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Tensão na Líbia não diminuiu e Primavera apresenta-se como Inverno

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Após a queda de Muammar Kadhafi, ex-mandatário da Líbia, a situação continua tensa no país, com grandes focos de violência a percorrer as cidades e regiões. Analistas como Evgueni Satanovski, presidente do “Instituto do Oriente Médio” (Rússia) afirmam que o caos está imperando, ao contrário das divulgações feitas de que a Líbia caminha para a construção de um processo democrático.

Em suas palavras, “O motim separatista em Bengazi, que dera outrora início à ‘Primavera Árabe’, teve sua continuação lógica. A Cirenaica anunciou a sua autonomia e isso torna evidente por que motivo à Arábia Saudita e o Catar levaram a cabo a operação de derrubamento de Kadafi. Hoje a hostilidade entre as tribos já alcança o nível de genocídio, são massacradas algumas tribos africanas. A bandeira da ‘Primavera Árabe’ não resultou na formação de nenhuma democracia na Líbia – o país está à beira do desmoronamento”*.

Apesar de suas avaliações poderem estar vinculadas às necessidades políticas da Rússia, os fatos ao longo dos últimos meses apontam que a Líbia vive uma tendência de fragmentação política e territorial, conforme já apontavam vários especialistas durante a revolução que derrubou o regime de Kadhafi, mesmo que estes também se posicionassem contrários à permanência do ex-líder no poder.

A saída do homem que mantinha a unidade do país trouxe imediatamente as reivindicações de autonomia, uma vez que as diferenças de grupos étnicos no Líbia são elevadas; a existência de tribos com graus variados de divergências é real e o ponto de unificação se dava pela forma como Kadhafi agia, portando-se acima dos demais “chefes tribais”, como uma entidade suprema sobre as instituições políticas do Estado líbio, chegando a ser ele próprio a real personificação da idéia de Estado naquele país.

Sua queda representou o desaparecimento do ponto de controle das lideranças regionais e tribais, mesmo que com grande violência e alto grau de corrupção, já que não construiu instituições políticas e sociais para preservar a unidade e organizar a sociedade da Líbia, excetuando-se as “Forças de Segurança”, que foram instrumento de controle e manutenção da Ordem e não um canal para fluírem as demandas sociais.

O próprio modelo de Democracia que denominou (algo distinto do espírito daquilo que se chama de Democracia no Ocidente), na qual a representação política é abolida em prol de uma ação direta dos líderes e de seus grupos, foi uma forma de garantir a integração, ou no mínimo a concordância de todos para a manutenção da unidade territorial e política do país.

No momento, a sociedade líbia continua dividida. Continuam as lideranças tribais confrontando-se entre si; os comandantes de grupos paramilitares mantendo seus micropoderes; há milhares de líbios armados, devido ao fato de os depósitos de armas do antigo Governo terem ficados abertos durante muito tempo sem vigilância e terem sido saqueados por milhares de pessoas e dezenas de grupos, além dos desvios que ocorreram por parte das novas autoridades.

Estas autoridades, por suas vez, ainda buscam um modelo de instituições políticas democráticas para implantar, sem saber como manter a unidade interna do governo, bem como das personalidades que assumiram os cargos governamentais e assim evitar que a Líbia se torne um estado fundamentalista islâmico, já que o grupos muçulmanos apresentam-se como os mais articulados no país.

As disputas por autonomia estão levando o governo a declarar que usará de violência se necessário para impedir que o país se esfacele. Apesar de se reivindicar autonomia e não a separação, todos sabem que não há instituições capazes de preservar a unidade, logo as reinvindicações resultarão na quebra da integridade territorial líbia.

No dia 6 de março, chefes tribais anunciaram a autonomia da Cirenaica e receberam respostas duras do Governo**, pois este tem consciência de que a região é responsável por quase 70% do petróleo líbio e, sem ele, o restante do país cairá na miséria, já que, como dito, se não há instituições para preservar a unidade, menos ainda há instituições que possam garantir que os recursos serão distribuídos para todas as regiões, principalmente neste momento de recuperação em que a Líbia vive.

Os russos acusam a França e o Reino unido de terem sido os responsáveis pela a situação, já que, das suas perspectivas, desejavam o controle do petróleo do país. Da mesma forma também os acusam de estar por trás dessas atuais reivindicações por autonomia, como forma de despistar a separação, ou, no mínimo, o controle que terão em troca do apoio dado aos solicitantes.

As lutas no momento estão sendo concentradas em torno dos temas federação ou unitarismo e os grupos envolvidos estão usando de violência ou recebendo respostas violentas por parte dos antagonistas***, além das violências do Governo. O principal problema identificado pelos analistas, contudo, está na inexistência das instituições e na demora para conseguir a confluência das lideranças para criá-las ou organizá-las. Devido a tal condição, os analistas estão receosos e acrescentam que a tendência será de que o país volte a mergulhar em conflitos internos e não estão sendo apresentados cenários positivos.

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Fontes:

* Ver:

http://www.vermelho.org.br/sc/noticia.php?id_secao=9&id_noticia=178561

** Ver:

http://www.jb.com.br/internacional/noticias/2012/03/16/enfrentamentos-na-libia-pela-autonomia-do-leste/

*** Ver:

http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/grupo-ataca-manifestantes-que-pediam-estado-federalista-na-libia

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Ver também:

http://www.diariodarussia.com.br/internacional/noticias/2012/03/20/situacao-na-libia-ainda-e-de-muita-tensao/

Ver também:

http://noticias.terra.com.br/noticias/0,,OI5672603-EI188,00-Descoberta+vala+comum+com+corpos+perto+de+Tripoli.html

Ver também:

http://www.monitormercantil.com.br/mostranoticia.php?id=109736

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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