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Supostos pagamentos ilegais para sediar a Copa do Mundo ilustram a corrupção na África do Sul

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Nas ultimas semanas, dia após dia florescem novas acusações envolvendo membros da Federação Internacional de Futebol (FIFA) e de alguns países sedes das últimas edições da Copa do Mundo de Futebol, dando proporções cada vez maiores às investigações conduzidas pela Polícia Federal Estadunidense (o Federal Bureau of Investigation / FBI). O caso veio à tona quando na noite de quartafeira, dia 27 de maio, sete executivos da FIFA, entre eles o brasileiro José Maria Marin, foram presos pelo FBI, suspeitos de corrupção no futebol[1].

Entre as últimas informações que vieram à público está a carta trocada entre o exdirigente da Associação de Futebol da África do Sul e organizador geral da Copa do Mundo neste país, Danny Jordan; o diretor da FIFA, Jerome Valcker; e o exdirigente da Central American and Caribbean Association Football” (CONCACAF), Jack Werner[2][3].

Ao longo da carta, escrita em dezembro de 2007, Jordan escreve a Valcker, informando-o haver transferido aproximadamente 10 milhões de dólares à CONCACAF com o intuito de financiar um programa para promover o desenvolvimento do futebol nesta região, chamado “FIFA World Cup Diaspora Legacy Program[2].

Entretanto, autoridades sulafricanas e membros dos partidos da oposição alegam que o Governo da África do Sul jamais conduziu um programa deste tipo: segundo Mosioua Lekota, líder do partido oposicionista Congresso para o Povo”, “não há como dizer que isto [o programa] foi autorizado pelo governo (…). Nunca algo deste tipo foi discutido no gabinete. Nós [do governo] não sabíamos de nada[3].

Dessa forma, uma vez que o Programa não é reconhecido pelo Governo sulafricano, suspeita-se que a quantia de dez milhões tenha sido paga ao exdirigente Jack Werner para garantir o voto da CONCACAF à África do Sul como sede da Copa do Mundo de futebol de 2010[2][3].

O caso ilustra as práticas corruptíveis que há tanto tempo assolam a África do Sul: ainda que comparável aos seus pares na região subsaariana, a África do Sul está melhor posicionada no ranking global de percepção da corrupção[4] e tais práticas ilegais minam a confiança de seus habitantes de que um dia o seu país ocupará o papel de protagonista no cenário internacional.

As práticas de corrupção nas instituições públicas sul-africanas tem sido um dos principais motivos pelos quais os seus cidadãos estão indo às ruas nos últimos anos. Somada à piora nos indicadores sociais, como a expectativa de vida e desigualdade econômica, o Congresso Nacional Africano (CNA) encontra-se em uma situação delicada, uma vez que o seu prestígio entre a população local é o menor desde 1994. Não à toa, nas eleições do ano passado a margem de diferença entre o CNA e a Aliança Democrática, principal partido de oposição, diminuiu expressivamente.

A desconfiança geral da população em relação aos seus representantes políticos também recai sobre o presidente Jacob Zuma. Ano passado, ele foi acusado de haver reformado a sua casa de campo – em uma obra com custo estimado em 22 milhões de dólares – com recursos públicos[5]. O recente aumento abrupto no salário do Presidente, aprovado por mais de 200 parlamentares, também causou indignação nacional: após o aumento de 130 mil rands, o presidente Zuma irá ganhar, anualmente, 2,7 milhões de rands, ou 216 mil dólares, segundo valores atuais[6].

Espera-se que as investigações sobre os supostos casos de corrupção na organização da Copa do Mundo de Futebol de 2010 sejam concluídas, apresentando os envolvidos e retornando a quantia desviada aos cofres públicos. Somente através das investigações e de total transparência é que a África do Sul poderá erguer instituições sólidas para sustentar os desafios do novo século.

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Imagem (FonteMary Scully Reports):

http://www.maryscullyreports.com/fifa-getting-nailed-corruption-contempt-human-rights/

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Fontes Consultadas:

[1] VerAgência Brasil”:

http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2015-05/romario-comemora-prisao-de-jose-maria-marin

[2] VerMail & Guardian”:

http://mg.co.za/article/2015-06-04-danny-jordaans-damning-letter-to-fifa

[3] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/football/2015/jun/05/world-cup-2010-fifa-scandal-danny-jordaan

[4] VerTransparência Internacional”:

http://www.transparency.org/cpi2014/results

[5] VerIrish Times”:

http://www.irishtimes.com/news/world/africa/jacob-zuma-won-t-repay-cost-of-security-upgrades-at-rural-home-1.2231334

[6] VerMail & Guardian”:

http://mg.co.za/article/2015-06-05-zuma-not-rich-enough-yet

Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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