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As relações entre a China e Formosa a partir deste ano (2012) continuam sendo observadas pelo viés das transições de poderes nos dois lados do “Estreito de Taiwan” e pelas mudanças que ocorrerão nos Estados Unidos, que historicamente mantém fortes relações com a Ilha, sendo um de seus maiores aliados. Para os analistas políticos e econômicos, uma parte do “quebra-cabeças” já foi definido, com a reeleição para mais quatro anos de Ma Ying-jou (马英九), o atual “Presidente da República da China” (ROC, sigla em inglês).

 

Em Taipei, o Presidente venceu as eleições com 51,6% dos votos, mantendo o Kuomintang (KMT) no poder, contra 45,63% da sua principal adversária,Tsai Ing-wen (蔡英文), do partido “Partido Progressista Democrático” (PPD). Embora tenha tido uma boa vantagem sobre seus adversários, há sinais de mudanças na opinião pública do país.

Segundo os dados da “Comissão Eleitoral Central de Taiwan” (CEC), até as 22:00 de domingo (0:00 a.m horário de Brasília), Ma já computava 6.891.139 votos (51,6%) contra 6.093.578 (45,63%) da candidata Tsai, um resultado que lhe garantiu a vitória, mas representou uma queda de 767 mil votos, comparados com os resultados das eleições de 2008, quando ele recebeu apoio de 58,45% do eleitorado. Além disso, este resultado apresentou um crescimento dos eleitores do DPP, que teve 648 mil (4,05%) votos a mais do que nas últimas eleições.

Nunca foi fácil desafiar um presidente em exercício. Nós não fizemos bem o suficiente nas regiões central e norte de Taiwan (…) Lamento que eu deixei os nossos apoiantes (sic) para baixo”, afirmou Tsai Ing-wen, ao “Taipei Times”*.

Esses resultados demonstraram que o apoio às políticas do atual “Presidente de Formosa” continua forte, porém, como em eleições anteriores, o apoio do KMT vem dos eleitores do centro para o norte de Taiwan, lugares ainda com o maior número de eleitores, e sua aceitação continua baixa nas cidades localizadas do centro para o sul da Ilha.

Fora da ROC, esses resultados tem recebido outras interpretações por parte de muitos acadêmicos e analistas chineses, taiwaneses e norte-americanos, pois as posturas e decisões adotadas por Hu Jintao (Presidente da “China Continental”) e pelo presidente taiwanês Ma foram fundamentais para as atuais mudanças nas políticas econômicas de ambos os lados do Estreito e também para a redução das hostilidades, além de fundamentais para a abertura de novas portas para os dois países.

Desde que Ma assumiu o poder, Taipei tentou melhorar os laços com a “China Continental” e o presidente Hu Jintao alterou a política adotada para Formosa, passando de “ameaças” para uma aproximação econômica.

Ma deu continuidade às políticas de seu Partido, que há mais de 6 décadas vem buscando boas relações com Beijing a fim de evitar um possível conflito, mas os melhores resultados político-econômicos de ambos os Estados veio com a política de Hu Jintao (胡锦涛) aplicada para Taiwan.

Desde 2008, houve uma série de “Acordos Comerciais” e “Acordos de Trânsito”, permitindo vôos diretos de Taipei para a parte continental, sem a necessidade de conexão com “Hong Kong” e Macau, além de melhorias no turismo e no transporte marítimo, comercial e de viagens.

Os analistas concordam que, com a vitoria do KMT, as políticas de “boas relações” de Taipei com Beijing terão continuidade, o que poderá fazer com que Jintao repasse essa política de relações pacíficas China-Taiwan para seu sucessor (transição de poder que ocorrerá em março deste ano, 2012), mantendo a aproximação com a Ilha por meio da economia e evitando as grandes tensões políticas.

Antes dos resultados das Eleições, existia muitas dúvidas sobre como seria a postura de Taipei com Beijing caso Tsai Ing-wen fosse eleita. Conforme afirmou Yen Chen-shen, o diretor do “Instituto de Relações Internacionais da Universidade Nacional Chengchi”, para o jornal “O Estado de São Paulo”: “Se Tsai ganhasse, isso fortaleceria a ala ‘linha-dura’ do ‘Exército de Libertação Popular’, favorável a uma política mais agressiva no relacionamento com Taiwan”**.

