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Como bem observou o The Economist, “no solo sempre contestado da Terra Santa, orar não é apenas um ato de devoção: [é um ato que] implica propriedade[1]. É nesse contexto que deve ser entendida a tentativa de assassinato do rabino e ativista religioso, Yehuda Glick, em 29 de outubro[2].

Quando Israel retomou o Muro das Lamentações e anexou[3], Jerusalém oriental, garantiu que muçulmanos teriam o direito exclusivo de orar na Esplanada das Mesquitas, o terceiro lugar mais sagrado para o Islã. É precisamente o desafio por parte de Yehuda Glick e outros rabinos e ativistas israelenses à proibição aos judeus de orar na Esplanada que motivou o atentado a sua vida[1].

No entanto, o atentado fez redobrar reivindicações pelo direito judeu de oração, ao passo que palestinos parecem ter adotado uma tática de atropelamento de pedestres judeus[1]. A prática já havia ocorrido em 22 de outubro, antes mesmo do atentado à vida de Glick, ocasionando a morte de dois civis israelenses, e, mais recentemente, em 5 de novembro, causando também duas mortes[4]. Além disso, apenas na última segunda-feira, 10 de novembro, um soldado israelense foi esfaqueado até a morte em Tel Aviv e três israelenses foram esfaqueados – um deles, fatalmente – na Cisjordânia[5].

O quadro geral de escalonamento de violência tem gerado visões divergentes entre analistas, que tentam avaliar se uma terceira Intifada está prestes a ocorrer[6]. Por um lado, como argumentado em matéria da CNN, especialistas apontam que, desde a morte de Arafat, se tornou mais difícil entrar em Israel a partir da Cisjordânia, especialmente com explosivos[5], principalmente devido à construção do Muro da Cisjordânia, desde 2005. Com isso, um levante armado nos moldes da Segunda Intifada se torna menos provável. Ao mesmo tempo, não houve nenhum chamado às armas por parte de nenhuma liderança palestina na Cisjordânia, nem tampouco nenhum ataque coordenado contra Israel, como os do início do ano 2.000[5].

Por outro lado, Shimrit Meir, editor israelense do site de notícias árabe The Source, argumenta que “nós estamos usando ferramentas do século XX para analisar um fenômeno do século XXI[7] e afirma enxergar o recente escalonamento de violência como uma “Intifada Pós-Moderna”, em que períodos de violência intensa podem ser seguidos por calmarias, sem, no entanto, esclarecer como esse conceito se aplica à atual situação de Jerusalém.

De toda forma, como observa o New York Times, em meio à discussão quanto às características destes recentes acontecimentos e suas semelhanças com uma “Intifada” (seja Primeira, Segunda ou “Pós-Moderna”), há aqueles que afirmam que tais questionamentos tiram a atenção “das causas e dinâmicas da ira e do desespero de uma nova geração [7].

Mais uma vez, como bem observou o The Economist, “no solo sempre contestado da Terra Santa, orar não é apenas um ato de devoção: [é um ato que] implica propriedade[1]. E implica propriedade em uma cidade (Jerusalém Oriental) anexada[3] e cuja população árabe enfrenta cotidianamente, e à semelhança da população do restante da Cisjordânia, políticas israelenses vistas por eles e por observadores como discriminatórias que privilegiam a presença e expansão (demográfica e geográfica) de judeus israelenses neste território[8]. Segundo consideram, em violação do direito internacional humanitário[9].

Isso não quer dizer que as “causas e dinâmicas” da onda de violência que parece estar tomando Jerusalém se resumem aos fatores acima. Contudo, a análise “da ira e do desespero” dessa uma “nova geração” palestina, que vem se confrontando com a polícia israelense em Jerusalém Oriental mesmo antes da operação de Israel em Gaza[10], deve levar em conta o presente de uma realidade cotidiana marcada pelo estado de ocupação da Cisjordânia (incluindo Jerusalém Oriental).

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ImagemJovens palestinos e policiais israelenses se enfrentam no campo de refugiados de Shuafat em Jerusalém Oriental, 6 de novembro de 2014” (Fonte):

http://www.nytimes.com/2014/11/07/world/middleeast/israel-palestinians-jerusalem-unrest-al-aqsa.html?_r=0

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.economist.com/news/leaders/21631026-binyamin-netanyahu-must-resist-dangerous-campaign-jewish-prayer-rights-muslim-holy

[2] Ver:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2014/10/30/a_declaration_of_war_in_jerusalem_abbas_palestine_israel

[3] A anexação, por Israel, de Jerusalém Oriental foi considerada ilegal pelas Nações Unidas repetidas vezes. Ver, e.g., Resolução 478 do Conselho de Segurança da ONU, de 1980:

http://www.un.org/en/ga/search/view_doc.asp?symbol=S/RES/478(1980)

[4] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/nov/11/jerusalem-tensions-holy-site-threaten-boil-over

[5] Ver:

http://edition.cnn.com/2014/11/11/world/meast/israel-palestinian-violence/

[6] Ver, e.g.:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2014/11/10/jerusalem_knife_edge_palestine_attacks_unrest_stabbing_intifada;

Ver também:

http://www.al-monitor.com/pulse/originals/2014/11/third-intifada-jerusalem-violence-temple-mount-religious-war.html

[7] Ver:

http://www.nytimes.com/2014/11/07/world/middleeast/israel-palestinians-jerusalem-unrest-al-aqsa.html?_r=0

[8] Ver, e.g., publicações das ONGs, “Civic Coalition for Defending Palestinian Rights in Jerusalem”:

http://www.civiccoalition-jerusalem.org/ccdprj.ps/new/pdfs/Aggressive%20Urbanism%20Report.pdf;

Ver também:

http://civiccoalition-jerusalem.org/system/files/documents/brief_-_population_transfer_in_occupied_jerusalem.pdf;

Ver tambémBADIL Resource Center for Palestinian Residency and Refugee Rights”:

http://www.badil.org/en/documents/category/35-publications?download=1045%3Abadil-handbook;

Ver também:

http://badil.org/phocadownload/Badil_docs/publications/wp16-Residency.pdf;

Ver tambémBTselem”:

http://www.btselem.org/printpdf/51840;

Ver também:

http://www.btselem.org/printpdf/51824

[9] Regra 130 do direito internacional humanitário consuetudinário afirma queEstados não podem deportar ou transferir partes de sua própria população civil para um território que ocupam”. Para maiores esclarecimentos, ver:

https://www.icrc.org/customary-ihl/eng/docs/v1_cha_chapter38_rule130

[10] Ver:

http://972mag.com/watch-theres-no-peace-in-jerusalem/98644/

Ricardo Fal Dutra Santos - Colaborador Voluntário

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.

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