na crise política só poderá ser alcançada se houver um posicionamento conjunto de EUA e Rússia, da mesma forma que também estão assumindo esta necessidade as autoridades de ambos os países, apesar dos encontros internacionais, das reuniões bilaterais entre potencias, das conversações coletivas, das ameaças de bombardeio, da possibilidade invasão do território etc.

Os norte-americanos apresentam-se como o principal ator a contrapor-se a Assad e os russos sabem que não poderão permitir qualquer avanço estadunidense, ou de potências européias na região, tanto pelo fato de isso representar o encerramento de um importante comércio bélico com a Síria, como também pelo motivo de não poderem admitir a interferência direta de outras potências numa região essencial para a estratégia russa nos seus aspectos geopolíticos, geoestratégicos e geoeconômicos.

A negociação realizada ao longo da semana para tratar da crise mostrou a importância dos russos como  ponto de apoio a Assad, sem o qual o Regime já teria caído, tanto que a Rússia foi criticada pelos participantes da Conferência por manterem o fornecimento de armas ao Governo sírio, tal qual se viu na declaração.

O Governo Assad, por sua vez, percebe a necessidade de desviar o foco dessa questão e, quando agradeceu a Moscou, o fez em comunicado, citando o seu apoio, mas como ajuda humanitária, já que foram referidos apenas os auxílios médicos, com remédios e equipamentos [3] que se tornam escassos graças aos combates que ocorrem e, segundo alegam os governantes sírios, aos bloqueios feitos pelos rebeldes ao acesso às áreas afetadas.

É um argumento que coloca a Rússia em condição equivalente aos demais agentes da Comunidade internacional, pois posiciona a potência russa como preocupada apenas com as questões humanitárias envolvidas no conflito interno, colocando sob outro prisma à ajuda diplomática que a Rússia dispõe para o Governo Assad, a qual, se consolida de forma positiva para o Regime sírio nos vetos ocorridos no “Conselho de Segurança das Nações Unidas” (CS da ONU). Além disso, minimiza a manutenção das vendas de armamentos para a Síria, ignorando as contraposições da Comunidade Internacional a este comércio.

Do que apontam vários analistas, é possível concluir que a ajuda política da Rússia tem sido transparente e expressiva ao governo Assad porque os estrategistas russos conseguem transformar em discurso legitimador deste apoio a identificação das especificidades da Oposição síria, bem como as características que sugerem a produção de um cenário futuro tão violento quanto o atualmente produzido por este Governo, caso os rebeldes afastem Assad.

Além disso identificam na fragmentação da Oposição a possibilidade de desintegração do país, algo que poderia gerar a disseminação do conflito pela vizinhança, afetando a estabilidade  da região com conseqüências para o sistema internacional. Esse exercício de cenário prospectivo, como dito, gera uma justificativa para  o comportamento russo, logo, permite a legitimação de suas ações perante a Sociedade Internacional.

Assim, os russos reforçam suas exigências de transição pacífica na Síria coordenada pelo atual Governo, admitindo, em última estância, a saída de Assad, mas não sua denúncia internacional, nem exclusão de todos os membros. Uma mudança dessa forma apresenta menores riscos para os interesses estratégicos da “Federação Russa”, algo que certamente não ocorreria se o regime caísse imediatamente e todos os seus membros fossem extirpados.

De forma interessante, o Ocidente indiretamente fornece elementos à Rússia para respaldar tal comportamento, pois, se os russos justificam suas posturas com as acusações aos rebeldes sírios de que bloqueiam o caminho da paz pelo desejo que desenvolveram de depor Assad pela força das armas sem aceitar alternativa a este caminho [4], o Ocidente, de maneira equivalente aos russos, não confia nos rebelados, ao ponto de não querer permitir que a Oposição obtenha armamentos que possam ser usados contra os ocidentais após eles assumirem o poder.

As potências ocidentais não desejam ver surgir na Síria grupos similares, ou equivalentes aos que surgiram no Afeganistão, após a Guerra contra a extinta União Soviética, ou ver a assunção de um governo que posteriormente se comporte como o de Saddan Hussein, após “Guerra Irã-Iraque”.

Se para os russos estão claros os perigos decorrentes da existência de grupos que desejam derrubar Assad de forma que poderá ser interrompida a relação e negociação que há entre Síria e Rússia nos termos atuais, para os Estados Unidos e Estados europeus, também está transparente que, embora haja vários tendências entre os opositores, eles, em sua maioria são anti-ocidentais e, se há certeza de que o Regime Assad deve ser substituído, também se tem como certo que os seus substitutos devem estar desarmados.     

Diante do quadro, a situação se mantém estagnada. Assad não derrota a Rebelião e esta só avança de forma lenta e a muito custo, embora tenha vencido em várias localidades e “liberado territórios[6], ao ponto de ter anunciado a formação de um Governo rebelde nessas áreas que estão sob seu controle em reunião que seria realizada amanhã (dia 2 de março), em Istambul, na Turquia, mas, segundo anunciado, foi adiada por tempo indeterminado. Independente das razões para o adiamento, sempre emerge na avaliação dos observadores as dificuldades de a rebelião conseguir pontos de confluência entre os grupos que a constituem.