As incertezas que a candidata do DPP apresentava pode ter sido um dos fatores de sua derrota nas urnas, pois, pelo fato de maior parte do eleitorado da ilha ser da região norte do país, área mais industrializada e de grandes metrópoles, o povo taiwanês poderia estar mais preocupado com a situação econômica da Ilha.

Para grande segmento da população, bem como dos analistas, se Tsai alterasse de forma radical as relações com a “China Continental”, a economia taiwanesa poderia sofrer com embargos, uma vez que sua economia tem dependência expressiva da parte Continental, tanto quanto outras economias asiáticas.

Se a eleição levar a qualquer mudança ou incerteza, todo mundo terá de pagar o preço de suas próprias decisões”**, declarou ontem Terry Gou, dono da Foxconn, a maior fabricante de eletrônicos do mundo, um eleitor declarado do Kuomintang.

Além dos taiwaneses, Tsai deixou dúvidas sobre suas possíveis ações para seus principais aliados: os “Estados Unidos”. Phil Saunders, diretor do “Centro de Estudos Militares” chineses do “Instituto de Estudos Estratégicos Nacionais”, afirmou acreditar que as boas relações China-Taiwan estão ligadas ao presidente Hu Jintao e, por isso, a vitória do DPP seria um revés para ele. Expressou esta avaliação durante a Conferência da “Fundação Heritage”.

Há várias coisas que o continente poderia fazer para punir Taiwan e a questão é como eles vão usar a sua influência e tentar moldar o relacionamento (…). Beijing pode colocar um pouco de dor para a ilha”***, disse Saunders, acrescentando que Pequim tem uma influência “econômica, política e diplomática”*** sobre Taiwan. Caso houvesse um “boicote” econômico chinês para a Ilha, forçaria Taipei a renovar suas relações com os “Estados Unidos”, buscando mais apoio em Segurança, além das relações econômicas.

Porém, para Washington, Tsai não foi convincente de suas pretensões reais quando estivesse no poder. Dean Cheng (成斌), pesquisador de “Estudos Asiáticos” na “Heritage Foundation”, informou que quando Tsai Ing-wen visitou os EUA em 2011, ela havia dado uma entrevista polêmica ao “Financial Times” (FT).

Ela nos deixou com dúvidas distintas sobre se ela está disposta e se é capaz de continuar a estabilidade que tem se mantido nas relações do Estreito nos últimos anos”***, disse um funcionário do governo norte-americano, que pediu anonimato, durante a entrevista do FT. “(A) entrevista sobre Tsai Ing-wen, infelizmente, criou uma situação onde, Tsai tem muito menos incentivo para ser conciliatória para os EUA”, disse Cheng***.

Isso não significa que se ela for eleita vai declarar independência no dia seguinte, mas faz enfraquecer as oportunidades americanas de ter influência sobre as políticas do DPP, simplesmente porque o governo parece ter que se deparar com um ‘nós não gostamos de você’”, afirmou ele***.

Além disso, uma possível postura mais radical de Tsai poderia ser muito insatisfatória para a comercialização de armas entre Taipei e Washinton e também com o Japão, que permitiu a exportação de equipamentos militar para a ilha, exatamente pela radicalização do jogo, ao contrário do que poderia parecer.

Assim, como não houve mudanças no governo de Taiwan, a política a ser seguida será do “Consenso de 1992”, afirmando que existe “só uma China”, porém permitindo que cada parte interprete o Conceito de acordo com suas necessidades e perspectivas. Para o “Partido Comunista”, a expressão se refere à “República Popular da China”, fundada em 1949. Para o Kuomintang, é a “República da China”, criada em 1911, que foi “transferida” para Formosa depois da derrota dos nacionalistas na “Guerra Civil” com os comunistas.

Neste momento, as atenções se voltarão para a transição de poder na China e para as eleições nos Estados Unidos, pois tais acontecimentos tem o restante da força para afetar as relações entre China-Taiwan.

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Fontes:

* VerTaipei Times”:

http://www.taipeitimes.com/News/front/archives/2012/01/15/2003523249

** VerEstadão”:

http://m.estadao.com.br/noticias/internacional,presidente-pro-china-e-reeleito-em-taiwan,822713.htm

*** Ver Taipei Times”:

http://www.taipeitimes.com/News/taiwan/archives/2012/01/12/2003523043

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Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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