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Suspensão do Fornecimento Turco de Água à Síria: Perspectiva de Novo Estímulo à Crise Humanitária

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O Oriente Médio é uma região conhecida pela escassez de água. Este recurso natural tem provocado tensões entre os países vizinhos, na medida em que o crescimento populacional está diretamente relacionado com o aumento da demanda por água. Recentemente, a Turquia encerrou o fornecimento de água para a Síria e para o Iraque. Desde o final do Império Otomano, em 1922, começaram as dificuldades de entendimento entre estes três países ribeirinhos (Turquia, Síria e Iraque), dependentes do abastecimento a partir do Rio Eufrates. Este rio tem sido o protagonista de conflitos entre o trio e, em pleno século XXI, Ancara insiste em manter o Eufrates como uma “trans-fronteira”, não o considerando como um rio submetido às leis internacionais. Cabe lembrar que a Turquia, juntamente com a China e o Burundi, pertence ao grupo de países que se recusaram a assinar a Convenção sobre o Direito de Não-Navegação dos Cursos de Águas Internacionais, adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1997[1].

A partir da segunda metade dos anos de 1960, realizaram-se reuniões bilaterais e tripartidas entre a Turquia, a Síria e o Iraque para tratar da questão da água, mas eles não conseguiram chegar a um acordo formal, pelo que a situação continua por resolver[2]. Há alguns meses, o Governo turco decidiu encerrar o fornecimento de água à Síria e ao Iraque ao interromper o bombeamento do Rio Eufrates. O corte se deu de modo gradativo, há cerca de um mês, até o fechamento total. Segundo informações de uma fonte anônima, o nível de água no Lago Assad diminuiu seis metros deixando milhares de cidadãos sírios sem água potável[3]. Esta fonte ainda advertiu que “uma nova queda de um metro adicional colocaria a barragem fora de serviço[4].

A gravidade da situação começou a repercutir quando foi detectado que o nível de água da Estação de Bombeamento al-Khafsa baixou de modo a comprometer o abastecimento da área rural e da cidade de Aleppo, para além dos reservatórios auxiliares dessa Estação. Neste momento, sete milhões de sírios estão sob a ameaça de ficar sem água[5]. O fornecimento de energia elétrica também está comprometido, uma vez que a Barragem Hidrelétrica Tishrin Dam, construída no Rio Eufrates, a 90 Km a leste de Aleppo, deixou de receber água, impossibilitando o funcionamento de suas turbinas. A paralisação dessa hidrelétrica agravará ainda mais o fornecimento de energia na cidade, que já passa por sérios problemas relacionados com a insuficiência energética. Por outro lado, os dois milhões de sírios que vivem na região, que compreende as aldeias de Little Swaydiya e al-Jarniya,poderão ficar sem água potável muito em breve[6].

A cada momento a situação torna-se mais complexa e, de acordo com informações, “perder o abastecimento de água na barragem significa que o lodo no lago vai secar e pressionará a sua estrutura, submetendo-a a fissuras e, eventualmente, ao colapso total[7]. A mesma fonte advertiu ainda que “é crucial fechar a barragem para evitar o seu colapso[7]. Entretanto, o fechamento da barragem poderá provocar uma crise humanitária e ecológica na Síria e no Iraque[8].

Os habitantes locais estão tentando encontrar uma solução alternativa e tencionam reativar a Termelétrica al-Safira. Porém, isto não representa uma solução para todos os problemas que poderão ser solucionados somente quando as águas do Rio Eufrates voltarem a ser bombeadas, ato que depende exclusivamente de uma decisão do Governo turco.

Ainda que o fornecimento de água fosse retomado imediatamente, demoraria um mês para que a água voltasse ao nível normal[9]. Enquanto prosseguem as tentativas emergenciais, a Síria vive mais uma grave crise que se soma à Guerra Civil, em curso desde 2011. Se Ancara mantiver a decisão de não permitir o bombeamento de água do Rio Eufrates, a situação humanitária na Síria será catastrófica num país já assolado pela guerra e, no Iraque, não será diferente. Neste contexto, somente as pressões da ONU e da comunidade internacional poderão fazer com que o Governo turco reveja a sua decisão, evitando assim uma tragédia anunciada.

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Imagem Barragens nas bacias dos rios Tigre e Eufrates” (Fonte):

https://nealrauhauser.files.wordpress.com/2013/01/euphratestigrisdams.jpg

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://english.al-akhbar.com/content/new-turkish-aggression-against-syria-ankara-suspends-pumping-euphrates%E2%80%99-water

[2] Ver:

http://www.transboundarywaters.orst.edu/research/case_studies/Tigris-Euphrates_New.htm

[3] Ver:

http://english.al-akhbar.com/content/new-turkish-aggression-against-syria-ankara-suspends-pumping-euphrates%E2%80%99-water

[4] Ver:

http://stratrisks.com/geostrat/19676

[5] Ver:

https://therearenosunglasses.wordpress.com/2014/05/30/2-weeks-ago-turkey-stopped-flow-of-euphrates-river-into-syria-and-iraq-6-meter-drop-in-lake-assad/

[6] Ver:

http://english.al-akhbar.com/content/new-turkish-aggression-against-syria-ankara-suspends-pumping-euphrates%E2%80%99-water

[7] Ver:

http://english.al-akhbar.com/content/new-turkish-aggression-against-syria-ankara-suspends-pumping-euphrates%E2%80%99-water

[8] Ver:

http://english.al-akhbar.com/content/new-turkish-aggression-against-syria-ankara-suspends-pumping-euphrates%E2%80%99-water

[9] Ver:

http://english.al-akhbar.com/content/new-turkish-aggression-against-syria-ankara-suspends-pumping-euphrates%E2%80%99-water

Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

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