Pela condição que foi criada, também começam a convergir as opiniões de que a saída para o impasse, dificilmente será apresentada pelas reuniões entre os apoiadores estrangeiros da Revolta síria (potências ocidentais, alguns países árabes e demais entes que a reforçam), mas por uma possível negociação entre Rússia e EUA, os dois mais importantes atores envolvidos no problema.

Esta situação pode se concretizar, apesar das divergências e dificuldades de diálogo apresentadas até agora. No dia 26, terça-feira, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Seguei Lavrov, afirmou que se encontraria com seu homólogo norte-americano John Kerry, para tratar da situação síria.

Declarou após encontro com o ministro holandês das relações exteriores Frans Timmermans: “Claro que não podemos resolver pelos sírios todo este problema, mas, nos contactos com outros Estados, que, de uma ou outra forma, podem influir nas partes do conflito sírio, sentimos uma preocupação crescente com a manutenção do status-quo e uma compreensão crescente da necessidade de exercer influência, tanto no Governo como na oposição, para convencê-los a não apresentar exigências irrealistas como condição prévia para o início do diálogo (…). Hoje iremos falar disso com John Kerry. Pareceu-me, durante a nossa última conversa telefônica, que ele compreende a gravidade da situação… (…). Ainda há uns dias, parecia-nos que eram mais evidentes as condições para que as partes (rebeldes e Governo sírio) se sentassem à mesa das conversações e dessem início ao futuro do seu país, ouviram-se vozes a favor do início desse diálogo, e sem condições prévias[6].

Alguns analista começam a apontar que a situação não caminhou, mas demonstrou que ambos os Estados mais importantes que estão se contrapondo sobre a questão confluem para a certeza de que a conjuntura está no seu limite, bem como que a saída terá de ser negociada. Porém, não deverá ser pelos os sírios apenas, tal qual afirmam os russos, nem pelo rebeldes com apoio internacional, seguindo o caminho exclusivamente político de embate com o Governo, como declaram as potências ocidentais.

Ela terá negociada para chegar a um pacto entre Rússia e EUA para determinar uma trajetória que não afete os interesses russos em sua “zona de influência”, mas garanta um espaço para os norte-americanos e ocidentais naquela região. Este é um ponto de intersecção difícil de ser encontrado, talvez, por isso, parte significativa dos observadores ainda estejam apostando no pior cenário, com mais violência, esgotamento das partes em confronto e possível desintegração do país.   

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Imagens (Fonte – Wikipédia):

a. Brasão de Armas da Rússia:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Rússia

b. Bandeira sobre o mapa da Síria:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Flag-map_of_Syria.svg

c. “Grande Selo dos EUA”:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Estados_Unidos

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* Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Turquia, Egito, Jordânia, Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes Unidos.

** Referência à Rússia.

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5g5zE-_tQwzo97la2XSNrdj1SGGdA?docId=CNG.ef55ce2a100885860cf960c8801d6dd7.9f1

[2] Ver:

http://www.tvi24.iol.pt/503/internacional/siria-john-kerry-amigos-da-siria-assad-oposicao-tvi24/1424523-4073.html

[3] Ver:

http://www.diariodarussia.com.br/internacional/noticias/2013/02/26/siria-agradece-ajuda-da-russia/

[4] Ver:

http://portuguese.ruvr.ru/2013_02_26/Lavrov-extremistas-predominam-no-seio-da-oposicao-siria/

Ver também:

http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/russia-acusa-oposicao-extremista-siria-de-bloquear-o-dialogo

[5] Ver:

http://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2013/02/22/interna_internacional,352461/oposicao-siria-formara-gabinete-em-territorios-libertados.shtml

Ver também:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/ultimas_noticias/2013/02/130222_siria_governo_rebelde_ac_rn.shtml

[6] Ver:

http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=3074801&seccao=M%E9dio%20Oriente

Ver também:

http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5ixuObAO4P0juaVEkJQjNJO7NlJyw?docId=CNG.c463641f8612400b693d267b2e612848.951

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Ver ainda:

http://jornaldeangola.sapo.ao/19/49/o_futuro_que_se_joga_na_siria

Ver ainda:

http://www.parana-online.com.br/editoria/mundo/news/653350/?noticia=KERRY+E+LAVROV+DISCUTEM+GUERRA+CIVIL+NA+SIRIA

Ver ainda:

http://www.marataizes.com.br/noticias/news.php?codnot=291464

Ver ainda:

http://g1.globo.com/revolta-arabe/noticia/2013/02/russia-pede-oposicao-siria-que-inicie-negociacoes-com-damasco.html

Ver ainda:

http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/mundo/2013/02/25/interna_mundo,425245/governo-sirio-se-dispoe-a-dialogar-com-grupos-armados.shtml

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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